E agora, José?

Nós (nós que eu digo se refere a parcela de jovens brasileiros dos anos de 1960) tínhamos muitas certezas.

selo-apontamentosCertezas sobre quase tudo. Afinal, como diziam à exaustão, nós, os jovens, éramos o futuro do Brasil. Não era coisa pouca. Mergulhado numa ditadura militar o Brasil depositava suas esperanças na gente! Vocês conseguem imaginar o que isso significava? Nós, os jovens, éramos o futuro do Brasil.

Para sorte do Brasil tínhamos cabal consciência de que, alertados por Geraldo Vandré “quem sabe faz a hora não espera acontecer”. E fomos às ruas, como no dizer de Caetano Veloso para caminhar; estávamos sempre prontos para caminhar, e nos pegavam, seguidamente, “caminhando contra o vento/ sem lenço. Sem documento”. E berrávamos à toda garganta: “E eu digo não/ E eu digo não ao não/ Eu digo: É! — proibido proibir/ É proibido proibir/É proibido proibir/ É proibido proibir… Me dê um beijo meu amor/ Eles estão nos esperando/ Os automóveis ardem em chamas/ Derrubar as prateleiras/ As estátuas, as estantes/ As vidraças, louças, livros, sim…/”

Sim, gritávamos, é proibido proibir. Quanto mais gritávamos, mais proibiam. Mas tínhamos que seguir, afinal, não diziam os doutos que éramos o futuro? Nós estávamos “caminhando e cantando e seguindo a canção” Pois éramos “todos iguais braços dados ou não”. Tem algo mais poderoso do que alguém sentindo que faz a história? Não estudávamos história, ninguém nos ensinava história não, estávamos fazendo história; fazendo a história do Brasil. Alguns morreram, alguns deixavam verter lágrimas, outros – é necessário reconhecer – desertavam tangidos pelo medo.

Naquele tempo seguíamos “nas escolas, nas ruas, campos, construções/ Somos todos soldados, armados ou não/ Caminhando e cantando e seguindo a canção/ Somos todos iguais braços dados ou não/ Os amores na mente, as flores no chão/ A certeza na frente, a história na mão/

Caminhando e cantando e seguindo a canção/ Aprendendo e ensinando uma nova lição.” Sacaram? Queríamos o poder para fazer nova história!

Quem ousaria prever naqueles loucos, insanos tempos lúgubres, tempos tensos, plenos de medo, cheios de sofrimentos, que parte da molecada chegaria ao poder? É, parte chegou ao poder. Os que caminharam contra o vento sem lenço, sem documento, os que impediam proibições e derrubavam prateleiras, os que de braços dados seguiam a canção, chegaram ao poder. Chegaram ao poder, como queriam!

E aí caburé? Ocorre o quê quando o “futuro” chega ao poder em Brasília? Simples, voltamos ao passado que condenávamos. Nesta hora ouço Carlos Drummond de Andrade indagando: ”E agora, José/ A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou,/ e agora, José?/ e agora, você?”

Drummond parece não perdoar e insiste: E agora, José “…está sem discurso,/ já não pode beber,/ já não pode fumar,/ cuspir já não pode,/ a noite esfriou,/ o dia não veio,/ o bonde não veio,/ o riso não veio,/ não veio a utopia/ e tudo acabou/ e tudo fugiu/ e tudo mofou,/ e agora, José?”

Pois é, e agora, José? E agora, Luiz? E agora, Antônio? E agora, malandro? Chegamos ao ponto de dar razão a Bezerra da Silva? Ou seja: “se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”. De hora em diante é bom pensar duas vezes antes de dizer que a juventude é o futuro do país, pode dar zebra e o passado de apossar dos propalados novos tempos!

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