E Atenção Ouvintes: o Rádio falou! Milton Ferretti Jung

Em 1950, uma das atividades mais aguardadas pelos jovens do Bairro São João em Porto Alegre, eram as quermesses da Paróquia Sagrado Coração de Jesus.

Havia brincadeiras e as inesquecíveis falas no alto-falante da Igreja: Antônio manda um recado para a Valderez.... No microfone, o adolescente Milton Ferretti Jung lia e mandava recados para animar a festa.

Ele também participou da “Voz Alegre da Colina”. Nas linhas do próprio Milton, foi a primeira vez que falei alto e em bom som num microfone de verdade.

Nascido em Caxias do Sul, em 29 de outubro de 1935, ainda bem pequeno Milton veio morar com a família em Porto Alegre. Na casa da Rua 16 de Julho, logo lhe chamou a atenção um “novíssimo” receptor Wells-Gardner, fabricado nos Estados Unidos, em 1937. Na sua narrativa, aquele rádio não era usado apenas para que se ouvisse música. Na mocidade, os meus avós, Luiza e Adolfo, que moravam conosco, usavam-no para controlar – imagino que para a Rádio Farroupilha, os comerciais que a emissora punha no ar durante parte do dia. Se não fossem ao ar, os meus avós informavam à emissora, que não podia deixar de veiculá-los.

Milton, como eu e tantos outros, ouvia rádio desde a primeira infância. Era a vedete da comunicação, única via que nos ligava ao mundo de uma forma imediata. Então ele, um aficionado pelos jogos de botão, descobriu que se ligasse um fone na entrada do pick-up para toca-discos daquele rádio Wells-Gardner, podia “narrar” as partidas de botão. Pelas suas palavras, usei um dos fones como se fosse um microfone e, “milagre”, a minha voz saiu clara pelo alto-falante do Wells. Da “Voz Alegre da Colina” às “narrações” de futebol de botão, nascia uma simbiose de seis décadas, verdadeira intimidade entre o microfone e o Milton.

Milton Ferretti JungNo ano de 1954, Milton ouviu que uma nova rádio no dia, a Rádio Canoas, chamava candidatos para locução. A “Canoas”, que depois mudou o nome para Rádio Clube Metrópole, não era no vizinho município: tinha estúdio em Porto Alegre, na “Avenida Eduardo”, hoje Av. Presidente Roosevelt. Eram mais de duzentos candidatos e três foram aprovados. Os três ingressaram e Milton era um deles. Seguindo o seu depoimento, quem na verdade comandava a Rádio era o Brizola. A Rádio transmitia até o Carnaval na Sociedade Gondoleiros.

Em 1958, Milton fez testes para a Rádio Guaíba. Na época, a emissora era o padrão de voz. Passou no primeiro teste e não aceitou o salário, que foi reajustado. Na época, o Diretor de Broadcasting era o Mendes Ribeiro. Daí em diante, Milton Ferretti Jung foi eternizado como a voz do Correspondente Renner, com quatro edições diárias, o que fez por mais de 40 anos. E atenção ouvintes, vai falar o Correspondente Renner, é uma frase célebre no rádio rio-grandense.  Nas jornadas esportivas, o gremista Milton marcou a sua passagem com o grito de Gol, gol, gol!  Milton Ferreti Jung foi, meritoriamente denominado por seus colegas, “A Voz do Rádio”. Na Rádio Guaíba ele completou, em 2014, sessenta anos de locução radiofônica. Fez três Copas do Mundo: Alemanha, Argentina e México.

foto 2Mas a história do Milton e do seu “primeiro teste de voz” com o rádio Wells-Gardner não para por aqui, apenas inicia. Num mecanismo mágico que apenas os mais experimentados estudiosos do destino possam explicar, o meu amigo e professor Luiz Artur Ferraretto, sabedor da história daquele aparelho, fez um link entre mim e o Christian, o filho do Milton que guardava o receptor relíquia. Embora não faça restaurações para terceiros, resolvi topar o desafio. O rádio estava em condições precaríssimas, tanto quanto à caixa, bem como na parte eletrônica. A foto ao lado diz melhor.

Resolvi a difícil empreitada e perguntei ao Christian se seria prudente voltar no tempo: adaptar novamente um fone à entrada do rádio e ouvir do Milton, às vésperas dos seus 80 anos de idade, “E atenção ouvintes, vai falar o Correspondente Renner”. Eu temia que seu Pai tivesse alguma emoção muito forte.

foto 4Acertei com o Christian que faríamos tudo em segredo. Iriam todos, Milton e filhos ao Museu e o rádio, já restaurado (foto abaixo) estaria lá.

Mas o que eu presumia, virou lindamente de lado. A grande surpresa, fizeram eles para mim. No dia primeiro de agosto de 2015, um sábado, a família Jung: Milton, Christian MacFuca, Milton Jr, o Repórter CBN e que estava de aniversário e Jaqueline, ao visitarem o Museu do Rádio me entregaram esta placa, o que me derrubou de emoção. Um dia inesquecível, sem par!

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=UJtIy4mZDVg&feature=youtu.be

http://miltonjung.com.br/2015/10/08/o-radio-em-que-narrei-meus-jogos-de-botao/

http://miltonjung.com.br/2015/06/23/o-radio-onde-narrei-minhas-primeiras-partidas-de-futebol/

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