Édio Nunes: meio século de palco

A semana é do teatro , e ninguém melhor do que um veterano da área, com 50 anos de palco e carreira também dedicada ao cinema e à propaganda, para avaliar o movimento cênico em Florianópolis. Contudo, qualquer conversa com Édio Nunes de Souza não pode prescindir da ênfase em sua trajetória visceralmente ligada ao Armação, grupo que está também no Floripa Teatro – 19º Festival Isnard Azevedo com a peça “Ao vivo e em cores”, baseada em crônicas de Sérgio da Costa Ramos, com direção de Sandro Maquel e Rogaciano Rodrigues.

O começo da carreira ocorreu por acaso, a partir de convite de colegas do curso de Direito da Ufsc, onde entrou em 1962.

Ele desconfiou, reagiu com frieza, não era dado a essas coisas, mas acabou indo a um ensaio do Tusc (Teatro Universitário de Santa Catarina) e se apaixonou por aquele forma de expressão com a qual tivera poucos contatos, mesmo como espectador, na infância e na adolescência.

Nascia aí uma trajetória que incluiu dezenas de peças, filmes e comerciais, correndo paralela ao trabalho como auditor interno na Secretaria da Fazenda.

De cara, Édio entrou no fervo do “Auto da Compadecida”, sob a direção da professora Otília Carreirão Ortiga, na qual interpretava um cangaceiro. Depois, com a mesma diretora, fez “O santo inquérito”.

Após o Tusc, com seu idealismo e ausência de apoios, ele passou pelo Sesc e pelo Sesi, que também mantinham grupos de teatro, até chegar ao Armação, em 1972. Ali, com a proposta de chacoalhar o teatro local, Augusto Nunes (diretor) e Romário Borelli (autor) montaram “O Contestado”, explorando o histórico conflito que ainda era desconhecido da maioria da população catarinense. “Foi uma tentativa de profissionalizar o teatro de Santa Catarina, mas aquilo revelou-se uma utopia”, conta o ator.

Um pé no esporte

Entre os 70 espetáculos levados pelo grupo a palcos, balcões, bares e ginásios de esporte estão “Um grito parado no ar”, “Eles não usam Blak-tie (ambos de Gianfrancesco Guarnieri), “Oração para um pé de chinelo”, (Plínio Marcos) “A resistência”, (Maria Adelaide Amaral) , “Gota d’água (Paulo Pontes e Chico Buarque), O”O inspetor geral” (Nicolai Godol), e “Papa-Hihirte”(Oduvaldo Vianna Filho).

Também houve parcerias com o Grupo A e Dromedário Loquaz, das quais Édio Nunes participou. Ele fez mais de 40 filmes, incluindo curtas e longas de Zeca Pires e Penna Filho, especialmente depois que a Unisul criou seu curso de cinema. Se o teatro veio por acaso, uma atividade marcante para Édio foi o futebol de salão, como atleta vitorioso pelo Industrial, Juventus, Palmeiras e Clube do Cupido.

Hoje, aos 68 anos, ele acompanha tanto o esporte quanto as artes e se prepara para atuar em “Deus dormiu lá em casa”, com direção de Solange Bavaresco.

Não se considera um saudosista, mas sente falta dos tempos em que saia de madrugada do Colégio Catarinense e ia a pé até a Rua Crispim Mira, onde morava, sem qualquer receio. Mas, se conforma: “Nosso tempo é esse”.

Escola para atores

O trabalho de Édio Nunes prosseguiu junto ao Armação, em montagens como “Está lá fora um inspetor”, do inglês J. B. Priestley, no Clube Seis de Janeiro, em 1975, no ano em que o grupo ganhou personalidade jurídica oficial. Em seguida veio “Caminho de Volta”, de Consuelo de Castro, com Waldir Brazil, Ademir Rosa, Zeula Soares e Édio no elenco.

Após incorporar, por algum tempo, o teatrinho desativado que havia ao lado do antigo Abrigo de Menores, na Agronômica, o grupo montou dois grandes espetáculos, “Clitemnestra vive” e “Zumbi”- este, dirigido pelo paranaense Oraci Gemba, com status de superprodução e temporada lotada no Teatro Álvaro de Carvalho.

Outra conquista foi a Casa Armação, edificação antiga desapropriada na Praça 15 de Novembro, em 1982, com finalidade cultural. Foi ali que o grupo estreou “Os órfãos de Jânio”, de Millôr Fernandes, com direção do cenógrafo e arquiteto Paulo Rocha. Há pouco tempo, antes da peça em cartaz no Festival Isnard Azevedo, o grupo montou ali “Triângulo escaleno”, de Silveira Sampaio, em parceria com o curso de Artes Cênicas da Udesc.

“O Armação foi o caminho para a prática de excelentes atores de Florianópolis, afirma Édio.

Plural | Notícias do Dia | Perfil | 24/09/2012 | Foto Débora Klempous/ND

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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