Emílio Cerri: a vida de um profissional da comunicação publicitária

É quase que uma regra pétrea em nosso país que só se homenageia alguém quando morre ou em momentos muito excepcionais.

O pioneiro e veterano publicitário catarinense Emílio Cerri, querido de muitos do nosso meio, com a energia de um guri, está completando, no dia 13 de janeiro, 62 anos. Este colunista, que tem o privilégio de conhecê-lo há mais de três décadas, conta aqui um pouquinho da  sua história profissional.Encontrei, ao longo de minha carreira profissional, poucas pessoas capazes de dissertar, com propriedade, sobre qualquer tema da Publicidade e do Marketing como um certo cara chamado Emílio Cerri, amigo de há muitos e muitos anos e a quem admiro profissionalmente.

Como muitos publicitários das primeiras gerações em nosso País, Emílio começou no Rádio. Emilio ainda era estudante no Colégio Catarinense, mas tinha começado em 1962 uma carreira de radialista (locutor e noticiarista) na antiga Rádio Anita Garibaldi.

Na volta do estágio na McCann, trocando idéias com Antunes Severo.

De acordo com o depoimento de um  colega de seus tempos de radialista, logo na primeira semana de trabalho na rádio  ocorreu um fato digno de registro.

Sobre Florianópolis roncavam os NA-T6 da Esquadrilha da Fumaça quando, de repente, dois deles se chocaram. Emilio pegou sua bicicleta e pedalou rápido para o Largo Benjamin Constant onde o avião pilotado pelo Tenente Trindade havia caído.

Nervosamente bateu nas portas de várias residências perguntando se tinham telefone. De uma delas chamou o estúdio da rádio e realizou, ofegante e gaguejando, sua primeira reportagem. Aliás, um furo de reportagem, pois foi o primeiro repórter a chegar ao local.

Mas, o Emílio Cerri nasceu mesmo para a Publicidade. Como Redator júnior, formou, em 1963, a primeira Dupla de Criação da Propague e de Santa Catarina, tendo como parceiro o Diretor de Arte George Peixoto, o  carismático Picolé. A Propague, fundada pelo então radialista Antunes Severo naquele ano e batizada originalmente como A.S. Propague, é considerada, historicamente, a primeira Agência de Publicidade de padrão profissional de Santa Catarina.

 

O jingle de Natal do Banco Nacional transformou-se até peça litúrgica, transcendendo a publicidade que a originou. Os amigos de Petrônio Estrella que estiveram no dia 5 deste mês a Missa de Sétimo Dia, cantaram o jingle emocionados numa demonstração de que essa canção foi incorporada definitivamente no cancioneiro popular brasileiro.

Pouco tempo depois desse início, nosso protagonista conseguiu algo raro para alguém de um mercado regional onde a Publicidade ainda engatinhava: um estágio numa das maiores agências de publicidade do País, a multinacional McCann Erickson do Rio de Janeiro. Uma verdadeira escola de Publicidade. Como registra o livro dos 25 anos da Propague, Emilio retornou do estágio  ”não mais como um  projeto de publicitário, mas como um redator cheio de idéias novas.”

A caminho do Planalto

Em fins de 1966, Emilio transferiu-se para Brasília para comandar o departamento de propaganda de uma rede varejista. Meses depois, em função de seus contatos com a mídia local, acabou sendo convidado a transferir-se para a TV Brasília, da rede dos Diários Associados, no cargo de Assistente da Direção que, hierarquicamente correspondia ao segundo posto da empresa. Permaneceu lá até fins de 1969 quando foi convidado para assumir o cargo de Diretor de Programação da TV Rádio Nacional.


Na TV Brasília, canal 6, uma reunião de produção do programa “Porque Hoje é Sábado”, uma espécie de Fantástico, onde Emilio era produtor e apresentador. A TV ainda era em preto e branco.

O retorno à publicidade

No início de 1970 Emilio foi visitado por quatro jovens publicitários, recém chegados à Brasília, que foram solicitar a conta publicitária da TV Rádio Nacional: Luis Antônio Alves Vieira (redator), Ataíde Rodrigues Lopes (atendimento) , Marcelo Martines Ramos (diretor de arte) e Dario Miotto (produção). Formavam a agência Grupo Jovem Publicidade. Resultado: a conta foi para a agência e, na seqüência, Emilio foi também.

O Grupo Jovem em 1970 (da esquerda para direita): Evandro, Roberto, Emílio,
Ataíde, Dário, Marlui, Marcelo, Delane, Jacira, Sheyla e Lula Vieira.

JMM do Rio de Janeiro, janeiro 1971: primeiro encontro deste colunista com Emílio Cerri.

A Publicidade brasileira vivia, em 1970, um momento histórico. Politicamente, o País estava sob uma ditadura militar e na fase de maior repressão, com o General Médici à frente do Governo. No futebol, a conquista do tri na Copa Mundial no México.

Na publicidade, um fato inédito e surpreendente: em São Paulo, Geraldo Alonso (Norton) contrata, no ano anterior, um time completo de profissionais de Criação que atuavam na Almap e que fariam história na Publicidade brasileira.   O grupo ficou conhecido no meio publicitário como Os Subversivos, numa alusão clara ao que se passava no país.

Criação do Emilio e direção de arte de Mauro Pereira. Campanha de verão de 1983.

(Observação do Chico: “Escolhi essa peça porque, na minha opinião, ela é exemplo de perfeitodomínio da mídia outdoor e isso há mais de duas décadas…”).

 

No Rio de Janeiro, em dezembro de 1970, uma tradicional agência de publicidade, a JMM, buscava, através de um anúncio  publicado em O Globo, um novo Diretor de Criação.  Na segunda feira, em resposta ao anúncio, um grupo de 5 profissionais de uma pequena agência de Brasília chamada Grupo Jovem, comandados por aquele que viria se tornar mais tarde um ícone da nossa publicidade, Lula Vieira, se oferece, com a condição de que a JMM contratasse a equipe completa. Ao lado do Lula, em início de carreira, estavam o Ataíde Lopes, o espanhol Marcelo Martines Ramos, Dário Miotto e o nosso homenageado, Emilio Cerri, Redator.

A Direção da JMM topou a proposta e a atuação desse grupo de profissionais, com o apoio daqueles que já estavam na casa, iria revitalizar a imagem da JMM, através de campanhas memoráveis para as várias empresas do então Grupo Banco Nacional. Destaque para campanhas antológicas como a do lançamento da Nacional Empresa de Turismo, Cartão de Crédito Nacional (“dinheiro com retrato do dono”) e a mensagem de Natal que teve várias versões ao longo do tempo e que, além de ganhar o Prêmio Colunistas como a Melhor Mensagem de Natal, passou a fazer parte do cancioneiro popular brasileiro.


Merece registro o fato de que no tempo em que o Emílio esteve na JMM, pode  completar,
com louvor,  o seu aprendizado sobre Publicidade com um dos mais cultos profissionais que já
passaram pela Publicidade em nosso País: Cid Peres Pacheco. Também meu mestre.

Emílio Cerri, “inventor” do publicitário Roberto Costa.
Enquanto isso, Antunes Severo expandia a Propague e por conta dessa expansão, em 1973 convida Emilio para retornar a Propague.
É dessa época a história que, embora já tenha sido publicada no bojo de uma extensa entrevista dada por Roberto Costa ao site Acontecendo Aqui, vale a pena ser repetida.
Emílio Cerri, na ausência do Antunes Severo, convida Roberto Costa para trabalhar como Redator, além de outros profissionais. Estabelece-se o seguinte diálogo: [Emilio]: “Olha, a primeira coisa é se instalar e começar a produzir. Depois de três meses você vai fazer um estágio na DPZ, que é nossa associada. E depois de um ano você vai pra DDB de Nova Iorque que mantém acordo com a DPZ”.
Quando o Antunes retornou e viu que a folha de pagamento da agência tinha crescido deu uma ordem para que todos fossem demitidos”. Roberto Costa, a convite de Antunes Severo, permaneceu na agência, tendo sido transferido para o Atendimento. E, como todos  do meio sabem, se transformou num publicitário-lenda da história da Publicidade Catarinense.


Emilio apresenta ao então Governador Casildo Maldaner, uma campanha para o Hemosc.
A estratégia incluía a criação de um “cartão de doador”. Que viria a ser implantado anos mais tarde.

Obviamente não é o propósito deste simples artigo registrar todas as páginas da vida profissional de alguém com mais de quatro décadas de atuação. Isso, certamente, daria um livro. Mas é preciso registrar que o Emílio também teve incursões em outra áreas: foi diretor da TV Cultura, em Florianópolis e tem também no seu currículo uma singularidade: ele foi, desde o lançamento em 1982 e durante 5 anos  Superintendente do Shopping Itaguaçu, o primeiro Shopping da Região Sul do País. Além de ter passado, antes, pelo Shopping Ibirapuera, de São Paulo.
É desnecessário dizer, portanto, que pouquíssimos profissionais em nosso Estado reúnem tanto conhecimento técnico e expertise sobre Shopping Centers como o Emilio.


Brainstorming dos pioneiros da Propague na reunião de criação do livro dos 25 anos da agência
(1988). Da esquerda para a direita: Lucia Pedot, Ilson Chaves da Silva, George Peixoto,
Luciano Corbetta, Raul Araújo, Emilio Cerri, Antunes Severo e Rozendo Lima (fundadores da
Propague), Mauro Amorim e Roberto Costa.

1994: Nossos caminhos se cruzam novamente na Propague
Mais de 20 anos depois daquela convivência profissional na JMM do Rio de Janeiro, este articulista voltou a ter Emílio Cerri  novamente como companheiro de trabalho. Agora na Propague, na qual ingressei em 1994. Dessa época, recordo-me particularmente de um trabalho de Marketing de Relacionamento prestado à Cia. Hering  planejado pelo Emílio e que envolvia uma campanha que visava  conseguir a adesão dos empregados da Hering para um plano de Previdência privada.  Esse trabalho foi realizado, numa época em que essa disciplina de Comunicação era praticamente desconhecida em  Santa Catarina.
Outro fato que chamou a minha atenção em 1994 é que o Emílio, sempre antenado e up-to-date com a profissão, foi um dos primeiros profissionais em Santa Catarina a perceber o futuro e o poder da Internet na comunicação e que, naqueles tempos, dava ainda seus primeiros passos.

 

 

Numa igreja da Tijuca, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1971, a solenidade de batismo de Rodrigo, primogênito de Emilio e Vera. O padrinho é simplesmente Lula Vieira, na ocasião diretor de criação da JMM, companheiro de equipe do Emilio, e que viria se transformar
mais tarde num verdadeiro ícone da publicidade brasileira.

Se tivesse que definir o profissional Emílio Cerri em duas palavras, diria, parodiando a campanha do Bradesco, que ele é um Profissional Completo.

 

 

Emílio Cerri Neto nasceu em Florianópolis, Santa Catarina em 13 de janeiro de 1945. Casado há 37 anos com Vera Márcia Cerri, ele é pai do Rodrigo (35 anos, músico e modelo) e do Alexandre (31 anos, profissional de DBM e Marketing de Relacionamento).

Peça de lançamento da Nacional Empresa de Turismo criada por Emilio
em 1971. O comercial de 60 segundos dessa campanha, uma superprodução,
teve orçamento milionário para a época. E ganhou inúmeros prêmios.

Ele trabalha atualmente como Consultor de Marketing e Comunicação. Nessa condição, entre outros projetos, foi idealizador e responsável pelo Clube Angeloni (um dos programas usado como referência no país) e do Clube M, para o shopping Mariscal López, de Assunção, Paraguai.

Emílio: parabéns pelo seu aniversário. E vida longa!

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *