Empatada

O barbeiro Otávio estava rodeado pelos amigos, era o momento de tomar um café e trocar ideias, inclusive de falar sobre temas delicados.

E dessa vez o assunto teve início quando os amigos falavam sobre o clássico. Juvenal é torcedor do Figueirense e o Felisberto do Avaí. Enquanto discutiam as possibilidades de resultados ambos fizeram o sinal de cruz; Felisberto, primeiro, em seguida, Juvenal. Foi nesse momento que o barbeiro disse:

– E agora, pra quem será que Deus torce?

Enquanto a turma ria do comentário de Otávio o Juvenal disse que se Cristo vivesse em nossos dias com certeza seria Figueirense. Felisberto se levantou e falou com firmeza:

– Quando o Senhor esteve na terra, secou uma figueira. Sério, já li na Bíblia.

A turma deu gargalhadas. Podiam discutir e até alterar o volume da voz quando discordavam, mas jamais perdiam o respeito e a amizade. Então, o barbeiro perguntou ao amigo radialista, Antunes Carriel o que ele pensava do assunto, haja vista que lá no começo de sua carreira no rádio, assim como muitos locutores, trabalhou cobrindo jogos, havia sido, setorista. Antunes Carriel apertou os lábios como se o problema não fosse a pergunta e sim a resposta. O radialista, disse:

– Olhem meus amigos, o tema, o assunto, é delicado, mas como vocês perguntaram vou dizer o que a experiência, a observação e os anos me mostraram. Há muitos anos, lá no início da minha carreira, quando além de apresentar programas musicais também acompanhava vários times de futebol, passei a pensar no tema que os amigos abordaram com muita seriedade, e digo o porquê. Quando acompanhava dois times conhecidos de todos, não vou citar os nomes, algo interessante ocorreu, e não apenas uma vez, mas houve uma que foi especialmente marcante. Meu colega que cobria o outro time teve um problema de última hora. Seu pai estava muito doente, em risco de morte, não de vida como muitos dizem, e sim, risco de morte. Então, disse a ele para ficar a vontade em telefonar ao hospital e que eu reuniria informações dos dois times e lhe passaria tudo o que fosse necessário. Foi aí que tudo começou. Meu colega e eu acompanhamos os treinos naquela semana e enfim, havia chegado o grande dia. O pai do meu amigo havia piorado. Ele saia com frequência para telefonar para o hospital; ainda não havia telefone celular.

Momentos antes do início do jogo fui até o vestiário do time dono da casa. Assim que cheguei à porta ouvi os jogadores rezando ou talvez, orando. Por respeito, parei ali mesmo para esperar que terminassem a sua oração. Eles rezavam um Pai Nosso. Outros, após essa oração, pediam em suas próprias palavras ao Senhor que lhes desse a vitória; diziam que mereciam, que haviam treinado, que eram os melhores. Outros apenas pediam paz e justiça durante a partida. Terminada as orações fiz algumas entrevistas. Em seguida, fui até o local onde estava o time adversário. Por coincidência ou não a história se repetiu. Quando cheguei à porta já os ouvi rezando o Pai Nosso e demais pedidos de vitória ao Senhor. Confesso que quando ouvi o primeiro time rezando, orando e pedindo, imaginei que pela sua fé venceriam a partida. Depois de ouvir o fervor com que rezava ou orava o time adversário fiquei na dúvida; ambos tinham fé e confiavam no Senhor; qual dos times seria abençoado com a vitória?

Nos últimos anos tenho visto pessoas pedindo ao Senhor a vitória para vencer uma luta, onde um vai esmurrar a cara do outro. Vejo pessoas rezando para ganhar na Mega-Sena. Outros rezam para que o Brasil vença uma copa do mundo. Leio sobre pessoas rezando para passar no vestibular. Assisto pela TV pessoas que rezam para ganhar uma guerra. Até num seriado sobre o narcotraficante, Pablo Escobar, assisti cenas onde ele e seus comparsas rezavam para que Jesus abençoasse um barco comprado para o tráfico; outros faziam o sinal da cruz logo após matarem alguém. Me parece que muitos entregam ao Senhor a decisão sobre quem vai vencer, quem vai viver, quem vai morrer, quem vai conseguir a vaga; como se tudo estivesse só nas “mãos do Senhor”. Coisas que deveriam ser conquistadas por esforços, por méritos. Quantos, depois de uma cirurgia bem sucedida agradecem também ao médico e sua equipe? Particularmente, meus amigos, creio em Deus, sim, mas sem essa de nos isentar de responsabilidades e colocar nossas desculpas esfarrapadas no Senhor ou no diabo.

O barbeiro também se levantou, coçou a cabeça e disse:

– Eu confesso que nunca havia pensado por esse lado

O senhor Victor, com mais de 80 anos de idade e cauteloso nas palavras, raciocinou com os amigos:

– É verdade. Faz sentido o que o amigo Carriel falou. Quantas partidas de futebol acabam em pancadaria, socos e chutes?

Felisberto, curioso, perguntou ao amigo radialista:

– Tudo bem, Carriel. Respeito o teu ponto de vista. Mas que mal há em pedir uma ajudinha ao Senhor? E afinal de contas, como terminou a tal partida da qual falavas?

Antunes Carriel, como que viajando no tempo e vendo tudo em sua frente, disse:

– A partida, o jogo, a disputa; depois de tantas orações acabou como muitas outras que presenciei ao longo da minha vida; acabou empatada.

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *