Empurrãozinho do Doutor Getúlio

Um ano depois de sua instalação, o serviço de alto-falante dá origem em 14 de maio de 1943 a uma emissora que mantém o mesmo nome da antiga empresa de propaganda: surge a Rádio Guarujá (ZYJ-7), uma parceria de Ivo Serrão Vieira, Epaminondas Santos Júnior e Walter Lange Júnior.
Por Ricardo Medeiros

A propagação do surgimento da  emissora clandestina cabe ao barbeiro Oswaldo, que conforme o próprio Ivo SerrãoVieira registra: “ninguém melhor do que um barbeiro para segredar coisas ao ouvido de seus clientes”.
Ainda tendo como sede os altos da Confeitaria Chiquinho, a ZYJ-7, com um transmissor de 80 watts- construído pelo técnico em eletrônica, Walter Lange Júnior-, tem uma  potência para atingir a região central e os bairros Agronômica, Saco dos Limões e Estreito. No entanto, nos dias de trovoada, ninguém consegue ouvir a Guarujá, tantos são os chiaços produzidos nos aparelhos. A energia elétrica é também precária. Freqüentemente falta luz na capital catarinense. Por isso,  os ouvintes, incentivados pelos  locutores, ligam para o estúdio para informar se em determinada região a emissora está sendo  captada com nitidez ou  não.
Devido ao pouco alcance do transmissor, a maioria da população continua a escutar as emissoras de fora, como é o caso da Atlântida, de Santos, e a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que já servia de modelo para a emissora ilhôa. É preciso então tratar de aumentar a potência para abranger mais regiões, o que é conseguido através de uma aparelhagem de 500 watts que transmitia para toda a Ilha e parte da região continental.
No dia 2 de junho de 1944, data do embarque da Força Expedicionária Brasileira – seção Santa Catarina- que irá combater em terras italianas as nações do eixo, formada por Alemanha, Itália e Japão-, a Rádio Guarujá se faz presente no palanque oficial, montando na Praça XV de Novembro, de onde o Governador saudava os pracinhas. Como conta Ivo Serrão Vieira: “O Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda, titular também de alto-falante na rua Felipe Schmidt (…) também estava instalado no palanque oficial com microfone independente de nossos serviços. Como não dispunham de locutor e quem lia os informativos diários era o próprio diretor , deixaram o seu microfone ao lado da Guarujá para que eu comandasse toda a transmissão. A festa foi um sucesso. As mulheres choravam, os pracinhas marchavam, as bandas tocavam e eu, bem ao lado do Governador, comandava o espetáculo. De certa forma me senti vingado”.
  
Alguns meses mais tarde, em 1944, Ivo Serrão Vieira  é chamado no Palácio pelo Governador Nereu Ramos que lhe transmite uma boa nova: “o senhor embarca para o Rio de Janeiro amanhã. O doutor Getúlio Vargas vai assinar um decreto considerando caduca uma concessão que o senhor Assis Chateaubriand tem para montar uma rádio em Florianópolis e nunca o fez, e uma semana depois ele vai assinar um decreto concedendo à Rádio Guarujá Ltda, um canal de radiodifusão com mil watts de potência.”  Dito e feito. O presidente da república assina um decreto permitindo a existência legal da  primeira estação de Florianópolis  a partir de 1945.


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Por Ricardo Medeiros

Doutor em Rádio pelo Departamento de História da Université du Maine (Le Mans, França). Radialista, jornalista, escritor e professor de rádio do curso de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina e assessor de imprensa da Prefeitura de Florianópolis. É um dos fundadores do Instituto Caros Ouvintes.
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