Emudecemos

Maurício Neves

São cinco horas da tarde. Volte seus ouvidos para a Serra Catarinense. Ouça as gralhas azuis, uma acordeona que se ensaia, o ronco do bugiu que anuncia a chuva. Por detrás dos morros há ainda um burburinho dos automóveis do fim de tarde, a algazarra das crianças saindo dos colégios. Há a sutileza dos campos e o ruído da vida urbana. Mas se você se demorar um instante, perceberá que o som que vem da Serra não é mais o mesmo. Falta uma voz amiga, com força de trovão e carinho de veludo. Falta a voz que dava as notícias, carregava avisos, rezava a Ave Maria. Falta a imensidão sonora de Luiz Zanella Sobrinho.

Olho para o rádio mudo sobre a estante. O traço vermelho sobre o número 690 indica que ele estava ligado na Rádio Clube na última vez que funcionou. Talvez irradiasse a voz de Zanella, que adentrava os lares com seu jeito de amigo de longa data: meio século tornando nossos dias mais leves. O silêncio do rádio me agride, mas não me atrevo a girar o botão. Só o silêncio tem o mesmo tamanho da voz de Luiz Zanella Sobrinho.

Quarenta e seis anos. A Parada de Sucessos, As Histórias que o Vovô Contava, o Jornal da Clube, a Ave Maria, o Show da Manhã, o plantão esportivo. Somos afortunados porque pudemos ouvir Zanella por quarenta e seis anos. Quase meio século. Significa dizer que a maioria dos habitantes de Lages não conhece uma vida sem a voz de Luiz Zanella Sobrinho.

Fez-se o silêncio. As gralhas estão mudas, a acordeona foi para a capa, o bugiu sumiu na mata escura.

Zanella faleceu nesta manhã de céu azul. Azul, porque Nossa Senhora estendeu seu Manto para que seu devoto Luiz Zanella Sobrinho subisse aos céus. Mas agora o céu está cinza e há pouco ouvi um trovão denso e lento. Deve ser Zanella chegando ao firmamento para abraçar Carlos Joffre do Amaral, Tavinho e tantas outras vozes.

Zanella não está mais entre nós. Eu já me senti triste, já me senti feliz. Já provei da euforia e do desalento. Já me senti pleno, já me senti vazio. Mas agora, ao olhar para o rádio que nada diz no alto da estante, pela primeira vez me sinto tomado por uma mudez que atordoa.

Logo retomaremos as palavras e a vida seguirá seu curso. Mas não podemos nos iludir. A história cotidiana da cidade nunca mais será contada do mesmo jeito. Em algum canto da alma, sem Luiz Zanella Sobrinho, emudecemos, e é isso o que o silêncio vem nos dizer. São cinco horas da tarde do dia dezesseis de fevereiro de dois mil e onze, e falta a imensidão sonora de Luiz Zanella Sobrinho.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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  1. Mário Motta says:

    Por quase uma década, eu e o Zanella apresentamos juntos o JORNAL DA CLUBE. Por quase uma década convivemos diariamente e fomos além do companheirismo de microfone e de redação. Por mais 25 anos depois que deixei Lages, continuamos convivendo todas as vezes em que eu subia a Serra e o visitava na “nossa” Rádio Clube. Deixei meu querido pai Motinha e o Divino (aquele da Hora da Corneta, que existiu e morava conosco) no Cemitério da Penha. Agora, mais um querido irmão se vai, sim por que o Zanella era de minha família. Aliás, o Zanella era da família de todos os Serranos, tal sua empatia, ética, competência e carinho para com todos que com ele conviviam. Acredito que esse rito de passagem a que chamamos “morte” não passa de uma “elevação para um Plano espiritual superior” – e é eassim que sinto o Zanella. A essa altura, ela já está comandando os “alô-alôs” em alguma emissora lá no Céu, enchendo de alegria as tardes do além e de esperança com sua Ave Maria às 18 horas… Um beijo em teu coração meu querido amigo. Um abraço a todos os irmãos serranos.

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