Encerro, nesta semana, minha estada de quatro meses aqui em Portugal

Vim com uma bolsa de estudos da CAPES, para um estágio de doutoramento na Universidade do Minho, na cidade de Braga. Meu objetivo inicial era aprofundar os estudos e as pesquisas na área de webradio, mas minha experiência aqui foi muito além do conhecimento acadêmico.
Por Nair Prata

Durante este tempo aqui, tive a oportunidade de ler, escrever e refletir sobre o meu objeto de pesquisa, a linguagem do rádio na Internet e tenho a certeza de que a minha tese ficará mais madura, mais consistente. O rádio na Web é hoje uma realidade.

No Brasil, em 1997 havia apenas 9 estações com transmissão on-line; no ano 2000, este número saltou para 191. Hoje o país conta com 1.308 emissoras de rádio na Web. Na minha pesquisa, investigo os novos gêneros e as novas formas de interação na webradio.
Nesta última semana, meus amigos Alessandra e Paulo me levaram para conhecer um dos cenários mais lindos que eu já vi: o encontro do rio Lima com o mar, em Viana do Castelo. Uma matéria da revista National Geographic apontou que este lugar tem “um dos mais belos panoramas do mundo”.
Viana do Castelo fica a 50 km de Braga, na foz do rio Lima e os cartões postais da cidade são a fonte da praça da República, os arcos góticos do Paço do Concelho e o edifício da Misericórdia. Do artesanato típico da cidade fazem parte o famoso bordado de Viana, as louças pintadas e os artigos em ouro com o trabalho de filigrana.
Mas a grande atração de Viana é a Basílica de Santa Luzia, construída no alto de um monte, em 1926.
A igreja foi inspirada no Sacré Coeur de Montmartre, de Paris. É uma bela igreja, mas o diferencial deste templo para os outros daqui de Portugal é que esta basílica oferece a possibilidade de subirmos lá no alto da torre e encher os olhos com a paisagem deslumbrante.


Basílica de Santa Luzia, construída em 1926.

No alto da igreja há um zimbório. Pode-se ir pelas estreitas escadas (são 150 degraus!) ou de elevador (o bilhete custa 0,80 £). Mesmo fazendo o percurso de elevador, a subida final tem que ser pelas escadas, onde só é possível a passagem de uma pessoa de cada vez.

Não há como chegar lá no alto sem estar ofegante. Mas o cenário que se descortina lá de cima vale a pena a viagem, a subida, os degraus espremidos, a falta de respiração. É lindo o encontro do rio Lima com o mar! Tenho falado com freqüência, aqui na coluna, das emoções que estou vivendo em Portugal. Este cenário, com certeza, é uma delas. Contemplar o Atlântico tão sereno e tão azul chega a ser uma visão divina! Num momento assim, não há como não se lembrar da canção “Tanto Mar”, do Chico Buarque, cuja gravação original, com letra vetada pela censura, foi feita apenas aqui em Portugal, em 1975:
Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim.
 
Nesta minha despedida das terras lusitanas, quero, aqui pela coluna, fazer alguns agradecimentos. Em primeiro lugar à Universidade do Minho e ao professor Manuel Pinto – meu orientador daqui – que me receberam tão bem. O professor é um competente jornalista que ingressou na vida acadêmica e suas pesquisas concentram-se, principalmente, na área de televisão e infância. Ele coordena o Ciberlab, um laboratório de pesquisa em mídias digitais, que reúne investigadores portugueses e estrangeiros. O professor Manuel tem uma característica que eu admiro muito nas pessoas: imprime carinho em tudo que faz.
Outra pessoa que valeu a pena conhecer foi a Glória Castelhano, historiadora e estudante da pós-graduação da Universidade do Minho. Ela é portuguesa, nascida na aldeia de Mira e foi pelo olhar dela que eu conheci Portugal. Nas nossas longas conversas, ela me falou da sua terra, dos seus costumes, da sua cultura, dos seus problemas. Por ela, eu me senti parte da vida do país e dividimos, juntas, as alegrias e as tristezas de nascer e viver no Brasil e em Portugal.


Até breve Portugal.

Quero destacar, por fim, meus amigos Alessandra e Paulo, o bálsamo da minha estada aqui. Sou uma pessoa muito ligada à minha família, aos meus amigos, à minha casa, à minha gente. Estar sozinha num país desconhecido é, para muitas pessoas, uma aventura fascinante. Para mim, só o estudo compensou tanta saudade… Assim, conhecer e conviver com este casal foi um presente. Eles foram meus carinhosos cicerones em incontáveis passeios e, pelos dois, conheci um pouco da cultura, das igrejas, dos hábitos e – que maravilha! – da culinária portuguesa.
Já que eu lembrei Chico Buarque no início deste texto, quero lembrar agora uma antiga canção gravada pela Simone:
Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar, muda a roupa de cama
Eu tô voltando
Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar porque eu to voltando
Dá uma geral, faz um bom defumador, enche a casa de flor
Que eu tô voltando
Pega uma praia, aproveita, ta calor, vai pegando uma cor
Que eu tô voltando
Faz um cabelo bonito pra eu notar que eu só quero mesmo é despentear
Quero te agarrar, pode se preparar porque eu tô voltando
Põe pra tocar na vitrola aquele som, estréia uma camisola
Eu tô voltando
Dá folga pra empregada, manda a criançada pra casa da avó
Que eu tô voltando
Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar
Quero lá lá lá ia, lá lá lá lá lá ia, porque eu tô voltando
Gostei muito de ter dividido com você, leitor do Caros Ouvintes, esta minha experiência portuguesa.
Desde o início de janeiro tenho relatado aqui minhas pesquisas, meus estudos, minhas descobertas, meus passeios. E, fundamental para mim, foi a interação com você internauta, isto é, o retorno certeiro a cada semana.


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Por Nair Prata

Jornalista formada pela UFMG, Mestre em Comunicação pela Universidade de São Marcos e Doutora em Língua Aplicada pela UFMG. Trabalhos 18 anos em rádio. É professora do Centro Universitário de Belo Horizonte onde leciona no Curso de Jornalismo. Escritora, tem vários livros publicados.
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