Encontro

Ele empurra o carrinho, a mulher fica ainda atrás de alguma miudeza. A demora dela nessas miudezas! Vai esperá-la ali  na frente,  sabe lá se não encontra um conhecido para bater um papo. Um conhecido de conversa alegre, espera, que amarga já  basta a vida.
Por Flávio José Cardozo

Outro dia, encontrou o Jurandir, que conhece aí duma repartição, um sujeito chorão demais até para as condições do Brasil. Um trágico o Jurandir. Ouvindo-o, deu vontade de largar o carrinho, ir atrás da mulher que ainda procurava alguma miudeza e dizer: vamos, deixa isso, pelo que o Jurandir falou a coisa não tem mais remédio nem Deus querendo, vamos nos jogar debaixo do primeiro ônibus ali na avenida.
Não, por favor, que não dê com o Jurandir pela frente hoje.
Encosta o carrinho e olha o movimento: não há ninguém de suas relações. É incrível como a cidade se fez estranha nos últimos tempos. Não faz muito, a gente jogava uma pedra para cima, dificilmente ela deixava de cair na cabeça de um amigo ou ao menos na de alguém que já  se viu antes. Hoje, se atravessa uma rua inteira, se anda mesmo o dia todo pela cidade e não se cruza com uma cara familiar. Neste supermercado, tirando as moças das caixas registradoras, quem já se viu antes alguma vez?
Epa: essa mulher… espera, essa mulher aí ao lado acaba de fazer um jeito de que o conhece, e ele próprio, não quer estar enganado, mas está  lhe parecendo que…
– Não é o Augusto? – ela pergunta, num sorriso que, embora curto e indeciso, é revelador.
– Teresa!
Abraçam-se, há quanto tempo! Por onde andou ele, por onde andou ela, por onde andam? Casado, casada, filhos, é a vida.
– A vida… Como é que está  a vida? – ele indaga.
– Tudo bem.
– Bem mesmo? – insiste, interessado.
– Quer dizer, tirando os apertos…
– Os apertos…
Falam dos apertos.
– Que crise, Augusto!
– É verdade.
Brasil melancólico este nosso, pensa ele: dois antigos namorados se encontram depois de anos e, em vez de ficarem lembrando, docemente constrangidos, alguns momentos idos e vividos, estão aí a falar de apertos. Arghhh! De apertos financeiros. Ah, desastrados senhores da Economia!
Ela mostra a cestinha de compras:
– Olha isto: o dinheirão que não é isto!
É patético. Podiam lembrar os bailes no Tiro Alemão, as sessões no Cine Ritz, os passeios na alameda perto da Ponte, uma  ida ao Morro da Cruz no tempo em que nem estrada existia, tanta lembrança. E ficam naquela porcaria de conversa. Parece até conversa do Jurandir.
– O Jurandir, coitado, anda tão desanimado – ela suspira.
Hein? Ouviu bem? O Jurandir? Mundinho pequeno, pequeno: o Jurandir!
– Você e o Jurandir… Ele está  aí?
– Não, hoje ele não veio – e ela diz que já vai indo.
 Ai, Teresa.
(Do livro Momentos, a publicar)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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