Encontro saudoso

Foi puro acaso. No calçadão da Felipe Schmidt todos se encontraram, um a um. Vinha da Praça XV seu “Bom Dia” e logo avistou dona “Boa Tarde”. Emocionaram-se e disseram um ao outro:
– “Bom Dia”.

– “Boa Tarde”.

– Que bom te ver!

– Eu é que digo!

– Como tem passado “Dona Boa Tarde”?

– Ah meu amigo, que saudades dos bons tempos, de quando éramos reconhecidos e tão bem usados.

– Calma dona “Boa Tarde”. Tenho Esperança de que os bons tempos voltarão.

– Por falar em Esperança, essa não morre mais, olha quem vem lá.

– “Dona Esperança!”. Estávamos justamente falando na senhora.

– Que surpresa, alguém falando em mim!

– Ah, não diga isso “dona Esperança”. Tenho certeza que nós estamos bem menos em moda – disse “dona Boa Tarde”.

– Olha quem vem logo ali – disse “seu Bom Dia” – É o “Por Favor”.

– “Bom Dia, Boa Tarde, Esperança”, que prazer tenho em vê-los!

– Ah, essa sua Educação é maravilhosa “seu Por favor” – falou “dona Esperança” – Aliás, alguém tem visto a “dona Educação”?

– Vejam que coincidência – disse “dona Boa Tarde” – Olhem quem se aproxima.

– “Seu Bom Dia, dona Boa Tarde, seu Por Favor, dona Esperança”, sinto imensa satisfação em estar aqui com vocês. Me orgulho de conhecê-los e de tê-los encontrado hoje.

– A “dona Educação” de sempre. Não mudou nada – Disse “seu Por favor”, havia até um ar meio de galã, mas talvez fosse só cortesia.

– Vocês nem vão acreditar em quem está vindo para cá. Estávamos a pouco conversando em frente o edifício Dias Velho – Quem?

– Perguntaram todos curiosos.

– O seu “Obrigado” – respondeu “dona Educação”.

– Meus queridos e preciosos amigos – falou vigorosamente seu “Obrigado” – Que bom encontrá-los!

– Seu Obrigado, tem visto “dona Gentileza”? – Perguntou “dona Educação”.

– A vi ontem. Está muito desanimada. Foi aposentada quase que a força. É lamentável!
“Seu Bom Dia”, cheio de recordações, disse:

– Ah que saudades dos tempos em que éramos populares. As pessoas nos usavam a todo o momento. Bons tempos aqueles.

– Calma “seu Bom Dia”. Ainda há os que não nos abandonaram – disse “dona Esperança”. Ela continuou:

– Ontem mesmo fiquei observando um casal com cerca de 50 anos de idade. Falam em nós todo o dia e em todos os lugares que frequentam.

– Sério? – Perguntou seu “Por Favor”.

– Sim, é sério. O marido assim que viu a esposa abrir os olhos disse “Bom Dia”.

Foram juntos a padaria e além de repetir essa preciosidade disseram a moça atrás do balcão “Por favor”, dois pães. Em seguida disseram muito “Obrigado”. No almoço quando foram servir-se, o marido disse a esposa por “Gentileza” me alcance o arroz.
Depois do almoço disseram a várias pessoas “Boa Tarde”. Ao caminharem por um supermercado lembraram até da dona “Com licença”. Logo depois do pôr-do-sol, deram “Boa Noite” a vizinhos. Ah, mas a parte mais tocante veio depois.

– E o que foi? – Perguntou curioso seu Por Favor.

– O marido olhou para a esposa e disse: Sabe meu bem, com toda falta de respeito que há hoje, eu sempre mantive viva a “Esperança” de encontrar alguém como você. A esposa olhou para o marido e disse: Dentre todas as suas maravilhosas qualidades o que mais me encanta é sua incomparável “Educação”.
Confesso que ao ouvir esse casal senti saudades do seu “Elogio” – Seu Bom Dia, dona Boa Tarde, seu Por Favor, dona Esperança, dona Educação, seu Obrigado se abraçaram e combinaram uma visita a dona Gentileza e a dona Com licença que se sentem muito esquecidas. A Esperança é manterem-se unidos e fazê-los voltar à boca e a vida dos que as esqueceram. Talvez até encontrem o Elogio pelo caminho.

1 responder
  1. João Pimentel says:

    Ainda bem que dona resignação não veio para o grupo. Prefiro ficar com Dona Esperança. Quero sempre acreditar que, algum dia vamos recuperar o respeito perdido… Parabéns pelo seu trabalho, meu amigo…

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *