Engenheiro Fuerschuette

Rui Fuerschuette era natural de Tubarão. Filho do legendário médico e ex-prefeito, Otto Fuerchuette. Competente engenheiro, foi para Criciúma em 1946, passando a prestar seus serviços profissionais à Companhia Brasileira Carbonífera de Araranguá – CBCA – , sediada na Vila Operária.
Por Agilmar Machado

O Doutor Rui como era simplesmente conhecido não era muito chegado a gabinetes: botava a mão na massa, baixava a mina, orientava os mineiros na manutenção, bolava novos métodos para aumentar a produção. Um trabalhador de verdade chegava na mina antes de começar o turno das seis e só saía depois do segundo turno.

Mas mesmo com todo esse seu dia-a-dia corrido e altamente responsável, ele tinha uma preferência. Um ponto fraco que lhe marcou como um notável pioneiro: meter a mão também em equipamentos radiofônicos e fazê-los funcionar. Na raça.

Foi assim que de um equipamento ultrapassado e corroído,  marca Byngton, surrado por muitos anos em várias rádios (tendo sua penúltima fase na Rádio de Laguna), acabou inaugurando a fase do rádio na cidade de Criciúma. Rui pegou aquele encrencado emaranhado de poeira, transformadores, válvulas (com a famosa 813 – a maior dos transmissores da época), ajeitou de um lado, emendou do outro, tirou os curtos circuitos, passou uma tinta cinza em tudo aquilo, e fez essa montoeira de ferro, vidro e fibra falar de novo!

Soava, por vez primeira e pomposamente, a  Sociedade Rádio Eldorado Catarinense Limitada, ou simplesmente RÁDIO ELDORADO DE CRICIÚMA – ZYR-6 –  “A LÍDER” !

Se alguém pensa que o irrequieto Dr. Rui ia para casa dormir todas as noites do mês, engana-se. Como tudo  que é velho (que o diga nosso caro diretor…) tem problemas de dores por todo lado, o equipamento da Eldorado não deixava por menos. Victorino (ele fazia questão do “c” aí do meio do seu nome) era o sempre preocupado operador do transmissor, nos altos do Morro do Bainha, onde depois se originou outra coisa célebra em Criciúma, a Maracangalha – um imenso povoado das “mulheres da vida”…

Victorino tinha só os quatro caninos, o resto era cancela aberta. Natural da região de Laguna, jamais vi ninguém fazer o que ele fazia com apenas quatro dentes; imagino com 32. Como não dispensava peixe nas modestas refeições, o carazinho, a papa-terra ou o jundiá sempre estavam presentes no seu prato.

Ele punha o bicho (frito) num canto da boca e esperava com a outra mão no lado inverso… só a carcaça do bicho ! Um pente daqueles de dois lados que minha avó usava para ver se havia algum piolho na cabeça de seus netos e afins. Era o fiel escudeiro do Dr. Rui, cujo erre puxava forte da garganta quando pronunciava seu nome. De repente uma queda de energia e saía tudo do ar.  Já se esperava o Victorino virar a manivela do velho telefone e berrar: “Tá fritando tudo aqui !!!

Chamem o Dotô RRRRRRui ! E o “dotô” Rui, como um sacerdote de extrema unção, com seu próprio jipe, lá ia escarpar as veredas estreitas do Morro do Bainha. Ao lado dele outro tipo fenomenal: Aristides Madeira, controle de som e louco por aprender rádio-técnica (e foi um mestre).

Rui já nem fechava mais a tampa de trás do Byngton, pois era muita mão-de-obra abrir e fechar tantas vezes aquelas emperradas latas. E passavam as horas. De repente entrava um som meio parecido com busca-pé enxotando cavalos amarrados…zuuuuuumbrááááá: filamento ligado. “Victorino, liga o vermelho (botão)”, pedia Rui.

E lá estava de novo no ar a “Líder” que foi uma obra de muito sacrifício de todos e de cada um dos que subiram aquele velho morro furado de galerias de carvão. Com muito orgulho possuo a ÚNICA foto existente do Engenheiro Rui. Ele, sua extremosa esposa e dois lindos e robustos filhos. Lindos e robustos, porque nasceram de boa cepa ! Eram a cara do pai.


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Por Agilmar Machado

Iniciou suas atividades profissionais no rádio em 1950, tornando-se jornalista em 1969. Atuou nas principais emissoras do Sul de SC como redator, produtor e apresentador de programas jornalísticos. Historiador, é co-autor História da Comunicação no Sul de SC. É membro fundador da Academia de Letras de Criciúma/SC.
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