Entre a pena e a língua

Pena de quem fala. Pena de quem ouve. Pena de quem escreve. Pena de quem lê.

As penas de aves, de gansos e outras, já serviram a milhares para um breve recado romântico ou para uma triste notícia. Para encantar com poemas ou assinar sentenças. Há milhares de anos a escrita faz parte da vida social, econômica, cultural e religiosa. Praticamente tudo o que sabemos, desde os que não sabem escrever aos inventores, cientistas e pensadores, quase tudo chegou até nós pela escrita. Sem desconsiderar os tempos das narrativas, que posteriormente foram registradas através da escrita. E ela continua até hoje, bem aqui, na minha e na sua frente.

Como as palavras podem assumir mais de um sentido vale dizer que, pena, pode ser um substantivo feminino representando – Punição atribuída a quem cometeu um crime; condenação; castigo. Também pode significar – Expressão de caridade, compaixão. E claro – A estrutura composta por ceratina que reveste o corpo das aves. Há também um espécie de peixe, o Peixe-pena. Opa, ainda temos o verbo – penar, que flexionado, pode chegar também à palavra – pena.

Há pessoas que gostam de ler e já outras que não. Algumas falam muito, outras, pouco. Existem aqueles que gostam de ouvir, já outros, não. Estudiosos da comunicação confirmam que tudo o que falamos é – texto, seja pela oralidade, seja pela escrita. Texto, todos nós os usamos diariamente, um pouco mais ou um pouco menos. Falando ou escrevendo, produzimos textos. O mais interessante é que foi constatado que 90% do nosso texto, quer dizer, da nossa comunicação é oral, falada. Apenas 10% é escrita. Então aparece um dos porquês tantos dizem que nossa linda língua portuguesa é difícil, complicada. Ora, se de mil palavras que comunicamos 900 são faladas e apenas 100 são escritas por nossas mãos, desde as penas, as canetas e hoje digitadas, encontramos na escrita a forma como falamos. E a maneira como falamos é diferente de como escrevemos.

Por exemplo. Quando queremos alertar um filho ou amigo sobre os perigos nas ruas, talvez se fosse escrito ficaria assim: “Tome cuidado, esse bairro está muito perigoso”. Já na fala, provavelmente ficaria assim: “Tomi cuidado, essi bairro tá muito pirigoso”. Há uma tendência de na linguagem coloquial usarmos essa troca do – e pelo i, entre outras trocas. Faz um ou dois meses que ouvi uma frase no ônibus e procurei gravar cada palavra para colocá-las no quadro para que os alunos a avaliassem. Um jovem desconhecido me deu esse presente ao encontrar seu colega no coletivo. Quando o colega perguntou aonde ele iria, o jovem, para mim desconhecido, respondeu exatamente assim: “Vô no Centro lá paga umas conta lá dá umas volta lá”. Quando as escrevi exatamente assim no quadro a maioria dos alunos riu. Perguntei o porquê da graça. Vários comentaram que as palavras estavam mal empregadas, poucos se arriscaram em reescrevê-las como sugeri. Perguntei a eles quantas e quais informações estavam implícitas no breve texto, antes oral, agora escrito. Alguns alunos conseguiram perceber três informações e as destacar: Primeira, o jovem iria ao Centro de Florianópolis. Segunda, estava indo pagar algumas contas. Terceira, que ele aproveitaria para passear, dar umas voltas. Sugeri o texto assim: “Vou ao Centro pagar algumas contas e dar umas voltas”. Economia vocabular. Suprimir palavras desnecessárias, por exemplo, as três aparições do advérbio de lugar – lá. Enfim, ser mais específico sempre que for possível. Há ocasiões em que precisamos não economizar e sim, ser mais detalhistas.

É sempre importante lembrar de que praticamente nenhum de nós, ou nenhum de nós (não é referência a maravilhosa banda), fala sempre como dita a norma culta da língua portuguesa. É lamentável o preconceito linguístico, ou seja, julgar os outros por sua maneira de falar. No entanto, muitos que têm mais de 30 ou 40 anos, talvez se lembrem de um comercial de uma loja de vestuário que dizia algo mais ou menos assim: “O mundo trata melhor quem se veste bem”. Quantas histórias já ouvimos de pessoas que não estavam bem vestidas foram mal atendidas em grandes lojas? E quem não sabe que qualquer pilantra pode vestir-se bem, além de falar bem e aplica facilmente seus golpes?

Todas essas voltas para dizer que também é preconceito quando julgamos como inferiores os que não falam ou escrevem de acordo com as normas da nossa língua. Isso em hipótese alguma deve ir à outro extremo: Falarmos ou escrevermos como bem entendemos ou queremos. Muitos que riem de outros por sua fala ou escrita usam frases com verbos mal colocados, por exemplo: “Fazem 20 anos que sou casado”. Houveram muitas reclamações”. “Haviam menas mulheres”. “Seje como for”. “Sorriso no rosto”. Falam assim, pois se acostumaram ao erro. Deveria ser: “Faz 20 anos que sou casado”. “Houve muitas reclamações”. “Havia menos mulheres”. “Seja como for”. “Sorriso, ou largo sorriso”. Alguém por acaso sorri nas costas? Sorriso só no rosto. Todos cometemos nossas falhas quando o assunto é comunicação, oral ou escrita. O importante parece ser o equilíbrio em respeitar e não julgar outros por sua maneira de falar, mas não usar isso como desculpas para sair dos trilhos em nossos textos. Convenhamos, diante um juiz, um advogado, um médico, um policial, um futuro patrão ou por nós mesmos, falar e escrever corretamente não causará pena em quem ouve, antes, uma “luz brilhará”. Não dará pena de quem escreveu, nem de quem lê. De quem fala ou de quem ouve.

É muito comentada por estudiosos a comunicação entre os animais, os golfinhos, por exemplo. No entanto, a comunicação humana é ampla, sem igual. Elaboramos, decidimos e comunicamos nossas decisões e pensamentos. Nossa vida social, econômica, cultural, espiritual e amorosa é marcada pela comunicação. Tanto é assim que até quem não ouve, não fala ou enxerga procura meios de comunicar-se. Dádiva do Criador a não ser dispensada ou mal empregada, muito menos usada para ferir. Assim, pena seria se não houvesse a fala, a escrita, o ouvir, o falar, a leitura. Que há uma diferença entre a pena e a língua é certo. Certo também é nos comunicar com eficiência e clareza. E se fosse para escolher entre a pena e a língua eu teria dificuldade em minha decisão. Creio que os amigos leitores tenham suas preferências também. O importante é que as temos, ou seja, temos opções. Sendo assim o importante é usá-las da melhor forma possível. Afinal de contas, é nos comunicando que nos damos a conhecer e conhecemos a outros. Nosso dia a dia é marcado pela pena e pela língua sem pena de fazer uso delas, sob pena de sermos mal interpretados; isso sim, seria a maior da penas. Que elas estejam sempre entre nós.

1 responder
  1. Hilário S.Silva says:

    Corretíssimo…na escrita e nas palavras. Quem sabe, faz ao vivo, diz aquele comunicador da poderosa. Abcssssss…

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