Entre dois Senhores*

– Bom dia!
As manhãs da Renascença, Canal 1, reúnem duas das mais talentosas vozes do rádio português. Antônio Sala e sua amiga Olga Cardoso, individualmente, representam fenômenos radiofônicos consideráveis, coisa que nem mesmo suas aparições na TV conseguiram ofuscar. Juntos, chegaram a um ponto de sincronia perfeita, capaz de unir o norte e o sul do país num envolvimento terno, amigável e bem humorado, como todos os casais gostariam de ter:
– Olha! A temperatura aqui se mantém, mas já no Porto, apesar desse capricho…
– Sim…
– … a temperatura subiu um grau…
– Então estamos com doze!
– Quanto a Faro, desce um grau…
– Então catorze!

O programa ‚ apresentado em jogral, com uma alegria infantil como o discernimento do público a que se dirige. Meses ou anos de audição continuada deste tipo de programa costumam produzir um alto grau de empatia: a vida fantasiada dos comunicadores passa a fazer parte da vida real dos ouvintes:

– Necessário que saiba esta frase!

Serão milhares de lápis e esferográficas trêmulas a tentar registrá-la, por todos os cantos do “país real” a que a Renascença chega em AM e FM como nenhuma outra emissora privada, e até‚ fora do país, onde vai via satélite. Tanto quanto o prêmio do “jogo da mala” – uns trezentos contos – o que importa‚ não desapontar Antônio Sala e Olga Cardoso, companhias de todas as manhãs:
– Estou a ouvir, sempre ouço vocês. Só não guardei a frase porque estou com pressa para sair de casa, para fazer fisioterapia…

Não faz mal, Sala perdoa, Olga compreende. Ambos se interessam pelo problema físico, estão solidários. No fim elogiam, alisam, mandam beijinhos. O programa seduz.
Tamanha capacidade de comunicação está a ser desperdiçada por um excesso de informação no horário do “Despertar” – das sete… às dez da manhã. Há notícias, esportes, trânsito, manchetes da imprensa internacional, notas históricas e um apontamento religioso, trazidos pelos “colegas de trabalho” dos apresentadores, resquícios de uma emissora generalista que está a perder o sentido com a especialização das freqüências. Há também música, e as canções “escolhidas” pela amiga Olga são sempre as mais preciosas.

Antônio Sala e Olga Cardoso sabem bem avaliar o efeito de suas vozes sobre o crédulo povo católico. Usam isso para vender detergentes ou anunciar supermercados, ocultando esta mercantilização sob o formato de notícias ou passatempos. Do ponto-de-vista da deontologia profissional, esta promiscuidade entre matéria editorial e publicidade não é muito católica. Mas parece ser hoje uma característica de toda a programação da Renascença, onde ficou difícil diferenciar uma orientação ao público sobre a gripe de uma operação de marketing de vacinas.

O programa “Despertar” termina por desejar “um dia feliz” a seus ouvintes. E promete voltar na manhã seguinte, “se Deus quiser”. É que há um segundo Senhor a quem prestar contas na emissora.

*O texto é uma versão abrasileirada feita pelo Editor, a partir do original veiculado no jornal Público de Lisboa, na década de 1990.

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Por Eduardo Meditsch

Radialista, jornalista, escritor e professor universitário, é Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em rádios de Porto Alegre e Rio de Janeiro. Escreveu os livros O Conhecimento do Jornalismo e o Rádio na Era da Informação. Coordenou as coletâneas Rádio Pânico e Teorias do Rádio.
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