Entre ouvidos: sobre rádio e arte

O livro organizado pela professora Lilian Zaremba é uma preciosidade incomum. Esse sentimento leitor, você só poderá dimensionar depois de ter o livro nas mãos, os olhos dançando sobre as páginas e a inteligência queimando de curiosidade e interesse. A começar pela beleza e o inusitado das ilustrações; e a terminar pela riqueza, amplitude e profundidade do conteúdo. Nada indigesto, porém. Apenas espantosamente simples e forte como o pensamento de Raduan Nassar citado no texto de apresentação do livro pela autora: “… cada palavra sim, cada palavra é uma semente”. Ou quando ela mesma pondera: “Rádio igual a música quis Gould, rádio igual  a paisagem imaginária propôs John Cage, radiobiorritimico sugere Murray Shafer, rádio polimorfo na visão do filósofo Tetsuo Kogawa, entre muitas outras idéias… o rádio chega ao terceiro milênio tratado como meio para inúmeras possibilidades de comunicação e criação. Mas como tais propostas poderiam encontrar lugar numa emissora de rádio, formatada sobre uma grade de programação?”

Lilian Zaremba escreve sobre o livro:

Sendo difícil estabelecer uma data precisa e única para o nascimento do rádio, alguns modelos acabaram por descrever sua gênese repleta de ausências e até alguns equívocos. Condicionados ao modelo do entretenimento, quase nos esquecemos de perceber a diversidade e descontinuidade de sua História. Observado como fenômeno de comunicação cósmica via ondas eletromagnéticas, será possível apontar a presença precoce do Rádio em situações aparentemente inusitadas.
 
R. Murray Shafer, compositor e radioasta canadense, sugere que o rádio existiu muito antes de ser inventado, estando presente nas transmissões religiosas da Antiguidade, quando vozes expressavam ordem diretamente dos céus. Esta versão sacralizada do rádio pode ser acrescida às inúmeras histórias do folclore dos povos nas quais mensagens são carregadas pelos ares, irradiadas por gargantas invisíveis – e de fato, onde os telescópios óticos conseguem realizar um mapa através do registro sonoro.

Nos anos 30, o teórico alemão Rudolf Arnheim acreditou ser o rádio “um canal por onde os pensamentos vaguem tão longe quanto desejarem e na ausência do visual surge uma ponte acústica entre vários sons: vozes conectadas ou não a uma cena de palco são agora da mesma carne que a discussão, recitação e música”.

As idéias alinhadas pelo teórico já vinham ecoando desde os oitocentos quando Thomas Edison em 1878 justificava utilidade para o ressoante fonógrafo enumerando algumas funções tais como “uma máquina para ditar discursos, um livro para os cegos, um relógio que anuncia as horas, um brinquedo para crianças e, para máquina para reproduzir música”. O livro está sendo distribuido gratuitamente, basta pedir através da SOARMEC dirigido a adriana@soarmec.com.br

Lilian Zaremba nasceu e vive no Rio de Janeiro. Roteirista e produtora radiofônica, pesquisadora doutora em teorias da comunicação, vem trabalhando desde 1997 diferentes aspectos da linguagem e transmissão radiofônica associada às artes sonoras. Idealizou, curou e coordenou o I RÁDIO-FORUM, “O rádio fora do Rádio”, no Centro Cultural Banco do Brasil (1997) trazendo ao Rio de Janeiro representantes das emissoras públicas da França, Alemanha e Inglaterra, além de artistas nacionais. Seus trabalhos mais recentes foram apresentados em 2008 no Museu de Arte Contemporânea – MAC (projeto Poéticas Experimentais da Voz), Rádio-Forum Escuta! (Londrina, Paraná), Festival Radial LX (Lisboa), programa especial sobre Arte Sonora e Radioarte (MEC-FM, Rio de Janeiro), artigo no livro Teorias do Rádio II (INTERCOM, Santa Catarina) e concebeu, roteirizou e produziu uma áudio reportagem sobre o músico Walter Smetak, em 2008, para o Museu de Arte Moderna de São Paulo. Publicou vários artigos de pesquisa sobre o universo da linguagem radiofônica organizando os três números da coletânea Rádio Nova, Constelações da Radiofonia Contemporânea (ECO/Ed. Publique 1997-2000). Participou da X Documenta de Kassel com a transmissão de sua rádio fantasia Crab Nebula (2007). Curou e organizou o I Rádio Fórum: o rádio fora do rádio (1997-CCBB Rio) e a exposição O Que Eu Faço É Rádio! (MAC-2006), entre outras atividades. Mais recentemente inaugura o site www.radioforum.com.br (2009) junto à radioastas e pesquisadores universitários como Rodolfo Caesar, Janete El Haouli, Mauro Costa e Julio de Paula, com o objetivo de divulgar trabalhos de rádio e arte sonora/eletroacústica; nesse mesmo ano é convidada a ministrar palestras no Laboratório de Rádio da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde atualmente desenvolve projeto de Pós Doutorado, relacionando a um Centro de Pesquisa em Produção Radiofônica que implementa junto a Radio MEC – Rio de Janeiro. Organiza a publicação Entreouvidos: sobre Rádio e Arte, reunindo artigos de artistas, críticos e ensaístas tais como Romano, Ricardo Aleixo, Luiz Camillo Osório, Cynthia Gusmão, Roberto D’Ugo, Vera Terra, entre outros, para lançamento na 7ª Bienal do Mercosul.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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