Entre um amor e um amigo

Otávio, adolescente de 15 anos, lá na década de 80, tinha vários amigos no bairro onde morava, Jardim Cidade, em São José.

Imagem de TeroVesalainen por Pixabay

Soltar ou tentar soltar pipas, as feitas por ele jamais pegavam voo, então comprava numa das vendinhas comuns ali perto e a rapaziada achava que ele é que havia feito. Brincavam de bang-bang com revólver de espoleta, aliás, embora não tivesse condições financeiras privilegiadas teve a alegria de ganhar armas assim de suas tias lá de Curitiba. O bilboquê junto ao pião faziam parte das brincadeiras da turma, esse último, porém, não era o forte de Otávio, seu pião jamais girava como os dos amigos. Já o 5 vira 10 ganha era alegria e correria maravilhosa. Bastavam dois pares de sandálias de cada lado da Rua Santa Luzia para servirem como as traves e o futebol começava. Poucos carros passavam por ali, e quando passavam havia uma paciência por parte dos motoristas de aguardar a gurizada sair do meio da rua. Entre vários amigos Otávio tinha um bem especial.

Certo dia, ao caminhar numa rua perto de casa, Otávio viu um cachorro que embora pequeno no porte já era “adulto”. O nome do cachorro era Bolinha. Otávio bateu um papo com a dona do Bolinha e o levou para casa; ainda antes de ter de convencer os pais a o deixarem ficar com o cachorrinho, Otávio batizou-o com o nome de Jony; pensou que seria bem melhor do que Bolinha. Vencida “a luta quase judicial com os pais”, o Jony tinha um novo lar e a amizade de ambos só crescia, mas havia algo que Jony não sabia, tampouco entenderia. Otávio estava apaixonado por uma loirinha de olhos verdes que estudava com ele havia anos. Otávio namorava a loirinha em seus pensamentos, mas a timidez não o deixava declarar todo o seu amor. Agora o tempo havia passado, o amor ou paixão aumentado e eles não mais estudavam juntos. Ela havia mudado de escola. O único lugar onde às vezes se encontravam era no ônibus Bela Vista – Centro de Florianópolis. Ah, àquela linda loirinha sempre bem vestida e perfumada; Otávio sempre dava um jeito de sentar-se perto dela, nunca ao lado, não saberia o que dizer, então próximo; assim, sentia seu perfume e a admirava.

Não é possível afirmar com certeza que Otávio nunca tenha desabafado com Jony sobre o romance imaginário com a Daniela, a loirinha de olhos verdes. Se tivesse aberto o coração ao amigo ele com certeza não diria que Otávio não teria chances, não daria palpites, nem bons nem furados; provavelmente só olharia para Otávio e balançaria a curta cauda de um cãozinho de uns 25 centímetros de altura e peludo, um vira latas puríssimo e da melhor qualidade.

A importante decisão de Otávio…

O amor pela loirinha já existia por quase 4 anos; praticamente o mesmo tempo de adoção de Jony, mas Otávio estava decidido em voltar a falar com Daniela, e dessa vez conversaria com ela como nunca antes. Resolveu deixar prá lá que não era um rapaz bonito e com corpo bem definido. Otávio era tão magrelo e de rosto tão fino que suas orelhas tinham destaque. Isso lhe custava várias piadas e apelidos na escola, hoje com o nome de bullying. O adolescente apaixonado nem sequer conhecia uma das grandes frases do poeta e romancista, Jean Cocteau, “Ele não sabia que era impossível, foi lá e fez”. Otávio preparou-se. Um banho mais do que especial, a melhor roupa que tinha, perfume, um Ray Ban comprado no camelô. Fazia uns dois anos o lançamento do filme – Top Gun Ases indomáveis; e Otávio com o cabelo cortado e aqueles óculos quem sabe desse os ares de Tom Cruise. Agora, colocar o plano em ação. Como sabia a hora em que a loirinha pegava o ônibus era só embarcar num sonho.

Naquele tempo a catraca do ônibus ficava na parte de trás, aliás, se entrava pela porta de trás e logo se encontrava o cobrador. Daniela já estava no ônibus quando Otávio embarcou. E embarcou possuído de coragem e determinação. Parecia o adolescente mais seguro de si do mundo. Enquanto pagava o cobrador seus olhos miravam a loirinha que estava sentada apenas uns 3 bancos a frente e havia um lugar vago ao seu lado. Otávio pensava, “é hoje”. Assim que passa pela catraca o simpático cobrador diz em voz alta:

– Ei, amigo, o teu cachorro entrou contigo no ônibus, não pode.

Quase todos à frente olharam para trás, inclusive a loirinha. Otávio, tomado por um susto também olhou para trás e para baixo; lá estava o amigo Jony já passando por baixo da catraca. Uma mistura de vergonha, raiva, frustração e incerteza expulsaram todo aquele sentimento de segurança. Otávio pensou rápido e agiu de maneira traiçoeira, quem sabe por um orgulho ferido, talvez pela fingida segurança. Olhou para o Jony e depois para o cobrador e disse:

– Não. Esse cachorro não é meu – O cobrador pediu desculpas.

As pessoas voltaram a olhar para a frente, a loirinha também. Quando Otávio preparava-se para pedir licença para sentar ao seu lado ouviu outra vez a voz do cobrador:

– O meu amigo. Esse cachorro é teu sim. Está parado ao teu lado e balançando a cauda.

Novamente as pessoas olharam. Muitos riam, até a loirinha riu ainda que com certa discrição. Os pensamentos de Otávio foram maus. Sentiu vontade de atirar o Jony pela janela. Afinal de contas, embora sempre andassem juntos pelo bairro e já tivesse tentado entrar no ônibus outras vezes, por que logo hoje? O pior dia possível. Mas sabia que jogar o Jony pela janela seria crueldade. O amigo era leal, com certeza não tinha ideia do constrangimento que causara a Otávio. Sem contar que se fizesse mal ao Jony com certeza apanharia de vários passageiros. O Motorista, com bondade e paciência parou o coletivo no início da Avenida Brasil, onde ficava o Besc. Ali era um ponto de ônibus de embarque. O motorista virou-se para trás, olhou para Otávio, abriu a porta da frente e disse para Otávio pegar seu cachorrinho com calma e colocá-lo para fora, mas que fizesse isso com calma, sem pressa. Confirmou que não havia problema nenhum. Parece que ele lera os pensamentos inquietantes de Otávio, ainda que não soubesse que a loirinha era para ele a principal personagem daquele ônibus já quase lotado. Otávio pegou Jony no colo que agora tentava lamber o dono tamanha sua euforia. Jony voltaria para casa com facilidade. Conhecia tudo por ali; ele e Otávio sempre estavam juntos. O problema agora era entrar de novo no ônibus; como encarar as pessoas, as pessoas na mente de Otávio se resumiam numa só, a loirinha, a amada, a menina dos seus pensamentos, a Dani, como a chamavam as amigas. Ele entrou e sentou-se mais próximo ao motorista.

Ponto final. Hora de saltar no terminal do Centro de Florianópolis. Otávio, mais uma vez agradece ao motorista e sai do coletivo. De repente, Daniela se aproxima de Otávio como que fosse falar algo a ele; “por que não me dar um beijo?”, viajou Otávio em seus pensamentos. A loirinha chegou o mais perto possível de Otávio, talvez como nunca antes em quase 4 anos. Dava para sentir seu perfume suave e delicado, uma voz meiga e simpática; ela era assim até na escola em cada dia de aula. Ela tomou a iniciativa de uma conversa resumida numa única frase. Aproximou seus lábios de Otávio e disse doce e delicadamente:

– O seu cachorrinho é lindo – Ela seguiu a passos rápidos olhando para Otávio e mantendo o sorriso até voltar seu olhar para frente outra vez e sumiu em meio a tantas pessoas.

Otávio primeiro ficou feliz de que Daniela depois de algum tempo sem estudarem juntos e sem conversarem havia falado com ele; e bem perto do seu ouvido. Sabia que guardaria aquele momento, aquele perfume, aquela suave e meiga voz por muitos anos. E tudo graças ao Jony.

Otávio chega na empresa e conta a um colega de trabalho o constrangimento que havia acabado de passar. O colega o consola lembrando que pelo menos a loirinha havia falado com ele. Otávio pensou em como teria sido se o Jony não tivesse entrado no ônibus e ele tivesse sentado ao lado de Daniela. Como teria sido? O que teriam conversado? Haveria alguma chance de namoro? Uma coisa causou pela primeira vez um ciúme incomum em Otávio. Com toda sua preparação quem levou o elogio fora justamente o Jony. Ele não apenas roubou a cena, o momento, mas foi chamado de lindo pela loirinha. “Lindo, o Jony”, dizia Otávio em voz baixa várias vezes naquele dia.

Ao chegar em casa lá pelas 22h, depois de um dia de trabalho e estudar à noite, lá estava ele, balançando o rabo e até parecia sorrir. Otávio chegou a pensar que ele estava deslumbrado com a loirinha, afinal de contas, ela havia o chamado de lindo, embora ele não tivesse ouvido. Otávio pegou o amigo no colo. Contou a ele o que a loirinha havia falado a seu respeito. Jony não queria saber de Daniela, queria a presença do amigo.

O tempo passou e Otávio nunca mais encontrou a loirinha. Um dia uma amiga em comum disse que ela havia se mudado. Entre um amor e uma amizade Otávio manteve o companheirismo com o fiel Jony. Da loirinha guardava àquela última frase que ouviu dela. De Jony a amizade, ele era o portador de um belo e sincero elogio da amada loirinha. Manteve ali seu amor e sua amizade por toda a vida de Jony.

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *