Entrevista: Bia Reis (Jornalista do Estadão de São Paulo)

No universo da Literatura Infantil sabemos o quanto os escritores, leitores, professores, contadores de histórias e os jornalistas apaixonados por esse gênero literário lutam diariamente para que novos leitores sejam conquistados e também para que os escritores tenham seu trabalho reconhecido e respeitado.

Bia Reis

O trabalho de divulgação da Literatura Infantil não é fácil e lutar contra os estereótipos que esse gênero recebe é ainda mais complexo, estereótipos do tipo que esse seja um gênero destinado somente para crianças; de que seja uma literatura menor ou então que seja uma literatura que tem como único propósito transmitir valores morais e cívicos, sim, infelizmente todos esses julgamentos/estereótipos ainda permeiam o universo da Lit. Infantil. Todos que a acompanham, que realmente são fãs, sabem o quanto esses julgamentos são precipitados e sem fundamento, e consequentemente lutam arduamente para que as demais pessoas finalmente adotem um novo olhar para o gênero literário.

O site Caros Ouvintes tem a honra de entrevistar uma dessas pessoas, Bia Reis, jornalista, editora-assistente de Metrópole, autora do blog ‘Estante de Letrinhas’ no Jornal Estadão. Bia é uma leitora assídua desde a época de criança, sendo que sua paixão por esse universo é evidente em suas matérias, que trazem sempre seu olhar analítico sobre obras da Literatura Infantil, Infanto-juvenil e Juvenil; tanto do ponto de vista das narrativas textuais como também sobre as técnicas de ilustração utilizada pelos autores, além disso, Bia sempre traz as novidades relativas a esse universo, como por exemplo, os últimos lançamentos, os eventos que ocorrem ao redor do país direcionados a literatura e tantos outros assuntos importantes de serem refletidos pelos leitores.

1. Bia, como surgiu seu desejo e interesse em ingressar na carreira de jornalismo? Sofreu influência e apoio de alguém em especial?

Bia Reis: Comecei a pensar em fazer jornalismo quando estava no ensino médio. Eu fui uma criança leitora e uma adolescente leitora e devorava tudo o que caía em minhas mãos, mas tinha predileção por literatura e jornais. Adorava ler jornal. Fiz aquele caminho que era tradicional: primeiro o suplemento infantil, depois do caderno de cultura, de cidades, até chegar no de política… E, além de gostar muito de ler, tinha facilidade para escrever e era muito curiosa pelas histórias das pessoas. Meus pais me incentivaram muito na época, achavam que o jornalismo tinha a ver comigo, mas tenho certeza de que eles me apoiariam em qualquer profissão que tivesse escolhido.

2. Certamente você é um dos nomes fortes a escrever sobre o universo da Literatura Infantil, desse modo, gostaria de saber como foi o começo de tudo, quando e como foi seu primeiro contato com a Literatura Infantil, o que costumava ler quando criança e quando decidiu que escreveria sobre esse gênero literário e tudo que o envolve?

Bia Reis: Bom, a literatura surgiu na minha vida muito cedo, quando eu era criança, pequena. Meus pais eram grandes leitores e foram uma influência fortíssima para mim. Lembro muito deles lendo em casa, de conversarem sobre livros, de me levarem a livrarias – que eram muito mais simples em relação às que temos hoje -, de participarem de rodas de leitura e para troca de obras. Até hoje, eu e minha mãe trocamos muitas indicações sobre livros e escritores. Foram eles que me apresentaram escritores fundamentais para a minha formação, como Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Ziraldo, Maria Heloísa Penteado, Lygia Bojunga, Sylvia Orthof, Erico Veríssimo, Fernanda Lopes Almeida e tantos outros.

Depois, na adolescência, passei a ler outros autores e deixei a chamada literatura infantil de lado. Voltei a se aproximar dos livros ilustrados mais velha, aos 25 anos, quando tive meu primeiro filho, e me surpreendi com a produção contemporânea, após os anos 2000. Apesar desse encantamento, o jornalismo tinha me levado para outro lado. Até então, tinha trabalhado na Folha da Tarde, no Jornal da Tarde e no jornal Agora São Paulo sempre em cidades. Em 2007, antes de entrar no jornal O Estado de S. Paulo, trabalhei um período na revista Crescer, onde tive estreito contato com a jornalista Cristiane Rogério, que já conhecia há muitos anos. Ela era editora de literatura infantil e me apresentou escritores e ilustradores que não conhecia.

Fiquei encantada! Em seguida, eu vim para o Estadão, para um caderno chamado Vida, que não existe mais, mas que se debruçava sobre os temas de educação, saúde, ciência, ambiente e religião. Eu era editora-assistente do Vida, ou seja, trabalhava na edição, não na reportagem, e sentia muita falta de escrever. No início de 2012, sugeri para o portal do Estadão um blog sobre literatura infantil e juvenil que falasse diretamente com adultos, não com as crianças – para elas, na época, existia o Estadinho. O editor do portal topou e eu comecei a mergulhar cada vez mais profundamente neste universo incrível do livro ilustrado.

3. Muitas pessoas têm todo um ritual para ler, algumas precisam estar com uma caneca de chá ou café ao lado, outras só leem em sua poltrona favorita, sem contar o fato de que muitos têm até mesmo um período do dia favorito pra realizar a leitura de um bom livro. Poderia nos confessar se você também tem seu ritual para leitura?

Bia Reis: (Risos) Poxa, não tenho nenhum ritual para compartilhar. Com o tempo cada vez mais escasso, eu leio em qualquer lugar, a qualquer hora, sempre que aparece uma brecha. Sempre tenho um livro na bolsa e leio bastante na cama, à noite – o e-reader foi uma salvação para quem gosta de ler no escuro e quer atrapalhar o menos possível!

4. Em algumas de suas matérias nota-se a ênfase que fornece às obras literárias mais abertas, aquelas que suscitam diferentes interpretações e deixam perguntas no ar, ao invés de fornecer tudo mastigado ao leitor. Essas são suas obras prediletas? Poderia citar também que vantagens tem este enfoque?

Bia Reis: Eu gosto de vários tipos de histórias. Quando penso no livro que vou postar, o mais importante é que ele me seduza, me encante, me comova, independentemente de sua estrutura ou de seu tema. Mas, de uma forma geral, você tem razão, acho que as obras abertas me interessam mais. Para mim, elas deixam o leitor mais livre e o colocam em uma posição fundamental. Como as crianças são muito criativas, têm poucos freios, elas imaginam coisas que os próprios autores não pensaram na hora de escrever ou ilustrar. Isso é mágico! Mas talvez o aspecto que mais me interesse como leitora e pesquisadora de literatura infantil seja a relação íntima entre texto e imagem que apenas o livro ilustrado é capaz de estabelecer.

Se antigamente tínhamos ilustrações que retratavam o texto ou reforçavam determinados aspectos, hoje nos deparamos com desenhos que contradizem a história escrita, traçam narrativas paralelas, ironizam. É muito complexo e requer do leitor habilidades diferentes, que vão além da simples leitura do texto. Infelizmente, nós, homens e mulheres, decidimos em algum momento da história que livro ilustrado é coisa de apenas criança. É urgente que esse conceito seja revisto, e são os adultos justamente quem tendem mais a ganhar.

5. Muitos escritores se dizem escravos de sua arte, na medida em que pensam no que escrever a todo o momento. Gostaria de saber se você como jornalista, nutre essa mesma sensação quando está lendo uma obra literária, como por exemplo, elaborar inconscientemente uma entrevista com o autor da obra; realizar a sua respectiva crítica/ análise, ou você consegue escapar desse mecanismo quando deseja?

Bia Reis: Não sofro desse mal, não! Na primeira leitura que faço dos livros, busco o simples prazer da leitura. Penso o Estante de Letrinhas como um espaço de curadoria literária, uma tentativa de ajudar as pessoas que gostam de literatura infantil a acompanhar os bons lançamentos, os autores que têm, de fato, um trabalho relevante. Acho que as dúvidas sobre a obra, as análises, vão surgindo nas leituras seguintes.

6. Certa vez Shaun Tan (escritor/ilustrador australiano de Literatura Infantil) se mostrou desanimado em relação ao modo como as bibliotecas e livrarias infantilizavam demais seus respectivos espaços destinados a Literatura Infantil, sendo que até mesmo as mesas e cadeiras dispostas aos leitores desse gênero literário eram bem pequenas, deixando de ser um espaço convidativo para leitores das mais diversas idades. Além dessa observação, o autor mencionou o fato da nomenclatura ‘Livros Ilustrados’ ser mais apropriada do que ‘Literatura Infantil’, pois quebraria os inúmeros estereótipos sofridos. Gostaria de saber qual sua opinião sobre essas considerações realizadas por Shaun Tan?

Bia Reis: Concordo inteiramente com o Shaun Tan. Acredito que a nomenclatura livro ilustrado, apesar de ainda pouco usada pelos leitores em geral, é mais apropriada, porque aponta para um tipo de obra com características próprias – em que dois tipos de linguagem, textual e imagética, são fundamentais para a compreensão -, e não para o público ao qual ela originalmente se destina. Adoro livros com múltiplas camadas de compreensão, que falam com as crianças, mas que também impactam leitores de outras idades. Livro ilustrado de qualidade é para todo mundo!

7. Escrever sobre Literatura Infantil, Infanto-Juvenil e Juvenil certamente envolve grande responsabilidade, poderia confessar quais as maiores dificuldades e alegrias que seu trabalho te proporciona?

Bia Reis: Hoje, minha maior dificuldade é lidar com a grande quantidade de livros incríveis com os quais tenho contato. Eu realmente não dou conta de ler tudo e faço uma pré-seleção, bastante visual, que ocasionalmente falha. Morro de raiva quando vejo livros resenhados ou premiados que passaram pelas minhas mãos e que não me atentei como deveria! A sensação de que o dia precisava ter muito mais horas para que eu pudesse ler tudo o que gostaria e ir com mais frequência a lançamentos, contações de história e eventos de literatura que me interessam também me acompanha.

Mas é um mal moderno, não é? Na verdade, sofremos todos juntos! Já as alegrias são inúmeras. Amo quando encontro um livro que me toca! Adoro encontrar escritores e ilustradores que compartilham seus trabalhos, seu processo de criação, seu amor pela literatura. Adoro também ver bibliotecas e livrarias fervilhando e conversar com leitores de todas as idades apaixonados pelo livro ilustrado.

8. Muitos fãs de Literatura Infantil chegam até mesmo a tatuar seu amor por esse gênero literário na própria pele, tenho a curiosidade de saber se você como alguém extremamente apaixonada por Literatura Infantil, já imaginou algum dia em fazer a tatuagem de algum personagem em particular ou de repente algum trecho de um livro infantil que marcou sua vida?

Bia Reis: Eu tenho algumas tatuagens, mas, curiosamente, nenhuma delas faz referências aos livros. Se fosse tatuar os que marcaram a minha vida, colocaria uma lesma, em homenagem à Lúcia-já-vou-indo, ou uma ovelha, em referência à Maria-vai-com-as-outras… Ficaria meio estranho, não? (risos)

9. Bia, agradeço pela entrevista concedida ao site Caros Ouvintes. Foi uma honra poder realizar essa troca de ideias, você gostaria de deixar um recado final para todos que acompanham seu trabalho e também para aqueles que ainda não conhecem?

Bia Reis: O prazer foi todo meu! Convido seus leitores de todas as idades a conhecerem o Estante de Letrinhas e a mergulharem ainda mais nesse maravilhoso mundo do livro ilustrado. Leiam, escrevam, compartilhem seus livros preferidos!

Acompanhem Bia Reis no ‘Estante de Letrinhas’: http://cultura.estadao.com.br/blogs/estante-de-letrinhas/

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