Entrevista: De Leve

‘Estalactite’ é um dos projetos de grande qualidade do rap nacional desse ano, sendo que o rapper De Leve construiu músicas que desvelam habilmente sua personalidade, falam sobre enfrentamentos nada fáceis que teve que passar, e também sobre a importância de manter a cabeça erguida e continuar em frente na sua caminhada. O rapper também fez músicas metapoéticas, ou seja, ele realizou reflexões sobre a importância do conteúdo lírico que o MC deve possuir, sobre o flow que deve estar sempre afiado e caminhar lado a lado com a batida, sobre a relação entre o MC e a plateia, e também sobre o fato de que todos os MC’s devem levar a sério o ofício de rimar, tendo de conhecerem os grandes nomes do Hip-Hop, daqueles que fizeram a cultura evoluir e se expandir. Diante de tudo que foi exposto, o site Caros Ouvintes tem a honra de entrevistar um dos grandes MC’s do rap nacional: De Leve.

deleve

Quem são suas influências no universo musical?
De Leve: Puxa, vão de Hermeto Paschoal a Fugees; de Waldick Soriano a Snoop Lion; de Dr.Dre a Lee Perry. Eu gosto de tudo um pouco. E acaba que cada coisa nova que ouço e gosto me influenciam sempre um pouco.

Como foi seu primeiro contato com o rap?
De Leve: Eu comecei indo aos bailes funk que rolavam aqui no Rio nos anos 90. Esse foi o primeiro contato, na minha opinião. Mas ainda não conhecia o Hip-Hop a não ser o dos bailes, aquela vertente. Alguns anos mais tarde, ao entrar num time de basquete e ter contato com a cultura do basquete e vídeos editados com a outra vertente do Hip-Hop, ai sim entrei de vez no vasto do Hip-Hop.

Vamos falar um pouco sobre seu EP lançado esse ano, Estalactite. Você poderia nos falar sobre o pessoal que esteve envolvido no projeto, como por exemplo, produtores, artistas convidados, os responsáveis pela mixagem?
De Leve: Comecei fazendo o EP com Gilber-T. As primeiras ideias foram nossas. Depois juntamos com meu parceiro de longa data Bruno Marcus, dono da Tomba e gravamos, mixamos e terminamos o EP de lá. Tive o prazer de fazer música com dois novos parceiros também, o Daniel Sydens e o Jonas Pheer. O Sydens foi meio que em cima da hora, depois de um convite para gravar no disco de seu grupo, o Cartel MC’s; daí ao mostrar a música pra ele, o mesmo já disse que queria fazer o beat e aí fez e ficou foda. Já o Jonas mandou vários beats no meu e-mail, mas o que mais gostei e único que gravei foi este. Mexi um pouco, mas é basicamente o que você ouve.

Como surgiu a ideia para que o título do EP fosse ‘Estalactite’?
De Leve: Surgiu com a ideia de como eu ia explicar que tinha parado com a música, mas que fosse de maneira metaforicamente interessante, então eu pensei que o morcego vive na caverna, de cabeça pra baixo, não enxerga, é mamífero, mas apesar de tudo tem asas pra voar. E voa pra dedéu!

O elemento do humor sempre foi forte em suas músicas, uma característica utilizada por duas lendas do rap que sempre admirei, Notorious B.I.G. e Eminem. Gostaria que você falasse desse elemento que você utiliza, é herança de família ou influência de algum rapper em especial?
De Leve: É um pouco dos dois. Realmente gosto de rappers bobos, que rimam com humor, como Biz Markie e Redman. Mas também é aquela coisa, no Rio vagabundo zoa muito, é uma escola da zuação filha da mãe e eu sempre gostei de piadas e de curtir com os amigos. Como eu vi que isso faltava muito no rap nacional, achei que podia usar isso como meu diferencial; enxerguei que, a partir dali, iam me entender melhor; daquela maneira eu ia conseguir captar a atenção e poder passar a mensagem que desejo em diferentes músicas.

Preciso confessar que o meu som favorito do EP é ‘Estereonatário’, as metáforas regadas a humor, rimas internas em abundância, o beat, os scraths e a reflexão metapoética fazem desse rap um dos melhores lançados nesse ano no cenário nacional. Poderia falar um pouco sobre o processo de composição da música e sua inspiração?
De Leve: Esse foi o beat do Jonas. Ele veio bem funk e nós funkeamos ele mais um bocado com as guitarras e o baixo tocado pelo Gilber. Quando ouvi o beat pensei: Nossa! Anos 90, legal, vou rimar pra caralho, rs. E rimar sobre o quê? Ah, sobre wack MC’s, ora. Eles sempre dão boas rimas, rs. Aí eu costumei falar um pouco de mim também, como eu sou e como me enxergam. E dizer também pra molecada que um rap bem feito é sempre melhor do que só estilinho na cabeça e no pé.

A cidade do Rio de Janeiro sempre foi uma referência forte em suas músicas, você pode dizer algumas das coisas que mais ama nessa cidade?
De Leve: O Rio é singular. Sua geografia, montanhas, morros, pedras, maciços, florestas e praias paradisíacas, misturados ao caos diário do trânsito, a falta de educação de boa parte de nós e a oportunidade de convivência e amizade entre diferentes realidades no mesmo quadrante faz dessa cidade uma coisa simplesmente inexplicável e prazerosa de se experimentar.

Como aqui no Caros Ouvintes também comentamos sobre literatura e cinema, gostaria de saber se você nos revelaria alguns de seus livros e filmes favoritos?
De Leve: Puxa, tenho visto muito filme indiano. Gosto muito do “Taare Zammen Par” e
do “3 idiots”. Mas conheci o cinema indiano através do “My name is Khan”. Li pela terceira vez Siddharta de Hermann Hesse e é uma pérola. Mas pra dias menos calmos vou de Rubem Fonseca. É sempre bom e imprevisível.

De Leve, agradeço pela entrevista concedida ao site Caros Ouvintes. Você gostaria de deixar um recado final aos fãs do rap nacional?
De Leve: Ouçam meu EP e conheçam mais da minha música em https://www.youtube.com/user/mcdeleve , espero que vocês gostem!

Confira abaixo os clipes ‘Estalactite’ e ‘Estereonatário’ do rapper De Leve:

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