Erico Verissimo e o rádio do Rio Grande do Sul

Corre o ano de 1937. Começando a se tornar conhecido graças a romances como Caminhos Cruzados e Um Lugar ao Sol, Erico Verissimo sobe apressado as escadarias do viaduto Otávio Rocha que permitem o acesso da Borges de Medeiros à Duque de Caxias. Por Luiz Artur Ferraretto

Na esquina, lá em cima, ergue-se o casarão adaptado para abrigar a PRH-2 – Rádio Sociedade Farroupilha. Ali, dentro do estúdio, desde o ano anterior, o responsável pela Revista do Globo transforma-se no Amigo Velho e improvisa estórias para a Hora Infantil da emissora. Muitas delas aparecem em livros como As Aventuras do Avião Vermelho, Os Três Porquinhos Pobres ou Rosa Maria no Castelo Encantado, editados na Coleção Nanquinote. No programa, funciona, ainda, o Clube dos Três Porquinhos, que confere diplomas aos ouvintes-mirins, que a ele se associam.
Naquele ano, no entanto, o escritor vai se tornar uma das primeiras vítimas do Estado Novo, justamente graças à Hora Infantil, da Farroupilha, como relembraria Maurício Rosemblatt:
– A censura queria que Erico submetesse primeiro a eles os contos que improvisava ao microfone. Erico não aceitou a imposição. Foi para o microfone, fez um manifesto de protesto contra a censura, contra o tolhimento da liberdade do cidadão, e se despediu do programa, o que diminuiu sua renda mensal e sua fé no bicho homem.


Erico Verissimo como o Amigo Velho na PRH-2 – Rádio Farroupilha

Em sua autobiografia Solo de Clarineta, o próprio Erico vai lembrar o episódio com uma frase perfeita a definir a censura e os regimes autoritários:
– Como as ditaduras temem as palavras!
O protesto radiofônico do escritor incomoda os agentes da Delegacia de Ordem Política e Social, valendo a Erico uma interpelação policial:
– Quero que me fales com toda a franqueza. És ou não comunista?
A pergunta do “zeloso” agente da polícia política faz o escritor dar de ombros e ganhar as ruas, deixando para trás a repartição pública, então situada a pouco mais de uma quadra dos estúdios da Farroupilha. O incidente fica por aí mesmo, um pouco respaldado pelo trabalho na Livraria do Globo, da família Bertaso, e na amizade pessoal de Erico com o policial.
Anos mais tarde, quando suas estórias infantis são recompiladas pela Globo, em um volume da Coleção Catavento, Erico explica a origem das estórias, muitas testadas ao microfone da PRH-2:
– Escrevi estes contos no tempo em que os desenhos animados coloridos de Walt Disney atingiam o seu apogeu, e creio que não errarei se afirmar que minhas histórias seguem o espírito surrealista dos cartoons daquele admirável criador de fantasias. Destinei minhas narrativas a crianças entre quatro e dez anos. Quero dizer, escrevi-as de tal modo que, se uma pessoa adulta ler esses contos para crianças ainda não alfabetizadas, estão poderão compreendê-los. Testei quase todas essas histórias com meninos e meninas das mais variadas idades.
Nas décadas seguintes após a experiência da Hora Infantil da PRH-2, constituindo-se em um dos principais escritores do país, autor e obra inserem-se como assunto na programação das emissoras. Não aparecem apenas como notícia à medida que se sucedem êxitos literários, como o representado pelos três volumes de O Tempo e o Vento. Em 1957, por exemplo, são tema de uma das candidatas do programa de perguntas e respostas Dê Asas à sua Inteligência, na Guaíba. Na mesma emissora, uma conversa do jornalista Flávio Alcaraz Gomes, em 1º de outubro de 1975, marca um feito do rádio do Rio Grande do Sul. No aniversário do jornal Correio do Povo, o enviado da Guaíba é o primeiro repórter brasileiro a falar ao vivo da China Comunista. E escolhe para conferir mais significado ainda ao momento conversar com o autor de O Tempo e o Vento:
– Alô, Flávio. Um abraço pelo dia de hoje. Mundo velho sem porteira, hein?
De fato, um mundo velho sem porteira mesmo, não só em termos de telecomunicações. Quatro décadas antes, o mesmo Flávio colecionava lançamento após lançamento da Coleção Nanquinote e não perdia uma Hora Infantil da Farroupilha, como ouvinte e como sócio do Clube dos Três Porquinhos.
Aquela conversa, no entanto, varando quilômetros de distância, acabaria marcando um dos últimos contatos do Amigo Velho com os ouvintes gaúchos. Pouco depois, em 28 de novembro, Erico Verissimo morre vítima de um ataque cardíaco. Neste 2005, passados 30 anos daquela data, e uma centena da de nascimento do escritor – 17 de dezembro de 1905 –, ele está de novo na pauta das rádios do Rio Grande do Sul, mais vivo do que nunca, com perdão do clichê.


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Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
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