Escada Rolante

Acuado, um dos primeiros hominídeos corre e, de galho em galho, galga um lugar seguro sobre a árvore; ou galga, de pedra em pedra, um paredão íngreme para alcançar aquelas frutinhas saborosas lá no alto.

Pronto, caro leitor ou ouvinte, aí estão os antecedentes dessa invenção genial que nos elevou, como indivíduos e como espécie, do rés do chão à altura: a escada.

Da rudimentar escada de paus trançados às sofisticadas estruturas de hoje, foi um longo caminho. Como outras maravilhosas invenções, de simplicidade funcional ou de sofisticação tecnológica, as escadas incorporaram-se para sempre ao cotidiano humano.

Essa trajetória desembocou nesse primor que não me canso de observar: a escada rolante.

Inventada no final do século XIX, a escada rolante é uma das corporificações da filosofia do menor esforço. Ou seja: além de nos elevar, também nos transporta sem que tenhamos que dar às pobres articulações dos joelhos o trabalho de subir os degraus. Quanta distância daquele esforço inaudito feito por nosso ancestral da escala evolutiva!

Quase contemporâneos das escadas rolantes, e antes delas, inventaram-se essas outras maravilhas do consumismo: os shoppings centers. Estes são, em verdade, o habitat natural das escadas rolantes. Embora ela seja encontrada em muitas outras construções, é no shopping que a escada rolante pontifica. Sem elas, esses modernos mercados de compra e venda verticais praticamente não poderiam existir.

Escadas rolantes geralmente são imponentes. Seus degraus de aço, escamoteados, surgem diante de nossos pés como vindos das entranhas da terra. Pisando neles, nossos pés cessam sua faina permanente e nobre de nos carregar e conduzir. Daí em diante, na escada rolante, serão passageiros, como o resto de nosso corpo, que sobe ou desce lentamente, dando-nos a oportunidade de olhar em volta, inclusive para ver as lojas de outro ângulo – mais uma oportunidade de sermos seduzidos pelo consumo.

Há, no entanto, nesses mecanismos de elevação, nessas escadas tecnologicamente avançadas, algo de inquietante, e para muitos de assustador. Subir ou descer por nossas próprias pernas é natural, uma complementaridade, com mais esforço, do ato simples de caminhar. Mas, descer ou subir usando as escadas rolantes exige o embarque nelas, o que, no mínimo, pode preocupar a maioria das pessoas. Sobretudo àquelas mais simples, não habituadas a esses mecanismos.

Sempre observo essas pessoas hesitantes diante das escada rolantes. Elas exibem um jeito assustado, e ao mesmo tempo envergonhado. Algumas insistem por si e conseguem; outras acabam precisando de u´a mão amiga ou pelo menos de alguma palavra de incentivo. Muitas, no entanto, desistem e vão dar, muitas vezes, uma longa volta até encontrar um elevador que as salve de andar nessa geringonça que sobe e desce.

Além dos hesitantes, há também os idosos, de modo geral, e os portadores de necessidades especiais, todos confrontados com a dificuldade de utilizar essas escadas. Ah, e as crianças, esses dínamos da energia do futuro, atrasadíssimas sempre pelas escadas rolantes, e com as quais todo o cuidado é pouco.

Lá estão elas, as escadas rolantes, cujos degraus, à distância, mergulhando e reaparecendo depois, me lembram uma grande e dócil serpente, com seus anéis de ferro, aço e borracha antiderrapante, poderoso e belo animal tecnológico, que nos leva, lentamente, em seu dorso, pelos caminhos do conforto ofertado pela modernidade.

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