Escola risonha e franca

Comecei a escrever para jornal antes dos 18 anos, a convite de Maria Iná Vaz, então dona do jornal “A Gazeta”, com apreciações de espetáculos teatrais, programas radiofônicos, bem como outras publicações.

Glauce Rocha e Mauro J. Amorim

Glauce Rocha e Mauro J. Amorim

Muitas vezes vindo de encontro com algumas divergências o que é comum numa cidade onde todos se conheciam, o que dificulta qualquer crítica e por isso se faz inimizades. O convite para integrar o corpo de redatores do O ESTADO, pelo gerente, Osmar Schlindwein, soou como um contrato para a Folha de SPaulo, Jornal do Brasil e O Globo, então líderes da imprensa brasileira.

A redação do jornal O Estado era capitaneada pelos talentos de Marcílio Medeiros Filho, Sérgio da Costa Ramos e Luiz Henrique Tancredo, entre outros.

Certo dia deram-me uma coluna, aos domingos, no então já famoso Caderno 2. Fo a glória!

A primeira coluna chamou-se “Paiol”, local de armazenagem de tudo principalmente, de coisas pretensamente não propriamente explosivas, mas que fizessem pensar ou, pelo menos, criassem polêmicas, o que parece que consegui. Foi nessa época, que certo dia, apareceu-me na redação, ainda no velho casarão, na Rua Conselheiro Mafra, um garoto que, muito constrangido, disse-me ser fiel leitor dos meus escritos, mas que também escrevia alguma coisa. E se eu poderia ler alguma texto dele e dar a minha opinião. Lisonjeado, respondi que sim. Que teria muito prazer em ler um texto de alguém tão jovem e que me parecia muito inteligente. Dei-lhe um espaço circulado na minha coluna dominical, fiz a devida e necessária apresentação e, foi assim que, pela primeira vez, revelei um excelente futuro jornalista – César Valente.

“Plá” era a gíria da moda no fim da década de 1970, significando “papo”, “conversa”, “dica”. Foi esse o nome a minha página, dessa vez inteira, no Caderno 2 de cada domingo.

Além de uma entrevista, a página continha pequenas seções como, por exemplo, um consultório sentimental, a cargo de um sábio indiano, chamado “Oruam Mihroma, que é meu nome ao contrário, acrescido de um “h”, para dar toque oriental.

O Prof. Mihroma, lia cartas, jogava búzios e fazia previsões astrológicas as mais cretinas. Além de conselhos como, por exemplo, Norinha Florianópolis do bairro Centro: Caro professor, minha sogra veio morar conosco e, desde esse dia, minha vida virou um inferno. O que devo fazer?

Resposta: Dê-lhe um vassoura de presente. E pode ser que ela sofra uma pane, ao sobrevoar a Baía Norte.

Professorinha do bairro Aririú Formiga: Mestre, sou uma humilde professorinha do interior e tenho que fazer um curso no Rio de Janeiro, mas estou com muito medo de ser agarrada à força, já na rodoviária, por um daqueles “playboys” bonitões fortes. Moça simples que sou. O que é que o  senhor me aconselha?

Resposta: Que você não seja tão otimista. Ninguém agarra ninguém à força, no Rio de Janeiro. Para confirmar seus temores, dê uma voltinha na Praça Mauá depois das 23 horas. E capriche no desodorante que os tarados do Rio andam muito exigentes.

Em meio a essa pretensão a engraçadinho, fiz boas entrevistas, à vezes e página inteira, como com a fantástica atriz Glauce Rocha, quinze dias antes dela morrer, no Rio de Janeiro, praticamente dentro do estúdio da TV Globo, onde gravava  a novela “O Hospital”, na qual era protagonista, no papel de uma médica, tendo por tema musical do seu personagem sua música favorita – o Sinfonia nº 40 de Mozart, conforme contou-me na entrevista. E mais: que havia plantado muitas árvores no Mato Grosso onde nasceu, em ora nunca tivesse um filho; e que havia começado um livro de memórias, perdido numa enchente. Podia ser um aviso, riu, enquanto devorava um peixe ao molho de camarão. E ainda mais: que no começo da vida, havia tentado três vestibulares – medicina, educação física e teatro. E só passou para teatro. Foi assim que o Brasil ganhou uma de suas maiores atrizes de todos os tempos.

Outra entrevista muito boa, de página inteira, foi com o embaixador Paschoal Carlos Magno, um grande e inesquecível amigo, desde, exatamente, julho de 1960 e que viveu muitos anos em Londres, como embaixador plenipotenciário do Brasil. Uma de suas lembranças, entre milhares, foi a da noite em que a Alemanha bombardeou Londres, em 1941. Paschoal estava num teatro, para ouvir um grande concerto, quando as sirenes soaram, avisando do iminente bombardeio, ao mesmo tempo em que as bombas começavam a cair sobre a cidade.

O maestro virou-se para o público, que permanecia em silêncio, em seus lugares e disse: – O inimigo está no ar. Ele poderá destruir esta cidade, este teatro e, até, nos destruir. Mas, jamais poderá destruir a beleza do que vamos ouvir agora. A Filarmônica de Londres e o maestro Arturo Toscanini esperarão; quem quiser pode sair. Como ninguém se mexeu, virou-se para a orquestra e deu início à 5a. Sinfonia de Beethoven – “A do destino”, enquanto o bombardeio prosseguia. Era a sua mais impressionante recordação.

A página “Plá “durou muito tempo, com sucesso sempre crescente, até o lamentável e imperdoável fechamento do jornal, desaparecido por pura incompetência e descaso. Nenhum um “estrangeiro” teria a possibilidade sequer de pretender entrar no território catarinense, se o “Mais Antigo” – sonho do doutor Deba – ainda existisse. [ Texto inicialmente publicado no livro Loucos e memoráveis anos – O centenário do Jornal O Estado (1915 – 2015). Organizadores Laudelino José Sardá e Mário Medaglia. Editora Unisul ].

No podcast um pequeno bate papo com o Mauro, no início desta semana.

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