Escritores e o abismo do nada

Calma, prezado leitor. Já me explico, para que esta modesta crônica não fique parecendo com uma dissertação filosófica.

typewriterEscritores sempre tiveram pavor de que seus escritos se apagassem, desaparecessem sem deixar vestígios. Era o pavor de que aquelas palavras grafadas depois de muito esforço, muito suor para domar as idéias e trabalhar a inspiração, sumissem, e jamais fosse possível repetir aquele achado verbal num poema, aquela idéia aprisionada para sempre num texto científico ou aquela bela forma de dizer num conto, numa crônica, num romance.

Creio, aliás, que esse pavor é que levou nossos avoengos das cavernas a escreverem e desenharem nas paredes. A ânsia da perenidade nasceu com o próprio ser humano e o acompanhará para sempre.

Dos papiros aos papéis, a preservação do que foi escrito sempre foi uma luta constante e muitas vezes inglória.

Para não voltarmos muito no tempo, lembremo-nos de um passado recentíssimo mas que, olhado daqui, dos dias de hoje, parece já muito remoto.

Nesse tempo – não riam os muito jovens – havia uma coisa chamada máquina de escrever, que veio substituir, para os menos conservadores ou menos renitentes, as penas de ganso, as canetas-tinteiro, a escrita a mão.

Usar essa hoje geringonça, mas há apenas algumas décadas a última palavra, oferecia uma segurança a mais contra o medo de perder escritos – as cópias. E quem lambuzou as mãos com o papel carbono sabe do que estou falando: eram cópias e mais cópias. Já pensou se se perdessem aqueles originais? Aí “babau” – uma expressão que aliás já de há muito se perdeu também.

Depois vieram as cópias heliográficas, hoje genericamente conhecidas, as de todos os tipos, como cópias “xerox”. O pavor, então diminuiu, mas não desapareceu.

Então, arrasando, arrebentando, atropelando, chegou o furacão da informática. Nesse momento, segundo penso, abriu-se, voraz, aterrador o que chamei lá no título desta crônica “abismo do nada”.

Não há como negar os benefícios do progresso. Isto em regra geral, porque as exceções são lamentáveis. Hoje, somente uma minoria – daqueles conservadores e renitentes de que falei acima – resiste, ou fica de fora involuntariamente por achar que nunca vai se adaptar a esse mundo informatizado.

Como é espetacular o recurso do “cortar e colar”; como é fácil mexer nos textos, movê-los, modificá-los; como é bom não ter de sujar as mãos com aquela tinta roxa dos carbonos…

No entanto, como é fácil apertar a tecla errada e ver desaparecer para sempre, da tela e de nossas vidas, aquelas páginas geniais, as frases inspiradíssimas, os achados únicos, aquilo que escrevemos e julgávamos capturado, perenizado.

Manuscritos eram perdidos e roubados; cópias eram destruídas. Mas ninguém soube jamais de u’a máquina de escrever, por mais maquiavélica que pudesse ser, que engolisse textos, ali, diante de nós. Pois os computadores fazem isso. Não precisa nem ser decorrência de uma falta de energia duradoura. Basta uma piscadela na luz, um átimo de segundo em que seja cortado o suprimento eletrônico de nossos PC’s, laptops e afins. Pronto: lá se foi o que escrevemos para o cruel, terrível, insondável abismo do nada.

Detalhe: a falha não precisa ser na rede elétrica; pode ser em nós. Basta que essa, sim, máquina genial chamada cérebro esqueça do “salvar” e estamos perdidos.

Às vezes, depois de uma dessas perdas irreparáveis; depois de esbravejar contra a companhia de energia elétrica; após xingar os responsáveis pelo provedor; ou, finalmente, cair em mim em relação à minha própria distração, quase dou razão aos tais conservadores e renitentes, e me sinto tentado a voltar a escrever de forma indelével nas paredes de cavernas, para que nada se perca.

Claro, prezado leitor, que essa vontade dá e passa. Impossível, e creio que mesmo indesejável, voltar atrás. Sigo, pois, cada vez mais dependente dos novos meios de escrever, inclusive deste computador portátil onde digito estas palavras.

Mas, desculpe, amigo leitor, agora é hora de parar e gravar tudo. Vou pegar logo meu pendrive, meus CD’s, DVD’s e meu Tablet. Vou gravar muitas cópias, e vou fazer  isso rapidamente, antes que também esta modestíssima crônica desapareça para sempre no abismo do nada.

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