Escuto-me, logo existo

Há poucos dias, em um taxi em Nova York, surpreendi-me com o jeito do motorista que estava me levando para o aeroporto. Ele tentou conversar, mas eu não estava com vontade e ele percebeu. Acho que ele queria conversar, mas desistiu fácil e não recorreu ao celular, que é o grande refúgio da fala universal.

Quando me dei conta, ele estava cantarolando. Volta e meia fazia algum comentário sobre o lugar por onde passávamos e logo voltava a cantarolar.Durante a hora que durou o percurso, tive tempo para reavaliar as observações que tinha feito durante a minha estadia. Percebi que havia passado 12 dias sem silêncio à minha volta. Quando não era alguém que falava, falava a televisão, o rádio, o iPod. Os ouvidos de todos estavam sempre ocupados com algum som, pessoal ou coletivo, emitido por si ou por outros.

Nesses dias, percebi com maior ênfase o que venho observando tanto cá quanto lá. Não era o silêncio que era aversivo, era o barulho que era atraente. Quero deixar claro que me refiro a sons que procuro ou crio, não aos que nos atingem involuntariamente, como o de motores etc.

Ninguém põe em dúvida que se geram propositadamente sons numa sala. Com vários grupos conversando, a dona de casa deixa o som ligado, que ninguém está escutando, mas que encobre eventuais silêncios. É assim em toda a parte.

\não estou falando de fugir de si. Digo que as pessoas querem escutar permanentemente. Não é pânico de silêncio, é desejo de se ouvir, como uma invocação. Uma vez bem clara essa minha assertiva, quero dar mais um passo.

Existe uma ânsia de ouvir o som que nós mesmo fazemos. Escutar a mim mesmo parece ter se tornado uma condição essencial de vida. Parece que a memória do que foi dito ontem não fica. Tenho que estar me repetindo o tempo todo.

Quando me escuto, confirmo que existo. O som emitido anteriormente pode até me dar uma informação, lembrar-me de um conteúdo, mas não me evoca a sensação de existir. Quando não posso dizer, pelo menos quero escolher o que vou escutar no rádio, na TV, nos iPods.
Há alguns séculos, Descartes disse: “penso, logo existo”. Agora acho que temos que dizer: escuto-me, logo existo.

Os jovens aderiram quase inteiramente a esse lema como atenuador da crise existencial que nos atinge quando não estamos entre conhecidos com quem podemos dialogar. No avião, no ônibus, na multidão, nas salas de espera, o ruído impede a troca.

Nas reuniões de trabalho, não se ouve o outro, espera-se ansiosamente a oportunidade de falar. A cena de alguém falando para um plenário vazio no Congresso sempre me surpreendeu, mas falar é preciso. Fala-se ainda que estamos no mundo da imagem, mas isso já era. Estamos na era do som. Esse, sim, hoje me faz saber que existo. E só por que devo ser algo retrógrada e ainda consigo pensar sem falar, meu motorista de taxi jamaicano foi obrigado a cantarolar até o aeroporto.

Publicado originalmente na Folha de S.Paulo | equilíbrio | Outras Idéias. 5/11/2009.

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