“Esquerda ou direita”: uma simplificação que infantiliza

Nem durante a ditadura militar, período de exceção que pedia palavra de ordem curta e grossa, foi tão intenso como agora a rotulação de esquerda e direita. Naquele tempo era tudo bem simplório: o bom era de esquerda e pedia o fim do regime militar, o mau de direita e aplaudia o status quo. Seria perda de tempo, em tal circunstância, viajar pela semântica, pois nada era mais nobre do que derrubar ditador. Óbvio que a parcela da esquerda que lutava, também, para implantar no Brasil a ditadura do proletariado não se dava conta da contradição embutida no discurso.

Hoje, em pleno processo de aprofundamento democrático da Nação, virou moda o cara que se acha de “esquerda” rotular como de “direita” o cidadão que faz qualquer manifestação que contrarie seu modo de ver as coisas. Impressiona como o ambiente político continua tosco e 50 anos depois estamos no mesmo rema rema o que, nos dias de hoje, na prática, fortalece aquilo que denominam de “direita”, que a maioria nem tem noção do isso significa.

Na maioria das vezes o cara que se acha de esquerda nem sabe o que realmente defende, mas confrontado com argumento diferente do seu sai pela via do escapismo juvenil. Entretanto, como no passado, o debate ainda parte da premissa de que o cara da “esquerda” encarna o bem, a justiça, a igualdade e o cara da “direita” encarna o mal, a injustiça, a desigualdade.

Tal simplificação esquizofrênica que inunda até salas de aulas (onde teóricos de orelhas de livros abundam) – nos empobrece mentalmente, embrutece espiritualmente, aliena dos fatos, anestesia inquietações, pasteuriza angustias, nos cega da realidade, nos emburrica, infantiliza, pois, como papagaios, repetimos slogan como se o mundo fosse estático, como se a vida andasse em linha reta, tudo fosse imutável.

A incongruência embutida nesse doido padrão da rotulagem simplória (também vigorante nas universidades onde a razão deveria prevalecer) é que ao aceitá-lo vamos, aos pouco, nos tornando pessoas dóceis, preguiçosas, frágeis, massa informe fácil de dominar por qualquer discurso mavioso, populista, arrebatador.

Quando nos aferramos à simplificação de características religiosas perdemos a chance de avaliar e aprender com aquilo que melhor funciona, ao longo do tempo, para superar as injustiças que angustiam e, como decorrência, oportunizam bolsões com alto padrão de dignidade para as pessoas. Também perdemos a chance de apreender com as experiências que não funcionaram e que só trouxeram muita dor e sofrimento quando se esperava um mundo melhor.

Aqui no Brasil de 2015 – já sendo governado por diferentes matizes de esquerda por mais de 20 anos – o cara de “esquerda” se torna figura caricata como no passado. Como a França do maio de 1968, em regra, o cara de “esquerda” não nasce na escassez, nasce na abundancia, do tédio, da inveja e geralmente não sabe o que fazer ao ganhar o poder. Mesmo agora os que usam o discurso fácil abandonam o governo e articulam “a nova” esquerda porque é mais fácil explorar angustias imberbes do que reconhecer a impotência de suas teses. E confirmam o velho cacoete: a “esquerda” nunca é responsável pelo que dá errado em seus governos, sempre a culpa é de alguém.

Pois é, enquanto na química e na física, por exemplo, o conhecimento do mundo real é cumulativo e a evolução é constante no campo em que se discute “esquerda” e “direita” tudo permanece estático, como se nada tivesse mudado desde que determinado conceito foi formulado, ou seja, a realidade torna-se apenas ficção, o que vale é sonho – mesmo quando o sofrimento se repete, se repete, se repete…

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