A estranha volta do Juvenal

O ano de 1970 fora mais do que especial para os amigos, Antônio, Victor, Álvaro, Felisberto e Juvenal. Todos com pouco mais de 50 anos de idade e amigos desde adolescentes.

Na juventude quando vinham dos bailes ou festas eram obrigados a passar em frente ao cemitério da cidade; isso os aterrorizava. Sempre tentavam elaborar algum assunto especial para falarem enquanto caminhavam na escura rua do Lar dos Mortos, nome do cemitério da cidade. Eram uns 100 metros que pareciam ser 100 quilômetros tamanha a tensão dos jovens.

Por vezes, combinavam ainda antes de sair da festa ou do baile que antes de chegar perto do cemitério só falariam das meninas, das belas moças, das paqueras, assim o medo dos mortos ficaria para trás. Mas na hora de passar em frente ao silencioso lar um deles acreditava ter visto algo estranho, ou ouvido, ou então um deles inventava algo só para que todos saíssem correndo feito loucos; como se os que ali descansam em paz fossem sair correndo atrás deles.

No dia seguinte era aquela briga:”Quem começou foi tu, eu estava quieto”. “Isso é falta de respeito, quero ver o dia em que uma alma vier atrás de nós mesmo”. “Vire essa boca pra lá”.

A verdade é que os 5 amigos tinham muito medo dos mortos, mais do que dos vivos, como é comum da maioria. Os anos se passaram e lá estavam eles na casa dos 50.

E o medo dos mortos só aumentara. Agora não havia mais bailes e nem festas; todos casados e até com netos. O medo então, ou a conversa era, quando o primeiro deles morresse se voltaria para assombrar os outros. Essas conversas seguiam por horas no bar do seu Felisberto. Um dizia que sim, que se fosse possível voltaria só para puxar os pés dos amigos. Outro dizia que viria todas as noites ao bar do Felisberto tomar uma cachaça e apareceria aos amigos sempre ao saírem do bar. Os amigos saiam do bar com medo só de imaginar a cena; o pobre do Felisberto que ficava sozinho para fechar o bar apagava a última lâmpada e saía correndo.

O pacto.

Por fim a tensão, o medo, o pavor de se reencontrar depois da morte era algo horrível para eles. Por mais que fossem amigos combinaram de que se fosse possível um morto voltar nenhum deles jamais voltaria a aparecer aos amigos; em respeito ao pavor coletivo.

Concordaram. Desde o primeiro que morresse, nada de voltar. Assunto encerrado.

O ano de 1970 foi muito especial para os 5 grandes amigos. O seu Felisberto já tinha televisão no bar e o seu Victor em casa. E entre o bar do seu Felisberto e casa do seu Victor torceram e comemoraram o Brasil tricampeão. Nessas mesmas TVs, meio que encabulados com alguns comentários, curtiam cada capítulo da novela Irmãos Coragem.

Em meados de 1971, no inverno, numa manhã de sábado, um dos filhos do Juvenal, Henrique, chegou no bar do seu Felisberto e deu uma triste notícia:

– E foi assim. Minha mãe acordou lá pelas 5 horas da manhã, achou estranho meu pai com a metade do corpo fora da cama, e ele estava morto. O médico, o dr. Araújo, disse que foi infarto fulminante. Ah, meu pai, só tinha 53 anos.

Os amigos, todos ali reunidos, não podiam acreditar. Ainda ontem à noite o Juvenal estava alegre. Contente por terminar mais uma semana de trabalho, rindo e contando piadas; falava da juventude, das coisas que aprontaram, lembrava de detalhes, parecia até que sabia que ia morrer. Não dava para acreditar. E o médico, o doutor Araújo, que todas as semanas tomava umas e outras com eles também estivera ali na noite anterior. Os amigos lembraram até de que o doutor havia falado para o Juvenal que ele deveria o procurar e marcar alguns exames. Que notícia mais triste.

O velório seria realizado na casa do Juvenal. Uma grande casa de madeira e uma sala espaçosa onde muitas vezes comeram, beberam e riram juntos.

Sábado à tarde, no velório.

Álvaro, Felisberto, Victor e Antônio estavam inconsoláveis. O doutor Araújo chorava e soluçava.

Lembravam das paqueras, das meninas, dos bailes, das festas, das farras; o Juvenal parecia até imortal. Lembraram que ele sempre tomava a iniciativa de tudo que era divertido. O que sempre colocava os amigos para cima, o que sempre arrumava uma namorada para alguém. Ele organizava as festas, os problemas e as soluções eram por conta dele; nunca antes tinham se dado conta disso. Inclusive o pacto de não aparecer depois de morto.

Durante o velório falavam, ora em voz baixa, ora em alta voz sobre as aventuras de Juvenal, de como o queriam vivo, para o abraçar, para confirmar seu carinho e apreço.
Falavam sobre como seria a vida sem ele. Que triste, que sem graça.
Seu Victor, com certo receio, disse:

-Será que ficar falando tanto assim dele não o fará aparecer a nós qualquer dia desses?

– Não – disse o seu Felisberto – lembram o que combinamos? Nenhum de nós voltaria mesmo que fosse possível.

Lá estava o Juvenal, vestido com seu terno preto e bigode bem aparado. Cada um dos amigos se despediu várias vezes e em seguida voltavam a lamentar.

De repente, enquanto o seu Felisberto olhava para o finado amigo; bigode bem aparado e barba feita, um terno preto e rodeado de flores, viu seu braço direito se mover. Achou que estivesse impressionado com a perda do amigo até que o braço direito do Juvenal vai parar fora do caixão. Seu Felisberto pensa que não deveria ter bebido antes do velório do amigo; que agora estava vendo coisas.

Seu Victor acredita que um dos parentes ou amigos havia mexido no corpo e sem perceber deixou seu braço para fora da urna e quis colocá-lo de volta. Mas o medo de tocar no falecido era maior do que a necessidade de acertar a situação. Então chegou perto do Antônio e sugeriu que ele arrumasse o braço do Juvenal. Antônio sentiu calafrios.

Ele se aproxima de Álvaro e diz que seria bom que alguém colocasse o braço do Juvenal para dentro do caixão. Álvaro disse que já estava pensando nisso. Foi até a viúva, dona Olinda e sugeriu que ela fizesse isso.

Dona Olinda calmamente põe o braço do finado de volta ao caixão. Os amigos ficam aliviados por não terem que tocar nele.

Cada um deles próximos ao caixão começa a ressaltar suas qualidades: Divertido; solidário; generoso; grande companheiro para todos os momentos; a vida não seria a mesma sem ele. Por que teve que morrer? Por que não estava naquela linda e fria tarde de sábado, como de costume no bar bebendo e conversando com os amigos, e sim ali, naquele caixão.

De repente o braço do Juvenal vai para fora do caixão outra vez. Os amigos se assustam. Seu Victor se aproxima do caixão e o outro braço do Juvenal é colocado para fora também.

Ninguém entende mais nada. Os 4 amigos se aproximam perplexos e quando voltam seus olhares para o finado ele já está sentado no caixão e com os olhos arregalados, como alguém que acorda assustado e sem entender o que está acontecendo. Juvenal vê os amigos e pensa ser uma festa, até que olha onde está sentado; um caixão de defunto.

Os amigos se atropelam juntos aos familiares e conhecidos que enchiam a sala e correm para o quintal.

Juvenal pensa que talvez tenha bebido demais e os amigos resolveram aprontar uma brincadeira com ele e ao tentar sair dali cai com caixão e tudo fazendo barulho no assoalho de madeira.

Seu Victor diz ao Álvaro para ir lá ver o que está acontecendo. Álvaro pede que Antônio dê uma espiada primeiro. Antônio diz que o ideal seria o Felisberto, afinal de contas, ele era o dono do bar e fora o último a falar com ele na noite passada; e tinham um pacto; quem morresse jamais voltaria.

Quando olham para a porta da sala lá está Juvenal, com flores grudadas no seu terno, um sorriso amistoso e os braços abertos. Todos correm do quintal para a rua, muitos correm sem parar. Os amigos estão em pânico.

Finalmente o dr. Araújo que já havia tomado algumas cachaças desde bem cedo se aproxima do Juvenal e o examina. Ele está mais vivo do que nunca. O dr. Araújo se constrange e pede desculpas; o Juvenal não havia morrido. Deveria ter o mandado a um hospital, mas deduziu que ele havia morrido quando na verdade era algum problema de mistura de bebidas, alguns remédios e um sono mais que pesado.

Aquela semana não se falava em outra coisa em toda a cidade; a estranha volta do Juvenal.

No sábado seguinte lá estavam os 5 amigos reunidos no bar do Felisberto. Voltaram a falar do pacto, a confirmá-lo; o que morresse não voltaria de jeito nenhum. Olhavam para o Juvenal como que o culpando por não respeitar o trato.

O Felisberto disse que tinha uma ideia a acrescentar. Que cada um que morresse seria velado em caixão lacrado. Todos olharam para o Juvenal e ele concordou com o movimento da cabeça, mas perguntou aos amigos:

– Mas e se eu acordar de novo? – Os amigos se olharam e seu Victor falou:

– Certo. Então caixão lacrado só no caso de o falecido ter sido examinado pelo dr. Araújo.

Todos concordaram. O pacto ainda vigorava.

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