Estreia na Fainco

Música | Ilha de meu som | Czardas

Márcio Santos

Imagem publicada no Diário da Fonte do Nei Duclós

Quando a Fainco (Feira da Indústria e Comercio) aconteceu em Florianópolis, na Universidade Federal de Santa Catarina, cujos prédios ainda estavam em construção, a turma resolveu dar uma olhada, já que rolavam bandas locais e nacionais. Como era costume, a grana era pouca para “pegar” ônibus e caminhamos da Crispim Mira até a Trindade. La chegando, alguns resolveram visitar um stand e outras opções. Marcamos um local para nos reencontrarmos e nos separamos.

Foi quando me vi num stand onde acontecia um mini festival de interpretação, com um tecladista e um baterista que acompanhavam os candidatos, inscritos momentos antes.

Nunca tinha cantado em público e, me vendo sem os olhares críticos dos colegas, resolvi tentar algo, me inscrevendo e participando do evento, que deveria ter uma cinquenta pessoas assistindo. Cantei uma música de Roberto Carlos, de letra fácil, pois não queria arriscar minha memória e meu nervosismo interpretando uma canção de meu gosto.

Qual foi minha surpresa, ao final, quando fiquei com o segundo lugar, superado por Artur, um negro da minha idade, uma criança grande, humilde e simpático, já conhecido por cantar em qualquer lugar onde lhe davam “canja”; anos mais tarde, vim encontrá-lo como cameraman da TV Cultura de Florianópolis.

Como os três primeiros lugares ganhavam uma graninha de prêmio, saí dali com dinheiro para pagar uma garrafa de conhaque e nossas passagens de retorno ao Centro, mas nunca contei aos colegas como aquela grana apareceu como mágica. Na realidade, foi por frescura, pois me achava melhor que Artur e não queria revelar que perdi o primeiro prêmio para ele.

Quanta presunção! Na real, apesar de flagrante musicalidade, só fui afinar minha voz solo anos depois, já que viciara em fazer vocais nas rodas de amigos.

A Fainco se repetiu no ano seguinte, agora nas dependências da Assembleia Legislativa em construção, na Praça da Bandeira.

Ali, presenciei uma história impar: os Mugnatas visitaram o local dos shows, onde Os Incríveis se apresentariam; acertaram a abertura do show nacional com o empresário da banda paulista, também responsável pelas contratações locais.

A música mais contundente dos Incríveis era Czardas, que começava com andamento lento e depois dobrava o ritmo, o que causava grande admiração pela agilidade do tecladista do grupo (acho que Manito, que também, tocava sax).

Meu instinto empresarial me fez chegar ao Zé Catarina, fantástico tecladista dos Mugnatas, e recomendar que tocassem qualquer coisa, menos Czardas.

Mas Zé era “mascarado” e resolveu tocá-la, com anuência dos demais colegas.

Só que, ao invés de simplesmente dobrar a segunda parte, executou-a com mais rapidez e maestria do que a banda nacional. Resultado: no final da amostragem, o empresário fez um cheque, pagou os Mugnatas, e pediu para nunca mais aparecerem por ali. Pagou para eles não tocarem, pois seria um desastre para os Incríveis!

Aliás, na década de 90, quando estive em Madri e falei ser de Floripa para os músicos brasileiros que lá trabalhavam, todos, sem exceção, me perguntaram sobre o baterista Toicinho e sobre Zé Catarina, que consideravam serem os melhores em seus instrumentos!

Mas a maior e mais famosa atração da 2ª Fainco foi o falso Robô, cuja história pode ser curtida no Google.

Foi também nesta oportunidade que Antunes Severo fez o lançamento de mil exemplares da gravação do Rancho de Amor à Ilha, com retumbante sucesso.

Voltando a falar da turma da Crispim Mira, outra característica eram as reuniões no chafariz da Praça dos Bombeiros, sempre seco, em cujas noites nos encontrávamos para curtir e ensaiar vocais, movidos a muito Felantin, Preludin e garrafas de conhaque barato.

Outra opção, próxima à casa de Zuvaldo, era a casa de Valmir do Salão (sua mãe tinha um salão de beleza), em cujo porão cantávamos, escrevíamos poemas e pintávamos a parede com nossas idéias psicodélicas, como, aliás, já fizéramos no quarto do Miro. Além dos já citados, frequentavam “Redondo”, Acácio, Cí Demaria, e outros amigos da redondeza.

Ilha de meu som | Márcio Tonelli. Florianópolis: Edição do autor. Pgs. 33 a 35.

 

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