EU, a crônica

Sou a Crônica. Consideram-me difícil de fazer, mas elegem-me charmosa e sedutora de ler.

Não faço concessões à Senhora Prolixidade. Somos, mesmo, absolutamente incompatíveis.

Meu amigão, o Romance, é um boa-praça. Sorri quando lhe dizem que eu, tão miudinha, posso, às vezes, conter um enredo de romance dentro de mim. Eu, embora modesta, sei que é verdade.

Intrigam-me com meu Amigo ensaio, dizendo que há ensaios tão curtos e densos, que parecem uma crônica. Eu até concordo com isso.

Já com meu primo, o Conto, a coisa é mais complicada. Gostamo-nos muito, talvez por nosso estreito parentesco. Embora geralmente nossa diferença de tamanho apareça, confundimo-nos bastante, chegando até a ser chamados por nossos nomes, trocados, por muita gente.

Tenho uma irmã muito amada: a Poesia. Há quem diga até que somos gêmeas, e nisso creio. Muitos creem – e eu também – que somos a mesma coisa. Eu tenho a certeza de que muitas crônicas são simplesmente prosa poética, assim como há poemas que são crônicas magistrais.

Meu detratores esmeram-se em seus ataques. Chamam-me fútil, como se eu só tratasse de temas superficiais. Ou dizem-me “datada”, acusando-me de só me interessar pelo cotidiano, o que me torna também facilmente perecível.

Rio muito quando me tratam assim, sabendo que tais detratores jamais conseguiram captar o espírito da verdadeira crônica. E posso lhe mostrar, caro leitor ou ouvinte, centenas de crônicas que, embora tenham tomado como tema as coisas do dia a dia, ultrapassam de muito o momento, fatos, coisas ou pessoas que lhes serviram de tema. Ao invés de perecer, essas crônicas, ao contrário, conseguiram, com sua beleza, precisão e profundidade escondida no sintético, perenizar aquilo que abordaram. E, com isso, ficaram para sempre como obras de arte, como grandes momentos da literatura, embora ocupando pouco espaço no papel.

Sou difícil mesmo, reconheço. O escritor que deseja me criar precisa se dar muito bem com a Senhora Concisão. Precisa ser capaz de abordar, desenvolver e concluir o tratamento de um tema em apenas uma ou duas laudas.
Uma boa crônica exige rapidez, no captar o tema, e ligeireza em transformá-lo na palavra escrita. E todos os que escrevem sabem o quanto é difícil combinar ligeireza com densidade, ou em transformar o local em universal – tudo isso em tão pouco espaço!

Reconheço que muitas crônicas nascem para pouco durarem. Estas, confessadamente, não têm aspirações de longevidade; talvez se sacrifiquem para isso mesmo: como uma flor, nascem, encantam e perfumam durante poucas horas, depois fenecem. Há muitas crônicas de jornal que são assim: nasceram para ser lidas no sacolejo dos ônibus ou do metrô, no trajeto do táxi. Com seu mergulho fatal no poço sem fundo do cotidiano, do imediato, acabam esquecidas e jogadas fora como o próprio jornal.

Mas mesmo crônicas assim, tão marcadas pelo momento presente, relidas, muitas vezes se revelam obra-primas que transcendem aqueles breves momentos de leitura para o qual talvez tenham sido exclusivamente escritas.
Você já deve ter percebido, meu caro leitor ou ouvinte, que eu, a Crônica, não padeço de falsa modéstia. Ao contrário, fico até com pena dos que me rotulam de “gênero menor”. Pobres coitados, esses. Eles não são capazes de fruir minha mensagem, pequena em extensão, mas imensa em profundidade; não têm a paciência de me reler com vagar, reparando que minhas palavras e frases foram cuidadosamente buriladas para impressionar em tão poucas linhas, para dar conta do assunto, oferecer beleza, sutileza, poesia e precisão, num texto tão curto.

Eu, a Crônica, sou enganosa, confesso. Apresento-me, sobretudo aos que pretendem virar escritores, como fácil. Um novel escritor pode ser atraído por minha aparente simplicidade, pequena extensão e amplitude infinita de temas. Ledo engano. O novo escrevinhador pode acabar enredado na minha trama curta, nos fios emaranhados de minha concisão.
Eu, a Crônica, termino aqui, prezado leitor ou ouvinte, satisfeita por ter prendido sua atenção, seduzido você, por alguns momentos, falando somente… de mim!

Agora que já viu como sou, amigo leitor ou ouvinte, queira-me bem assim como sou, e como pretendo continuar sendo. É apenas o que desejo.

Categorias: , Tags: , , ,

Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *