Eu prometo

“Promessa” é uma palavra que tem belo significado. O “pro”, etimologicamente, nos remete ao futuro, esse repositório de segredos bem guardados, aos quais só teremos acesso quando virarem “presente”.

Prometer é, pois, estabelecer um compromisso com o que ainda virá, com o que se tornará no porvir. E isto não somente em relação a nós mesmos, mas também em face dos outros. Ou seja, prometer é com-prometer, estabelecer um compromisso, conosco ou com outrem.

Prometer é afiançar, ou seja, é lançarmo-nos nas promessas que fazemos; é transformarmo-nos nessa projeção que conseguimos fazer; é também estabelecer um planejamento, uma antecipação supostamente factível, realizável, um guia, um norte para nossas vidas, e para a vida dos outros a quem prometemos.

Promessas podem ser de variada natureza: desde o que prometemos a nós mesmos fazer no dia de hoje, à densa promessa de natureza religiosa, quando as almas apelam às divindades, isto geralmente quando não se pode contar com as promessas humanas.

Ora, prometer é, portanto, uma relação de confiança. Ou deveria ser…

Se a promessa feita é verdadeira, firme, inabalável, ela dignifica. Se a promessa é falsa ou vã, torna-se uma das mais escabrosas e covardes ações que podem ser cometidas. Quem promete e não cumpre trai; e pode trair deliberadamente, sabedor que é, desde que faz a promessa, que ela jamais será cumprida.

Prometer amor, por exemplo, quando em verdade se mira é numa relação unilateral de vantagem amorosa passageira, é algo que deveria sempre ser detestável.

Outro exemplo lamentável é prometer ajuda e faltar à promessa quando aquele alguém que confiou em nós recorre aos nossos préstimos. É como se prometêssemos oferecer apoio e braços abertos e entregássemos, na hora em que se deveria cumprir a promessa, um abismo, um poço sem fundo, onde cairão aqueles que acreditaram em nossas promessas.

“Eu prometo”, essa expressão que usamos com tanta facilidade e leveza, deveria ser sempre sopesada, tendo em conta realmente o que isso vale e pesa. Basta que passemos a refletir o quanto de decepção futura pode estar inserida nessa corriqueira frase.

Exagero, caro leitor ou ouvinte? Talvez. Não obstante, reflitamos quanto o arcabouço das promessas sustenta a nossa vida: o bebê tem, naqueles intumescidos seios da mãe, uma promessa de leite farto e carinhosamente oferecido; o amigo em desespero, a quem prometemos, conta com nossa fidelidade à promessa feita, sob pena de que a amizade – esse sentimento tão difícil de estabelecer e de se consolidar – se desfaça em profunda decepção e, talvez, em imenso ressentimento; até nossos compromissos de trabalho, como patrões ou empregados, se assenta nas promessas, do bom serviço prestado, de um lado, e da justa remuneração, reconhecimento, promoção, de outro.

As leis são, em última análise, uma tentativa de dar suporte formal às promessas. Mas leis não são garantia contra a falta de caráter, nem anulam as dimensões mais profundas da decepção e do desencanto.

Promessas não cumpridas – sejam corriqueiras ou complexas, formais ou não formais, sutis ou diretas e claras, religiosas ou leigas, antigas ou recentes – são como aquelas rachaduras em cristais: não há cola poderosa que as restaure, juntado os pedaços do que nasceu unido na superfície bela e transparente de uma peça feita desse nobre material.

É assim também com os corações humanos. Uma vez trincadas, as relações jamais serão as mesmas. A confiança plena nunca mais será reestabelecida, pelo menos com a intensidade e verdade de antes.

As promessas feitas a nós mesmos têm, talvez, a maior densidade de todas as promessas. Somente nós mesmos sabemos o quanto havia de mentira na hora da promessa e de real disposição para cumpri-la. Sendo vãs, nos lançam numa decepção tão cruel que, com certa frequência conduz até ao suicídio. Tenhamos, então, cuidado extremo também com o que prometemos a nós. A humildade e o reconhecimento de nossas incapacidades são conselheiros que não devemos ter vergonha de convocar na hora de fazer esse tipo de promessa.

Não por acaso, escrevo esta crônica, prezado ouvinte ou leitor, em plena vigência do horário da propaganda eleitoral. Reflitamos todos sobre as promessas – particularmente em relação à enxurrada de promessas boas ou más, realizáveis ou irrealizáveis, sensatas ou estapafúrdias.

Talvez seja esse um bom momento para introduzirmos, de fato, em nossas vidas, uma reflexão sobre a densidade, a beleza e a importância das promessas verdadeiras.

Categorias: , Tags: , , , ,

Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

1 responder

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *