Eu toquei no pé direito de Jesus

Caro leitor, sábado acompanhei o translado de Nosso Senhor dos Passos até a Catedral Metropolitana de Florianópolis, rito que representa o caminho de sofrimento, crucificação, morte e ressurreição de Cristo.

Entre crianças vestidas de roxos, de anjinhos, entre as velas, as coroas e muitos pés descalços, um pagador de promessas capturou toda minha atenção: alguém que me ensinava sobre asseveração, fé e tradição a cada passo doído e choroso, entre um apagar e acender da vela.

A tradição do Cortejo de Nosso Senhor dos Passos em Florianópolis, nossa antiga Desterro, teve inicio em 1766, em uma quinta-feira, dois anos após a chegada da imagem de Nosso Senhor dos Passos na cidade. Data que marca a fundação da Confraria “Irmandade do Senhor Jesus dos Passos”, de acordo com as referências que estão na 1ª prestação de contas dessa Irmandade, datada de 27 de setembro de 1767. Ali estão registradas despesas efetuadas com sermões, fitas, tecidos, linhas, cera, entre outras, utilizadas na procissão de 1766.

Fiquei meio de escanteio, observando e apreciando os hinos e rezas que também fazem parte da minha existência. No entanto, me surpreendi ao ver um homem de joelhos, vestido de branco, levando uma vela num copo grande de vidro. Enquanto espreitava as manifestações de fé, observei que o pagador seguia o cortejo de joelhos. As comoções e os atos de fé vinham de todos os lados, mas o devoto sem rosto capturou minha atenção e seguiu sozinho seu trajeto atrás de Nosso Senhor. 

A procissão seguiu seu rumo, enquanto o devoto quieto seguia lentamente o caminho de Jesus. Eu o deixei na entrada da Rua Tiradentes, segui apressada para me enfileirar juntamente com as centenas de devotos para poder alcançar a imagem de Cristo que já estava no altar da Catedral.

Juntei-me à fileira formada por centenas de pessoas e alcancei. Eu toquei no pé direito de Jesus. No pé de um Jesus insistente que chegou ao Porto de Desterro, em 1764 e daqui não quis ir embora. Reza a história que aconteceram três tentativas frustradas de seguir viagem à barra do Rio Grande do Sul, onde seria seu destino. Mas o mar revolto segurou a embarcação por aqui três vezes. Depois das três conseqüentes arribadas ao Porto do Desterro, pareceu visível a Vontade Divina para que a veneranda encomenda ficasse na cidadezinha sede da Capitania de Santa Catarina. Ou seja, eu toquei no pé teimoso de Jesus.

Enquanto isso, o caminhante seguia o percurso executado pela marcha religiosa, ele vinha devagar e inabalável, ultrapassando as bandeiras roxas que se espalhavam marcando o caminho.

Já passava das 23h50  e a multidão dentro e em torno da Catedral já havia se dissipado. As calçadas e degraus estavam vazios quando o devoto caminhante apontou na esquina na Praça XV de Novembro e eu, quase soltei um grito de satisfação. Já era tarde, os sinos já não mais tocavam. O cenário havia se transformado. O panorama antes abarrotado de fiéis já havia se dissolvido. Naquele momento a Praça e seu entorno estavam quase vazios. Os únicos sons que, praticamente, percebíamos vinha do choro do devoto e das batidas do copo de vidro contra o chão. Curiosamente, o lugar estava vazio, quente e quieto para recebê-lo.

As portas da Catedral já estavam encerradas, mas o segurança respeitoso quando o viu subindo no primeiro degrau da escadaria abriu-lhe as portas. Ele cruzou o vão da porta central e prostrou-se diante da imagem de Nosso Senhor dos Passos oferecendo seus votos e sua vela, tal qual sua fé, que ele manteve acessa durante todo o trajeto.

35 respostas
  1. Fernando Bond says:

    Como é bom – e raro – ler um texto inteligente. Uma reportagem-crônica. Parabéns, Marilange! E espero que você continue a nos servir dessa papa fina.

  2. Lange says:

    Olá Fernando, estou muito contente com sua crítica. Também espero que possamos nos divertir mais contando o cotidiano desta cidade. Ah! Obrigada pelo “papa fina”. Um abraço, Marilange.

  3. Teresinha B. Besen says:

    Você tem um percepção incrível! Teu texto consegue registrar o momento de forma que o leitor visualize a situação. Oferece um ponto de vista de observador e de participante.
    Parabéns!

  4. Natasha Bramorski says:

    O texto me remeteu às conversas com minha bisavó que confirma o fato do Senhor não querer sair da ilha, entre outras coisas pitorescas de nossa cidade e festejos.

    Quanto a reforma da Catedral, eu tenho restrições que não cabem aqui. Porém nos dias de (re)aberura e festejo do Nosso Senhor dos Passos, pude perceber um retorno as grandes missas da cidade – o encontro de pessoas variadas, e expressões de crença.

    Se essa é a ilha da magia, que assim seja.

  5. Silvia says:

    Lange,
    Que ‘sacada’ incrível associar a bendita teimosia da imagem de Jesus com a do fiel vestido todo de branco, num evento em que o roxo predomina.

  6. Lidiane says:

    Olá Lange,
    Como é bom ler um texto que nos leva junto… parabéns pelo texto leve e rico pela essência histórica e poética.

  7. Margit says:

    Marilange
    Muito bom encontrar uma pessoa que escreve com um olhar especial de acontecimentos “especiais” desta cidade de magia.Parabéns.

  8. Angela Maria de Souza says:

    Parabéns, excelente cronica, também consegui ouvir as batitas do copo de vidro. Maravilhoso. Beijoca Angela

  9. Maria do Carmo says:

    Cara Marilange.
    Me emocionei quando li sua experiência vivida ontem na procissão. Me senti uma fraca diante de tudo isso. Eu,uma católica, lider de comunidade,participante de Pastoral..nem a missa fui este final de semana. De uns tempos para cá,estou assim.Motivação zero.Minha neta foi cantar no coral e nem assim me motivei a ir.Que o Bom Jesus dos Passos me faça através desta lição,eu ser uma cristã bem mais fervorosa.
    Parabéns

  10. Mariana says:

    Parabéns Lange, muito legal o texto!
    Adoro descobrir as histórias da Ilha. Continue escrevendo!

  11. Graziela says:

    Que riqueza de detalhes! Parece que eu estava lá acompanhando. Parabéns pelo texto!

  12. Norma Bruno says:

    É comovente assistir uma cena forte como esta, o que aliás, é comum nesta procissão. A fé deste homem expressa a afeição que o povo da Cidade tem pelo Senhor Jesus dos Passos. Sem dúvida, a narrativa de que Ele escolheu ficar na Cidade criou um vínculo profundo com o povo da Ilha e arredores; uma ligação que vai muito além das instituições. O Senhor dos Passos é um amigo querido, é “de casa”. No episódio do incêndio do Caridade todos sofremos com a possibilidade de perder a sua imagem.

  13. Lange says:

    Olá pessoal, obrigada pelos comentários, assim vocês me acostumam mal. Eu espero poder catar no cotidiano outras experiências tão valiosas quanto esta pra dividir com vocês.
    Do Carmo, que história é esta de motivação zero? A questão não é por ser católica ou não, penso, mas por serem experiências e culturas humanas que merecem ser divididas. Divida as suas com a gente, deves ter muita coisa pra contar.
    Silvia, quanto a teimosia de Jesus, acho que me inspiro um pouco nele, hihihi. Um grande abraço à todos. Vamos continuar conversando.
    Lange

  14. ALTAIR FERNANDES says:

    REALMENTE ESTA CENA É REAL.
    FUI PEGAR A MINHA ESPOSA NO FINAL DO CORTEJO, LÁ PELA MEIA NOITE E ELA ME CONTOU ESTA GRANDE ESTÓRIA, E POR ISSO EU DOU FÉ NA QUE FOI RELATADO PELA REPORTER Marilange Nonnenmacher, PARABÉNS.
    ISTO É UM CASO DE FÉ.
    OBRIGADO PELA REPORTAGEM DE FÉ.

  15. Marcelo Galvão says:

    Desde o primeiro dia que te conheci sabia que eras diferente e muito especial. Vou te recitar pequeno oriki

    Mulher que tem os olhos nas águas e que nos faz enxergar longe construindo imagens com palavras

    beijo grande

  16. Henrique Ortiga Filho says:

    Que lindo, Lange. Lindo e emocionante. Meu avô paterno morreu de forma fulminante durante uma edição da procissão. Era devoto ferrenho e fazia parte da Irmandade do Senhor dos Passos. Morreu na subida do Hospital de Caridade. Domingo liguei para o meu pai por volta de 16h para lembrar que naquele momento a procissão estava partindo em direção à capela. Ele foi criado no casario da rua Menino Deus, entrada para o Hospital de Caridade, proximo de onde meu vô tombou morto. Esse ano não pode ir pois teve um avc (derrame) em julho passado, ainda tem alguma limitação de movimentos mas está bem.
    Isso que falei sobre avisar (lembrar alguém, parentes, vizinhos, etc, mesmo não estando na procissão) em respeito, também faz parte da cultura da cidade envolvendo tudo isso. Na hora da procissão pelo cantos da cidade é muito comum se ouvir “olha, está na hora da procissão!” Nesse momento – pelo menos antigamente – não sa fazia barulho, tudo se acalmava em volta, enfim.
    Não sou frequentador de igrejas ou templos de qualquer doutrina. Respeito a todos e a fé de cada um. Mas é impossível negar a identificação do Senhor Jesus dos Passos com a cidade e a comunidade de Florianópolis. Domingo, em casa, por volta das 16h, momento da procissão, fiquei pensando como seria hoje a cidade se o navio tivesse conseguido partir com a imagem. Parabens pelo texto. Lindo e emocionante.
    Kiko

  17. Paulo R Witoslawski says:

    Parabéns Lange, a Crônica está perfeita, realmente toca fundo no coração, principalmente de quem teve a portunidade de acompanhar a procissão e sentir o que você relata com muita propriedade. Obrigado por compartilhar. Abração

  18. Lu says:

    Nossa! Arrepiei, me deu uma vontade de tocar no pé teimoso de Jesus para reacender em mim velhas teimosias e olha que sou atéia. É isso que teu texto fez comigo me cutucou as entranhas da “alma”.

    Beijos

  19. Tereza Santos da Silva says:

    Li com muito interesse a crônica “Eu toquei o pé direito de Jesus” e confesso que fiquei emocionada em (re)conhecer uma historiadora aparentemente tão refratária, tomada pela fé e espantanto diante da atitude de muitos devotos durante a fervorosa procissão do Senhor dos Passos.

    Lange, ao mesmo tempo que tenta espiar o exterior a sua volta, ao memos tempo que volta-se para dentro de de si mesma. E num gesto de desvelado amor cristão, beija os pés do Senhor. Ao mesmo tempo, tenta mesclar lhe vem à mente os seus conhecimentos históricos internalizados desde sua infância que se misturam aos fatos concretos que se repetem há séculos, considerando-se parte desse conjunto de creça, tradição e fé.

    E como se isso não bastasse, acompanha consternada até o fim uma isolada manifestação dessa fé levada a termo no silencioso mistério que é gerado quando os demais devotos, saciados de consolação, já havia feito sua catarse e se evadiram da Praça da Sé.

    Lange, todavia, aparentemente em transe, misto de curiosidade que serve de ilustração à sua pesquisa e também devoção extrema, considera a chegada do útimo fiel, em cumprimento do seu ex-voto: chegar ao altar do sacrifício onde Cristo é eternamente imolado.

    E como que acordasse de um devaneio, registra para a posteridade cristã o que vai na alma de pessoas de Deus!

  20. Graziela says:

    Que riqueza de detalhes! Lendo, senti como se eu estivesse lá!
    Parabéns pelo texto!

  21. Graziela says:

    Que riqueza de detalhes! Lendo, parece que eu estava lá.
    Parabéns pelo texto!

  22. Lange says:

    Caro Altair, a vida tem suas interseções, que maravilha! Estou muito satisfeita em ter dividido parte desta experiência contigo. Obrigada por participar, voltaremos a conversar! Um abraço!

  23. Roberto Oliveira do Prado says:

    Boa tarde Marilange!

    Acredito que o ponto forte do texto seja o didaticismo. Ele mescla os pontos básicos que aprendemos no colégio (ou que deveríamos ter aprendido) sobre o assunto, ao mesmo tempo que combina a experiência pessoal.

    É uma narrativa que pode ser tratada no Ensino Fundamental e Médio, complementando a aula de História, ou mesmo desenvolvida no ambiente acadêmico, pois convida à discussão e reflexão.

  24. Lange says:

    Lange para Marcelo
    Tão longe e tão perto. Deixa eu aproveitar para contar para os nossos leitores que você é natural e mora atualmente Natal/RN, mas foi morador daqui durante uma boa temporada. Pelo jeito acompanhas de perto as coisas da terrinha de cá, obrigada!

  25. Carlos Alberto Pereira says:

    Lange, já escutei coisas e fatos ocorridos na procissão do senhor dos passos,mas após ler a sua fiquei totalmente impressionado com tanta clareza e firmeza que a fé existe e daí vem aquele velho ditado: A fé remove montanhas.
    Digo esse ditado pois após analisar seu comentário deu para perceber que é veridico esse ditado, como voce frisou eram passados m,ais de 23:50 e a igreja da Catedral estava com as ´portas fechando e o vigia deixou que o pagador de promessas entrasse e deixasse sua vela e seu amor pelo senhor dos passos ali junto ao altar.,existe coisa maior do que esta que voce narraou?
    Beijos e abraços carinhosos.
    Carlos

  26. Lange says:

    Para Henrique:
    emocionante foi o seu depoimento. As portas que acabamos por abrir ao escrever sobre os acontecimentos da cidade são singulares e inusitadas. Obrigada. Continue conosco na Caros Ouvintes, um abraço! Lange

  27. Lange says:

    Cara Tereza:
    me deixas comovida com teu parecer. Mas saliento algo que pinçaste na tua tão bela interpretação: tens razão,também acho que há uma certa necessidade de um tipo de transe para capturar alguns eventos do urbano. Continue conosco! Obrigada! Lange

  28. Lange says:

    Caro Roberto,
    mesclar ou vincular temáticas cotidianas ao nosso saldo histórico é construtivo, principalmente, creio eu, no que tange ao ensino, ou seja, fazercom que o estudante sinta-se sujeito histórico e responsável. Continuaremos a conversa…abraços
    Lange

  29. Carlos Alberto Pereira says:

    Adorei a maneira de como voce colocou o que significa ter fé, tem um ditado que diz: A fé remove montanhas e quem tem fé vai longe.
    A maneira que colocaste ref. ao pagdor de promessas diz muito arespeito deste assunto, pois veja como ele tinha tanta fé que o vigilante da Catedral Metropolitana deixou-o entrar apesar das horas tardias da noite.
    Só assim podemos perceber como retrataste este pagador de promessas.
    Fé,amor e esperança são essas palavras que faltam ao nosso mundo para que pessoas comuns pensem antes de agir e deem um sorriso a qualquer um pois este pode ser o seu melhor amigo amanhã.
    Abraços e nunca li nada tão sincero e retratante como este seu.
    Beijos e abraços carinhosos.

  30. lair says:

    Lange
    Que maravilha mergulhar nessa leitura e sentir a historia se revelando, a infancia voltando e o sentimento da fé, aparentemente, extrapolando os limites do inusitado. Mesmo não acompanhando esse momento único que Fpolis vive, me senti no cortejo, no passo e fiquei a observar o pagador de promessas na tentativa de desvendar o mistério. Que lindeza Lange, como dizia Freire. Continues a brilhar nessa passarela viu. Parabens menina linda.
    com carinho
    Lair

  31. Lange says:

    Obrigada Lair! Ficarei esperando sua opinião em caminhos do vento! Um abraço
    Lange

  32. davi says:

    muito bom sua materia acompanhei sua determinaçao em concluir essa linda mensagem,sou funcionario da catedral.td bom para vc…ps davi

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