Excesso de música norte-americana na rádio FM em Florianópolis

Nossa Rádio FM (temos 12 emissoras em Florianópolis) está com uma overdose de música norte-americana.

Nada de xenofobia, principalmente em tempos de globalização. Mas, num país reconhecidamente musical como é o nosso, é estranho que as rádios FM privilegiem a música norte-americana nessa proporção em detrimento da nossa.

[ Por Chico Socorro ]

Mário Lago, como já abordamos, foi um dos mais profícuos compositores de música brasileira – compôs 105 músicas. Se ele tivesse composto apenas a antológica Amélia, já estaria consagrado.

Mas, o artigo de hoje nos remete a 1971, um dos piores anos da Ditadura Militar – Governo Médici – aquele que também, ironicamente, amava o rádio de paixão (levava para o estádio seu radinho de pilha para assistir o futebol).  E também nos faz recordar uma das figuras mais controvertidas da história da televisão brasileira, o apresentador Flávio Cavalcanti. Flavio iniciou, em 1971, uma campanha contra a música estrangeira. Mário foi entrevistado e colocou a sua posição a respeito do assunto. Convém lembrar que Mario Lago foi um militante histórico do Partidão (Partido Comunista Brasileiro).

Mas, vamos deixar a palavra com o próprio Mário:

“Mostrei [na entrevista] que o processo de aculturação vem vindo desde o descobrimento do Brasil através da catequese. O índio tinha a sua língua, seus deuses, seus folguedos, suas superstições. Aos poucos, vencida a resistência inicial e até mesmo por uma questão de sobrevivência, começou a falar a língua do colonizador, a acreditar num deus que não era Tupã. Trocou suas pajelanças pela ladainha e o sinal da cruz. A partir daí, o caminho estava aberto a tudo que viesse das estranjas. Os que foram jovens no meu tempo cresciam sob a influência francesa, era de bom-tom falar a língua de Racine, embora os mundos bancário e empresarial estivessem presos aos bancos ingleses. Depois do golpe de 1930, mudamos de banco e a cultura americana fez daqui o seu quintal…”

Nessa altura, Mário toca num ponto em que, em pleno século 21, com o deus Mercado pontificando sob um governo pretensamente de esquerda, ainda é um tema polêmico: garantir espaços mais generosos para as nossas manifestações artísticas, dentre elas, a musica.

Dizia Mário:

“Recordei [no programa Flávio Cavalcanti] a resposta do Israel Souto do famigerado DIP [Departamento de Imprensa e Propaganda] a um grupo de compositores que reivindicava ser levada à prática uma postura municipal de 1929, de autoria do então vereador Amaral Peixoto, tornando obrigatória a execução de dois terços de repertório brasileiro [negrito nosso] em qual qualquer programação musical  [radiofônica]: ”Se eu fizesse isto que os senhores estão pretendendo, poderia provocar até um incidente diplomático entre o Brasil e Estados Unidos. A música é um instrumento de penetração, interessa enormemente ao Departamento de Estado. Talvez até ao Pentágono””.

E para que o desfecho da história de hoje não fique incompleto, é preciso contar o que aconteceu com a tal entrevista do Mário na ex – TV Tupi, no programa do Flávio Cavalcanti. Voltamos ao relato do Mário:

“Sentei-me diante da televisão para assistir ao programa, a família toda em volta para ouvir a palavra sempre sensata do pajé. Só que a entrevista não foi ao ar”.

“No dia seguinte, procurei o Flávio para saber o que tinha acontecido. Ele me contou, muito contrafeito e depois de pagar o cachê acertado, que o censor estava na suíte durante a gravação e conversou com ele depois que eu fui embora“:

– Olha  Flávio, para ser franco eu não entendi muito bem o que o Mário Lago quis dizer com aquele falatório todo…

Aquela história de bancos… Mas se foi ele que falou, só pede ser coisa de subversão. Disfarçada, mas subversão. Esse pessoal da esquerda é fogo, seu Flávio, sempre que pode mete uma colherzinha para dar o recado do partido. Por via das dúvidas, a entrevista não sai”.

Fica aqui o recado para as FM locais: programem mais música brasileira. O ouvinte agradece.

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