Exercício de desburritização

Eu sei, leitor, o termo “desburritização” não existe e nem precisaria existir. Por que mais um jargão se os atuais já nos causam tanto dissabor? Essa palavra veio de um crítico mordaz das políticas públicas e se refere à burrice institucionalizada, a do “mesmismo”, a do modismo, a das ondas. Não sei exatamente desde que ano o sonho de consumo de muita gente passou a ser o carro próprio. Em algum momento depois do boom urbano os automóveis vieram antes da casa própria para milhões de brasileiros. A população rural que era maioria esmagadora, reduziu-se a míseros 20%. As ruas das pacatas cidades, como tantas fundadas antes da Era do Motor, foram abertas para pedestres, cavaleiros e carroceiros. Pior, as antigas cidades serviram de modelo às novas, isto é, modestas, traçadas para o tráfego das mesmas carroças, charretes e raros automóveis, quase nenhum caminhão e, em algumas delas, bondes, primeiro puxados por cavalos, depois por eletricidade.

Mas, o bonde, que seria o precursor do metrô, na maioria das cidades foi fulminado, dando lugar aos ônibus.

Mas, os ônibus que deveriam ser o quase exclusivo meio de transporte de massas, foi desclassificado, passou a ser transporte de pobre. E como pobre não reclama, mete 150 pessoas dentro da lata velha onde cabem 50.

Para viajar de pé, no calor do verão ou no frio do inverno, gastar mais 200 reais por mês em passagens ou comprar um carro em 50, 60 ou mais parcelas de 300 reais, a população foi levada a eleger o automóvel como sonho de consumo e mobilidade.

Aos administradores públicos ficava o prêmio de receber os impostos crescentes da crescente venda de carros e não raro as polpudas propinas vindas para suas campanhas desde o caixa dois, três ou quatro das empresas concessionárias, que nunca dizem quanto ganham e nem precisam dizer, pois não dão recibo e nem emitem nota fiscal.

Para complicar, o novo sonho de consumo de uma classe um pouco melhor situada no ranking da riqueza, passou a ser os carrões, as caminhonetas… Onde cabia dois, agora cabe um. Onde trafegavam 200, agora trafegam 150.

Haja viaduto, duplicação, disciplinamento. Nada resolve.

Haja ruas para absorver tudo!

Sem falar que o boom urbano trouxe a necessidade de mais ônibus, mais abastecimento e agora os caminhões enormes (bebidas, gás, entregas outras, etc.) passaram a andar e a parar nas estreitas ruas abertas e sempre nos horários de maior exigência para a circulação dos demais veículos. Está assim, não está?!!!

Aí, o crítico mordaz das políticas públicas pergunta: quanta coisa em termos de transporte coletivo poderíamos ter, se parte do dinheiro investido em automóveis fosse investido em metrôs, ônibus, barcos e outros meios?

Argumenta ele: será que com o dinheiro de 20 automóveis não se compra um ônibus?

Cada ônibus leva 60 passaeiros? Com esse remanejamento de investimentos triplicar-se-ia o número de ônibus. Nos espaços hoje ocupados por 60 automóveis, haveria apenas 3 ônibus a mais.

Mas, o crítico também adverte: o modelo empresarial não poderia ser este em que o poder público privatiza e entrega o lucro ao concessionário do transporte. Poderia privatizar, mas através de cooperativas de transporte coletivo, em que investidor e usuário seja a mesma pessoa: isso mesmo, o usuário.

Será que os “intilegentes” do planejamento urbano têm alcance para tanto?

Nós gostaríamos muito que tivessem.

Homero Franco – jornalista aposentado

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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