Experimente não aplaudir

Quantas vezes os amigos leitores e leitoras já assistiram um programa de TV onde um artista ou qualquer outra pessoa influente diz uma bobagem qualquer e as pessoas simplesmente aplaudem? Eu já vi muitas vezes; é constrangedor. Mas há algo pior do que o constrangimento. A teoria do espiral do silêncio explica muito sobre essa lamentável situação.

A cientista política alemã, Elisabeth Noelle-Neumann elaborou a Teoria do Espiral do Silêncio em 1977 e foi publicada em 1982. Essa teoria faz e deve fazer parte dos estudos de todos os comunicadores e também da sociedade tamanha sua relevância.

A grande mídia, a mídia de massa, possui um poder que passa despercebido por muitas pessoas. Ela tem o poder de influenciar, “moldar pensamentos”, ditar regras, nomear o certo e o errado. Quem é o melhor jogador de futebol? Qual o pensamento religioso mais adequado? Como perceber o casamento? Qual o candidato mais apropriado e o mais impróprio para as próximas eleições? Até que ponto se deve discutir questões sexuais?

E se alguém duvida que a grande mídia tenha esse poder ou se considere imune a ele é provável que já esteja tão influenciado que não aceite essa teoria ou talvez esteja mentalmente cegado por ele.

Elisabeth Noelle-Neumann apresentou há quase 4 décadas o poder da mídia de massa não só em influenciar as atitudes e escolhas, pior que isso, ela tem o poder de calar, de silenciar os que pensam diferente. A teoria do espiral do silêncio envolveu estudos e pesquisas e mostrou um lado lamentável que nos atinge; o medo do isolamento social. E como isso acontece?

Fiquei imaginando maneiras de entendermos isso de forma prática. Por exemplo, imagine que numa sociedade de 1000 pessoas pesquisas de opinião pública indicassem que 50 pessoas não considerem o casamento como instituição importante a ser preservada. Portanto, se entenderia que 950 pessoas ainda consideram o casamento importante; aí entra todo um “trabalho” por meio do jornalismo, do entretenimento e propagandas que apontariam exatamente o contrário. Ou seja, a minoria passa a parecer maioria e a maioria passa por minoria; então entra o medo e o pavor do isolamento social. Como? A maioria se entendendo por minoria passa a mudar seu pensamento e opiniões; mesmo consciente de que não concorda com um certo ponto de vista passa a apoiá-lo com medo do isolamento social; ser o diferente, o careta, o ultrapassado, o quadrado, o moralista. Elisabeth Noelle-Neumann chama os que têm a coragem de pensar e expor seu real ponto de vista de – duros de espírito. “Duros de espírito” por terem a – ousadia – de dizer o que e o porquê pensam de tal forma e ainda defendem seu ponto de vista com bases sólidas.

Imagine uma pessoa que tem um ponto de vista formado sobre certo assunto. Mesmo que pense diferente ela tem o direito constitucional de livre pensamento e de expressão; obviamente expondo com respeito seu ponto de vista, inclusive se identificando. Aí entra – a teoria do espiral do silêncio – silenciar quem pensa diferente do que a mídia de massa tem interesse de divulgar.

Vale aqui lembrar de algumas frases e pensamentos. Primeiro, do Faustão. Há muitos anos assisti a um programa dele onde o apresentador disse uma linda frase; foi essa: “Sabem aquele ditado que diz que a voz do povo é a voz de Deus; esse é o ditado mais imbecil que existe”. Por essa frase defendo o Faustão; pelo menos uma frase dele merece entrar para a história.

Uma reflexão do filósofo político brasileiro, Renato Janine Ribeiro, em seu livro – O afeto autoritário: televisão, ética e democracia. Janine Ribeiro diz que a televisão oferece a pauta para muitas pessoas no Brasil. O filósofo diz que basta ouvir as conversas das pessoas na segunda-feira para saber o que foi ao ar nos principais programas dominicais. O autor diz ainda: “Se você não viu nenhum, é bem possível que não tenha nada para dizer”. Incrivelmente lamentável; a televisão, os “maravilhosos” programas de domingo, fornecem a pauta das conversas da sociedade. O resultado está à nossa volta.

Algo escrito há uns 3 mil anos é igualmente importante: “A pessoa ingênua acredita em qualquer palavra, mas quem é prudente pensa bem antes de cada passo”. Bíblia. Provérbios 14:15.

Elisabeth Noelle-Neumann já faleceu, mas sua contribuição para o nosso crescimento intelectual está a disposição dos que ela chamou de – “duros de espírito” e daqueles que ainda temem o – isolamento social. Vale lembrar que esse grupo não fala, não age e não impõe com ignorância seus pontos de vista, apenas leem, estudam, pesquisam e são corajosos; não têm medo de pensarem diferente da maioria.

A lista é vasta: casamento, o modo como educamos nossos filhos, candidatos a cargos políticos, o que é ser honesto, diversidade religiosa, aborto, pedofilia, lealdade e etc; havia dito que a lista é vasta. E quantas vezes já ouvimos a frase: “Deveria voltar a ditadura militar, naquele tempo sim, não havia tanto roubo”. E quantos dos que dizem isso já pararam para estudar o que e porque do golpe militar em 1º de abril de 1964? Quem para e estuda o que foi o AI-5 em 1968? Muitas pessoas falam muitas coisas, mas é aproveitável?

Ler e estudar é quase como comer; alguns apenas comem para se alimentar, para se manterem vivos, outros procuram sentir o sabor e fortalecer a saúde. Ah, sentir o sabor e saber que o “alimento é nutritivo”, nos fará mais fortes, mais imunes a muitos males. Assim é o “alimento da alma”; a leitura aprofundada, os estudos; não simplesmente o que “deu no jornal”. Já é mais que passado o momento de crescer, de não aplaudir a qualquer bobagem só porque foi “fulano” quem falou.

Se a voz do povo não é a voz de Deus ( e graças a Deus que não), se o ingênuo acredita em qualquer palavra a suposta minoria simplesmente prefere não discordar; quero estar entre os “duros de espírito”; os que têm a coragem de defender o que realmente acreditam.

Por que crianças fazem delicados papéis em novelas onde há violência e imoralidade, mas não podem trabalhar com os pais?

Por que as diferenças salariais não são discutidas nas novelas? Por exemplo, empresários e seus empregados. A quem essa discussão não interessa?

O jornalismo sério e comprometido com a verdade nos ajuda a entender coisas que acontecem perto e longe dos nossos olhos. Nos levam a buscar formar uma opinião; o que não podemos é crer só porque “deu na TV”. Em algumas empresas de comunicação os jornalistas têm vetado seu direito de cidadão e comunicador; apenas reproduzem o que povo deve ouvir.

Experimente aplaudir aqueles que defendem ou criticam com alguma base sólida; mesmo que sejas o único a aplaudir.

 

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