Falar em rádio é.… conviver com a imperfeição

Como todo o bom título o que você acaba de ler é também um pouco maroto. Isto é, não chega a ser pegadinha, mas também se diz “indivíduo de espírito inventivo, cheio de manhas e espertezas; ladino, vivo, malandro”. Quer dizer, tudo o que eu não sou, mas bem que até gostaria de ser desde – é claro – que isso não trouxesse prejuízo a ninguém.

O que também é praticamente impossível, pois que nada é perfeito. Chegado a este limite é prudente que se estabeleça o oposto do declarado: tudo é imperfeito, desde que criado ou produzido pelo homem, que por si também é imperfeito, embora seja uma parte do Criador – que é perfeito – e que por isso atribui ao homem a condição de “aperfeiçoar” o que no Universo está imperfeito.

– Quer dizer, então…

– Quer dizer que hoje eu vou contar uma do PARAÍSO DO PECADO.

Estamos no no início da década de 1960. Nessa época quem falasse em Vila Palmira, em Florianópolis e região, não significava apenas se referir a um bairro qualquer. Tratava-se, na realidade, da mais famosa zona de alto e médio” meretrício da parte continental da cidade.

Nas proximidades daquele “Paraíso do Pecado” ficava a sede da Rádio Jornal A Verdade, fundada originalmente pelo jornalista e empresário Manoel de Menezes.

O Alfredo Gentil Costa – hoje professor aposentado e tradutor de inglês – num determinado momento da sua vida foi “disc-jockey frila” daquela emissora. Para ser mais preciso, o fato que aqui se narra ocorreu em junho de 1972. A emissora era dirigida pelo Padre Quinto David Baldessar, pároco da comunidade católica do Estreito e capitão-capelão do Exército e que, por isso, nem sempre se encontrava na Rádio.

O Alfredo trabalhava de graça, porque o programa não tinha patrocinador, e levava seus próprios discos. Além disso, por morar no centro, ia com o próprio carro, já que os estúdios da emissora estavam localizados junto ao transmissor, mais precisamente no bairro de Barreiros, na região continental de Florianópolis.

Ele chegou à Rádio por volta das 19 horas. O inverno rigoroso estava ainda mais frio, com a chuva forte que caía naquela noite de junho. O vigia das instalações da emissora ficava protegido no beiral da velha casa do transmissor, que também abrigava o estúdio, onde, nos finais de semana, só permanecia o técnico de som.

Do portão, Alfredo vê o vigia e logo pergunta interessado:

– Oi, amigo, cadê o operador de som?

O guardo descuidado e solícito, responde:

– Ele deu uma saidinha, foi até ali na Vila Palmira Vila Palmira fazer um “instante” Pediu
“pra” ninguém contar “p’ro” Padre Quinto…

Enquanto isso, os caros ouvintes da Rádio A Verdade curtiam uma programação pré-gravada em fita de rolo, com uma hora de duração…

E para terminar a presente, agradecendo sua atenção, segue à baixo mais um dos deliciosos Quinhentinos do jornalista, publicitário e professor José Predebon.

– Bom proveito.

CONVIVER COM A IMPERFEIÇÃO. É sábio e necessário. É como aceitar a normalidade da alternância entre o dia e a noite, o feio e o bonito. Já que a perfeição está no livro dos impossíveis, vamos ficar com opúsculos humanos. E assim não mais seremos espicaçados pelos acontecimentos diários desta realidade que além de parecer repetitiva, sempre nos diz estarmos rolando montanha abaixo – caramba, cadê o sopé? Conviver é sinônimo de conciliar-se, adquirir serenidade no olhar e, de quebra, colocar um leve sorriso na alma, debaixo da placa de rua que a identifica: “Avenida É Assim Mesmo”. Convivamos. (José Predebom / São Paulo 170618)

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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