Falas

Fazia tempo que o Tonho não aparecia na barbearia do Otávio. Antônio, ou Tonho, como é conhecido por muita gente é um rapaz trabalhador; na casa dos 40 anos é um pedreiro mais requisitado por sua honestidade e esforço do que por ser um grande profissional.

A turma da barbearia do Otávio respeita o Tonho, mas é quase inevitável não rir do seu vocabulário particular, aliás, ele não é o único.

Num sábado o Tonho chegou à barbearia com vários arranhões e a bicicleta torta. O barbeiro e os demais amigos o cumprimentaram e perguntaram o que havia acontecido. Tonho respondeu:

– Bom dia, pessoal. Então, eu não vinha num pau danado com a minha bicicleta, não escorreguei na areia ali na frente, não perdi o controle, não cai e não me ralei todo!

Juvenal resolveu fazer graça com o comentário do Tonho e disse:

– Que bom, Tonho. Que bom que tu não não vinhas num pau danado, não escorregou na areia ali na frente, não perdeu o controle, não caiu e nem se ralou todo!

Tonho, confuso com o comentário de Juvenal, tentou explicar:

– Pois então, Juvenal. Foi exatamente como tu falou, só que ao contrário.

O barbeiro perguntou pelo tio do Tonho, o Augusto, um ótimo carpinteiro. Tonho com certa tristeza, comentou:

– Tu nem sabe meu amigo. O tio Augusto já vinha reclamando de dor no estômago e andava cansado. Teve uma sexta-feira à noite que pediu para a tia Maria fazer um chá. Pois o tio tomou o chá e foi dormir. No dia seguinte ele acordou morto.

O seo Victor não conseguiu segurar e perguntou:

– Tonho, como acontece isso? A pessoa acorda e só então vê que está morta? É assim?

– Não senhor, não. A pessoa já acorda morta. A tia Maria é que viu ele morto logo cedo.

O barbeiro pergunta como estão os pais do Tonho e ele responde:

– Estão velhos e cansados, mas pior é que estão bem.

Tonho pergunta ao Juvenal:

– O Juvenal, como está a vaca da tua mulher, melhorou?

– Ah, melhorou sim, Tonho. Obrigado por perguntar. Minha mulher se apegou muito àquela vaca. Tuas dicas sobre como eliminar os carrapatos foram boas, obrigado!

– Mas lembra o que eu te falei, Juvenal? Tem que dar remédio pra carrapato.

Felisberto não se conteve e falou:

– Que nada, Tonho. Remédio, não. Tem que dar é veneno.

– Mas aí tu mata a vaquinha da mulher do Juvenal, tadinha.

O radialista Antunes Carriel, com pena do Tonho, pelo tombo e pela zombaria da turma; zombaria, aliás que ele nem se dava conta; ofereceu-lhe uma carona. Carriel perguntou:

– Tonho, queres uma carona? Posso colocar sua bicicleta no porta malas e te deixar em casa. Me diz onde tu moras.

– O seu Carriel, muito obrigado. Vou aceitar a sua oferta. Vou dizer onde fica minha casa. Não tem o posto de saúde? Não abriu um supermercado na quadra da frente? Não fechou um posto de gasolina ali perto? Sabe uma casa bem bonita de dois pisos e com piscina? Então, eu moro naquela casinha de madeira bem ao lado.

Antunes Carriel e Tonho colocam a bicicleta no porta malas do carro e saem. Assim que chegam na frente da casa, Tonho, muito grato ao amigo radialista, o convida para um churrasco. A esposa do Tonho, Lúcia, chega à porta do carro e depois de cumprimentar Carriel pergunta ao marido:

– O Tonho, o que aconteceu? Tu ando caindo, não foi?

– Que nada, Lúcia. Cai foi andando mesmo de bicicleta.

Lúcia reforça o convite do marido:

– O seo Carriel, o senhor não quer entrar? Não quer tomar uma cerveja? Não quer comer um churrasquinho?

– Muito obrigado, vocês são muito gentis, mas tenho que voltar à rádio em uma hora.

– O seo Carriel, nem sei como agradecer o senhor. Ah, deixe eu apresentar o meu filho, o Sérgio. Sérgio, vem aqui, filho! Meu filho, esse é o radialista que o pai e a mãe sempre escutam, seo Antunes Carriel. Fala com ele, rapaz.

– Boa tarde, seo Carriel! Vim agora da casa do Marcelo. O pai nem sabe. Cheguei em casa pra rangar, a mãe disse que velha do Marcelo tinha batido as botas; fiquei de cara. A coroa era forte, deu um troço nela, parece que um derrame cerebral na cabeça, sei lá, uma coisa assim. Deu altas pena do Marcelo e da coroa dele.

Antunes Carriel, com discrição, diz a Sérgio:

– Deve ter sido um AVC. Quero dizer, pode ter sido um acidente vascular cerebral.

– Não foi isso, não. Não foi acidente, foi doença mesmo.

Antunes Carriel explica que precisa voltar à rádio para gravar o programa de domingo. Se despedem e ele dirige pensando sobre como as pessoas se comunicam de maneiras diferentes e ainda assim se fazem entender. Carriel fala em voz baixa em seu carro: “Mas é tão estranho”.

O filho do Tonho diz aos pais:

– Essa gente do rádio até fala bonito, mas que é estranho, é.

Tonho balança a cabeça concordando com o filho e acrescenta:

– Pior que é filho. A turma da barbearia também fala de um jeito estranho, mas até que dá pra entender.

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