Falso amanhecer

L.J.Sardá

Amanhecer em Florianópolis. Foto Guto Kuerten

Não há dúvida de que a colocação de a melhor capital para se viver no Brasil destaca mais uma vez a nossa Florianópolis. Contudo, é preciso analisar bem a pesquisa que apresenta o Índice de Desenvolvimento Humano. Na questão da longevidade, a nossa cidade ficou em centésimo quadragésimo sétimo lugar, ou seja, fora das 11 cidades catarinenses que lideram o ranking nacional. Qual seria a causa? É difícil de analisar isso, mas podemos dizer que a Ilha hoje é uma cidade de stress urbano e tem sido incapaz de criar uma simbiose com o mar, justamente o oceano que ainda pode proporcionar aos florianopolitanos uma vida amena, saborosa. Parece incrível, mas temos de acreditar que nossos governantes não gostam do mar, exceto Hercílio Luz, que foi impedido de construir uma avenida contornando a Ilha, na segunda década do século XX. Mas vejam: o acesso às praias foi viabilizado somente a partir do final dos anos 70; um centro de convenção e o sambódromo ganharam viabilidade técnica com paredões escondendo o mar; deixaram construir um pinicão na cabeceira da ponte para tratar o esgoto que continua contaminando o mar em mais de 60% do cocô produzido na cidade. Nossos balneários estão abandonados, exceto Jurerê Internacional projetado para ser o bairro mais lindo do Sul do Brasil e que, no entanto, como salienta o jornalista Paulo Brito, carece de qualidade técnica; até uma simples descarga nos banheiros de belas mansões acorda a vizinhança.

Florianópolis, como demonstra o IDH, reúne um enorme potencial de crescimento para atingir a nota máxima – 1000 – na pesquisa que a ONU vier a realizar no final desta década. Mas é preciso muita coragem dos governantes, de forma a agir, com determinação e altruísmo, em defesa de reformas radicais, de reestruturação da cidade com a mesma visão de futuro, que tornou muitas cidades europeias em berços do turismo mundial. As cidades mundiais de qualidades se modernizaram numa perfeita combinação com suas histórias e patrimônios. Aqui virou-se as costas para o passando, obliterando histórias e valores.

Precisamos, contudo, acreditar, mesmo diante de tantas irreverências, que impedem soluções fáceis, como a sincronização dos semáforos, a construção de calçadas e calçadões, jardins e parques. A cidade precisa de soluções fáceis e não de espigões decorrentes apenas de estratégias de negócios. Que construam prédios, mas de forma a ajudar a cidade a crescer com qualidade de vida.

Vejam o que está acontecendo com Palhoça, cujos governantes exibem slogan para destacar o maior índice de crescimento. E quais foram as colocações dessa cidade nos IDH da educação, longevidade e renda? Muito abaixo de uma farsa imagem de Palhoça, a cidade que mais cresceu no país. Sim, cresceu tanto que a desordem urbana é a sua grande ameaça.

Precisamos parar de comemorar, até porque os políticos adoram bandeiras de bananeira que se desfiam ao vento. Precisamos nos acordar para uma realidade que preocupa, não só Florianópolis, mas todas as cidades da região metropolitana. O falso amanhecer foram as manchetes de jornais de hoje, que não se preocuparam em analisar os resultados do IDH, mas devorar uma pequena fatia da pesquisa, simulando um bolo de receita inédita.

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Por Laudelino José Sardá

Atuou durante 30 anos em jornais, na televisão e no rádio. Foi Assessor de Comunicação da UFSC. Atualmente leciona e dirige a Assessoria de Comunicação e Marketing da UNISUL. É graduado em Letras e Comunicação, Especialista em Jornalismo Científico e Doutor em Engenharia da Produção na área de Gestão da Comunicação nas Organizações.
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