Falsos brilhantes

Querer ser ou se achar líder não credencia ninguém à liderança

Há algo de inato e muito de treinamento e aprimoramento no processo de formação de um líder. Mas nem todos os cursos do mundo serão eficazes se o indivíduo não tiver um mínimo de: competência, bom senso e bom caráter. Na falta deles o poder aglutinador dará lugar ao poder ditatorial, baseado na repetição de frases feitas de PNL; gestuais teatrais e clichês de oratória decorados em “palestras de fim de semana”; gritos, terrorismo psicológico, humilhações públicas e exórdios; abuso da autoridade; transferência das responsabilidades por fracassos para ocultar as próprias limitações; ou uso sistemático da máxima “dividir para governar”, como modelo administrativo.

Já vi e ouvi falar de bons e maus exemplos de liderança. Desses relatos e vivências foi possível identificar várias características dos maus, dentre as quais: falta de caráter e ética, arrogância, agressividade e estupidez, às vezes isoladas, às vezes concomitantes. E, nesses casos: sai de baixo!

Esse tipo de “líder” tende a ser protagonista do que se convencionou chamar de assédio moral, que hoje é considerado crime. Mas ele não é o único responsável por sua performance, afinal, quem o escolhe também é cúmplice (senão, mentor) de seus atos. De fato, é comum encontrar cargos gerenciais ocupados por herança, imposição ou acordo, e não por competência. Os critérios “técnicos” de seleção, nesses casos: amizade, composição política, troca de favores, relações sociais ou familiares, pouco têm a ver com a função a ser desempenhada pelo escolhido. No entanto, nada o impede de ser bem sucedido, se tiver um mínimo de bom senso e humildade. A maioria, no entanto, tende a optar pela vaidade, pela arrogância, em suma, pelas aparências. Mas, por mais que “aparentem”, não passam de falsos brilhantes. Assim, há empresários da “alta-sociedade” que conseguem a cada dez palavras dizer onze palavrões. Há “tratores” que são “bem conceituados” por não terem escrúpulos em passar por cima dos outros, no afã de deixarem seus superiores felizes. Há os que cobram resultados, acham que tudo é simples, e vivem a falar em sistema ISO e exigências do mercado moderno sem conhecerem nada dos processos que gerenciam.
Eles não enganam ninguém (talvez só a si próprios), pois são incapazes de demonstrar seu discurso na prática. Talvez por isso vivam a repetir suas “bem-sucedidas” experiências anteriores (difíceis de comprovar), numa tentativa de gerar admiração ou de imputar sua incompetência aos outros. Mesmo assim, há quem os valorize e conte com suas “qualidades gerenciais”, já que as técnicas são limitadas.

Líderes dessa “estirpe” colocam em situação de risco comunidades, empresas, cidades, estados, países e, até, o mundo! O pior é que eles surgem e prosperam incentivados por nosso comodismo, omissão e até por sufrágio universal, que pode descambar em naufrágio geral, do qual, com certeza, serão os primeiros “ratos” a abandonar o navio, lépidos e prontos para oferecerem sua “experiência” a qualquer outro incauto ou pseudo-esperto.

Esse tipo de líder esquece que obediência pode ser exigida, mas que respeito, lealdade e parceria vêm do merecimento recíproco, em todos os níveis da estrutura social ou empresarial. Mas há os que preferem o modelo tirânico e arrogante de gerenciamento. Talvez prefiram máquinas a seres humanos…
Para estes, um alerta: a automação pode tirar-lhes o prazer de maltratar o semelhante! Também os privará de sorrisos e apertos de mão sinceros.

Esse futuro mecatronizado pode subordinar-lhes robôs infalíveis, sim! Mas aí é que mora o perigo, pois com sua precisão e frieza, as máquinas não temerão dizer-lhes o que eles não admitiam ouvir de gente. No limite, é possível que um sistema digital passe a monitorar seu próprio desempenho como líderes e, findo o relatório gerencial, automaticamente acione um assento ejetor, ou o botão de descarga…

Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa e Comportamento).
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