Fazendo as contas

– Madalena amada, eu andava querendo tanto te encontrar, te dar um abraço. Deixa eu te dar um abraço. Assim. Assim. Ai meu Deus, fiquei tão chateada quando me contaram o que houve. Vocês dois pareciam tão numa boa. Eu vivia dizendo: a Madalena e o Lourival não se desamarram nunca, nunca. Mas duma hora pra outra…
Por Flavio José Cardozo

– Estás falando da nossa separação, Margarida?
– E ia ser do quê? Só ontem é que fiquei sabendo. Encontrei a Maristela no supermercado, ela me perguntou se eu estava sabendo da Madalena e do Lourival. Meu Deus, o que é que houve com aqueles dois amados? Foi uma conversa bem rapidinha, só deu tempo pra ela me dizer que vocês se separaram, o marido estava todo apressado, nunca vi homem mais enjoado do que aquele. Quanto tempo faz, Madalena?
– Fazia 15 dias.
– Fazia?
– Fazia.
– Como fazia? Não vais me dizer que…
– Isso mesmo, a gente se separou, pensou, se juntou de novo.
– Verdade? Isso é lindo! Sempre achei a coisa mais linda do mundo um casal se separar, pensar, se juntar de novo. Um dia sou capaz até de arrumar uma encrenca com o Fred só pra fazer isso também. Deve ser gostoso. Não é gostoso, Madalena?
– Mais ou menos.
– Que mais ou menos! Deve ser gostoso, sim. Mas com vocês foi tudo tão ligeiro! Quem é que não agüentou ficar sem a costelinha do outro nessas noites frias, quem foi? Tu ou ele? Me conta.
– Nós dois.
– Que lindo!
– Nós dois fizemos umas contas e vimos que não dava.
– Que lindo, fizemos umas contas… Pegaram um papel, somaram uma saudade daqui, uma saudade dali, e viram que o coração de um não podia passar sem o coração do outro. Lindo, Madalena.
– É, foi mais ou menos isso.
– Mais ou menos, mais ou menos, que tanto mais ou menos, minha Nossa!
– As contas que fizemos foram contas mesmo. Números. Vimos que os dois corações, nessa crise desgraçada, não podiam se dar ao luxo de ficar separados, um lá , outro aqui, um no apartamento, o outro numa pensão. Era muita despesa pra morar, era muita despesa pro resto. Tu vês, eu ia sempre no carrinho do Lourival pro serviço. Ia junto com ele, brigando, mas ia. De repente, tinha de ir de ônibus. A roupa dele eu lavava, lá teve ele de pagar lavadeira. Comida  não me animei a fazer pra mim sozinha, passei esses 15 dias comprando fora, mais cara. E assim outras coisas. Pensa que é fácil pobre se separar?
– É, acho que não deve ser fácil mesmo.
– A coisa está ruim até pra acabar casamento, minha filha. Nós resolvemos que, enquanto não melhorar, a gente vai levando, vai se suportando. Paciência, paciência…
– Bem que eu vivo dizendo: esses dois amados não se desamarram nunca. Lindo, lindo!
(Do livro Coisas do azul, a publicar)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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