Fazendo o quê?

Geraldo ouvia todos os dias as reclamações da esposa, Glória.

E ela tinha bons motivos para reclamar. Ambos na casa dos 40 anos e a vida financeira apertada de sempre. Com 4 filhos, entre 6 e 12 anos viviam com as contas atrasadas.

Glória gostava do marido. Não era lá aquele amor como tivera pelo menos há 15 anos quando tudo começou. Para muitos é assim; confundem a paixão de juventude com amor.

Agora, passados esses anos e tantas dificuldades, ela, como diarista e o marido nunca em emprego fixo, vivia o incentivando a fazer um seguro de vida.

Glória não queria ver o marido morto; o queria vivo, afinal de contas tinham 4 filhos. Uma das coisas que preocupava a lutadora esposa era o fato de Geraldo sempre adiar o seguro de vida. Ela vivia dizendo ao marido: “Faça um seguro, Geraldo, faça um bom seguro; vai que algo te aconteça. Deus que me livre, mas acontece cada coisa”.

Geraldo não achava má ideia, mas vivia adiando o tal seguro. Pensava com seus botões: “Pra quê?”. Ainda vou viver muito”.

Ele era um homem trabalhador, mas além de viver de bicos gostava muito de tomar umas cachaças no bar do seu Arlindo, principalmente às sextas-feiras. Chegava em casa tarde da noite e o aroma de casa limpa era dominado pelo cheiro da cana.

Certo dia, Geraldo estava trabalhando com dois amigos no alto de prédio no Centro de Florianópolis. Como um bom pintor, estava acostumado a trabalhar no Jaú ou balancim; equipamento pendurado no alto das obras, uma espécie de gaiola e que dá calafrios a quem não está acostumado.

Numa manhã de segunda-feira Geraldo sentiu uma dor de barriga que o fez sair do Jaú e tocar a campainha de um dos apartamentos. Uma simpática senhora, na casa dos 70 anos, o atendeu. Ele pediu para usar seu banheiro; explicou seu constrangimento pelo pedido, mas estava muito apertado. A senhora bondosamente apontou o caminho do banheiro.

Geraldo senta-se e alivia-se. De repente, um forte barulho e gritos. Parecia que algo havia despencado. Mas o quê?

No dia seguinte.

Que terça-feira triste. O jaú onde Geraldo estava trabalhando no dia anterior com os amigos havia despencado do 12° andar, uns 36 metros de altura. Os dois amigos, Flávio e Álvaro haviam morrido. Que enterro triste. E que enterro não é triste apesar das risadas dos amigos que só assim se reencontram?

Geraldo junto à esposa, Glória e dos 4 filhos chorava sem parar. Glória, apesar da tristeza pelas famílias não parava de pensar o que seria dela se o marido estive lá, lá no Jaú, no dia anterior e agora num caixão. Por que não fazer logo o seguro de vida? Indagou ela ao Geraldo mais uma vez ali mesmo, no funeral dos amigos dele.

Depois de uma breve parte religiosa o dono de uma grande empresa de construção civil, comovido com a tragédia, pediu atenção de todos. Ele disse:

– Não sou bom em falar em público, muito menos em situações assim. Mas preciso dizer que lamento muito o que aconteceu. O equipamento de segurança em que os profissionais estavam e usavam era muito simples; foi uma horrível tragédia. Quero que todos prestem atenção ao que vou dizer agora. As viúvas e aos órfãos, por favor, entendam que sei que o que vou dizer não paga as vidas que lhes foram ceifadas, mas, a partir de hoje, além dos direitos legais de suas pensões do governo, eu, pessoalmente, afirmo: Cada família receberá o valor de 5 salários mínimos por mês por toda a sua vida por conta da minha empresa. Cada viúva receberá também uma casa nova ou apartamento, se preferir. Quanto aos seus filhos, já abri uma poupança de 100 mil reais para cada um e uma com o mesmo valor para as duas viúvas. E ainda, está também garantido por documentos que os estudos de seus filhos será por conta da empresa até que se formem na faculdade. Bem, é pouco eu sei, mas é o mínimo que posso fazer. E qualquer outra coisa que lhes faltem, me procurem. Meus sentimentos”.

Enquanto Geraldo ouvia com atenção as palavras do comovido e rico empresário, pensava em como a esposa era grata por ele ainda estar ali ao seu lado; vivo e forte.

Ele é surpreendido por uma cotovelada de Glória que lhe diz em voz baixa e com indignação:

-E tu, hein? Fazendo o que na hora do acidente? Fazendo o que mesmo?

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