Fez que foi, mas não foi

O Valdemar era um cara muito apreciado pelos amigos. Bom companheiro, sempre presente, nos bons e maus momentos. Quando o assunto era morte, os amigos diziam que nem queriam pensar em perdê-lo. Seria perda irreparável, a vida sem Valdemar não seria a mesma, não teria graça. Numa manhã de sábado num bate-papo no bar do João, o Valdemar sentiu-se mal.

Horas depois veio à notícia que ninguém esperava ouvir.

Morto, Valdemar estava morto. Ninguém podia acreditar. Ninguém queria acreditar. No velório os comentários eram esses:

– O Valdemar? O Val não, não pode ser meu Deus.

– Só pode ser um sonho, quero dizer, um pesadelo.

-Não da pra imaginar a vida sem ele. Nunca mais vai ser a mesma coisa. As conversas no bar do João, as ideias dele. Já sei, vamos erguer um monumento em homenagem a ele.

– Boa ideia. Ele merece, só assim vamos sentir ele sempre perto de nós.

Na sala de sua casa, a viúva, os filhos, mais de 30 amigos amontoados. Choro, tristeza, os intermináveis: “Por que o Valdemar, por quê?”.

De repente um dos braços do Valdemar se ergue. Logo o outro braço também. A multidão pasma. Pensam que deve ser algum tipo de reflexo. Quem teria a coragem e a habilidade de baixar os braços do Valdemar? “O pessoal da funerária”, disseram baixinho alguns.

Quando o João, dono do bar se aproximou, o Valdemar sentou no caixão. Mal abriu os olhos e ainda com braços estendidos se espreguiçando viu uma sala vazia. Velas e flores. Achava que estava na cama, sentia-se perdido. Logo percebeu a cena, era um caixão, era seu velório. Nunca havia pensado estar tão lúcido no seu funeral. Ao tentar descer se desequilibrou e deixou tudo cair ao chão, até o caixão. Ele olhou em volta e disse espantado: “coisa horrorosa”. Quando chegou a porta da sala a turma de queridos e já saudosos amigos ainda em espanto correram para fora do quintal. Valdemar saiu da casa. Os amigos correram para todos os lados. Até muletas e bengalas ficaram pelo caminho, como se seu retorno fosse uma cura, que nada, o medo faz coisa. O assunto foi explicado, mal entendido, sério engano ao avaliar seu suposto cadáver.

Nos dias seguintes os amigos olhavam com certa desconfiança. Alguns bem curiosos queriam saber o que ele sentiu. Outros evitavam falar com ele, havia um clima de certo pavor.

Aos curiosos ele contava que sonhava estar num bar, rodeado de amigos. Que era tão amado que haveria até um monumento para ele, só não entendia porque tanta honra. Agora estava claro, muito do que foi dito ele ouviu, um pouco sonhou. Só o que o Valdemar estranhou foi que aquela turma saudosa ao invés de vir ao seu encontro dar um abraço saiu correndo.

O João do bar disse a Valdemar:

– O Valdemar, tu não me leve mal, nós já conversamos e, bem, na próxima vez que tu morrer nós só vamos no teu velório se o caixão estiver fechado. Porque da última vez tu fez que foi e não foi.

Valdemar não falou nada, mas não gostou da ideia. Pensou: “vai que eu tente me espreguiçar de novo”.

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