Flores na esquina

Há flores na esquina da minha rua. Não num jardim banhado pelo sol, acarinhado pela brisa fresca da manhã e regado pela chuva benfazeja. Mas, para quem tem olhos de ver, o quiosque da esquina também é um jardim.

Numa caminhada, chego a esse jardim citadino e meus olhos se enchem da beleza de folhas, pétalas e corolas. Minhas narinas invadidas são pelo perfume de tantas flores juntas.

Porém, com um pouco de atenção, é possível distinguir o odor perfumado de cada espécie. Uns são mais acentuados, impondo sua presença, como num “grito olfativo”. Outros, mais suaves, apostando na sutileza da fragrância.

Também as cores se distinguem. Tonalidades suaves ou cores fortes convivem nessa demonstração de infinita beleza logo ali na esquina.

Muita gente passa. Há pessoas apressadas que nem se dão conta desse banquete de beleza que, se bem saboreado, é capaz de saciar a fome das almas mais sensíveis. Outros chegam a dar uma paradinha na sua pressa para contemplar essas maravilhas que são as flores. E há os que param mesmo, fixam os olhos nas flores e permitem que o olfato os domine e carregue para jardins de sonho – situados sei lá onde.

Dirão alguns mais pragmáticos e críticos que são flores aprisionadas em vasos ou buquês. Flores atreladas numa insensível trama de transação comercial; que foram colhidas, acondicionadas e transportadas apenas para, transformadas em objetos, servirem à venda, ao lucro.

Sou forçado a concordar com essa faceta, que contraria uma gentil, bondosa e emocionante lei da Natureza: oferecer-se, como beleza pela beleza, simplesmente; dar-se como perfume e forma, sem pedir quase nada em troca, apenas condições mínimas para continuar existindo e… oferecendo gratuitamente beleza e odores maravilhosos. Sem falar no quanto isso é fundamental para a saúde mesma e para a vida de modo geral.

Não obstante, tento contentar-me com esse mínimo, que já considero o máximo: flores num quiosque, folhas e flores de árvores em plena poluição, vegetação castigada ou destruída pela insensibilidade ou pela burrice humana, plantas que, mesmo assim, nos encantam e emocionam.

Geralmente, dentre os passantes, são as crianças e os idosos que mais ficam atentos às flores. Dia desses, um bebê em seu carrinho, deixado de lado enquanto a mamãe batia um alegre papo pelo celular, foi colocado bem pertinho das flores no quiosque.

E eu vi, juro que vi, algumas flores refletidas no espelho dos olhos desse rechonchudo bebê. E era uma menininha – deduzi pela roupinha toda cor-de-rosa ornada por babadinhos – cuja pequenina mão tentava tocar uma flor. Adivinhem que flor. Claro: uma rosa.

Nada me garante que a menininha estava em sintonia com as flores, nem que será pessoa poética e sensível, amante de flores, quando crescer. Mas prefiro crer que sim.

Idosos eu os vejo com frequência passando, parando e se sensibilizando. Alguns até se sentam perto e contemplam as flores, como se estivessem rezando no templo maravilhoso da beleza da Vida.

Nos olhos desses idosos também vejo flores refletidas. As flores desenhadas nos vestidos das damas que volteavam nos braços de jovens cavalheiros nos  bailes do passado; as pétalas que se abrigavam, sequinhas, entre páginas de livros, como lembranças de amores verdadeiros; as flores de laranjeira que cingiam frontes de noivas nos casamentos de outrora…

Ah, também perfumes que impregnaram as roupas e lembranças de quem já viveu muito – esperanças, decepções, alegrias, tristezas, fracassos, sucesso – estão presentes na memória olfativa de alguns idosos e idosas que se detêm, estáticos, diante das flores desse quiosque-jardim.

E você, prezado amigo ou amiga, que lê ou escuta estas palavras e resgata flores do jardim da existência, ou perfumes do vidro de cristal da memória olfativa, ainda repara nas flores, onde quer que estejam, nos jardins ou em simples quiosques cobertos da beleza de flores, em qualquer estação?

Se você ainda tem a ventura de sentir e de ver dessa maneira, agradeça à Vida pela existência das flores, e faça delas inspiração para seu dia e carinho para seu coração.

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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