Florianópolis viveu de bar em bar

Movimento popular pede a reabertura do Ponto Chic, um dos balcões da história da Capital

[ Por Karla Santos, DC, 30/10/2004]

Existe um movimento popular em Florianópolis pela reabertura do Ponto Chic, café que se transformou em um ponto referencial na memória da cidade, que ficava na esquina da Felipe Schmidt com a Trajano e foi fechado em setembro.

O ponto localizado no Edifício São Jorge, sede do extinto Luxor Hotel, de propriedade da família Massad, tem um alto valor comercial. Fontes ouvidas pelo Diário Catarinense afirmam que o último proprietário do Ponto Chic não conseguiu manter o café aberto porque o aluguel, avaliado entre R$ 8 mil e R$ 10 mil, ficou muito caro. O empresário Nagib Massad, que há 30 anos se transferiu para São Paulo, não foi encontrado.

Calcula-se que, só de luvas, o interessado em abrir um negócio neste endereço teria de pagar entre R$ 300 mil e R$ 400 mil, o que inviabilizaria a manutenção do Ponto Chic caso aparecesse um empresário disposto a dar continuidade ao café. De acordo com o advogado Rogério Queiroz, um dos líderes do SOS Café Ponto Chic, Massad pretende alugar o prédio para uma financeira, o que é proibido por lei municipal (1.564 de 26 de abril de 1978, sancionada pelo então prefeito Esperidião Amin).

Tombamento teve recomendações favoráveis

Queiroz organizou um abaixo-assinado, com cerca de 700 nomes, pedindo o tombamento do prédio. A medida é vista como única saída para a reabertura do Ponto Chic. O documento foi entregue à prefeita Ângela Amin. A Procuradoria Geral do Município está fazendo a análise jurídica do caso, depois de receber recomendações favoráveis ao tombamento por parte do Instituto do Planejamento Urbano (Ipuf) e da Fundação Franklin Cascaes.

– Somos favoráveis à reabertura do café, com base no Estatuto da Cidade, que fala da preservação das tradições. Sugerimos que qualquer outra atividade que seja instalada naquele endereço, livraria ou confeitaria, por exemplo, mantenha o café – afirma Carlos Alberto Riederer, do Ipuf.

A prefeita Ângela Amin aguarda a análise jurídica do processo para tomar uma providência. Por enquanto, a prefeitura embargou uma obra iniciada no local sem o alvará da Secretaria Municipal de Urbanismo e Serviços Público (Susp). Esperidião Amin defende o tombamento ou da declaração de utilidade pública do espaço.

– Fui prefeito duas vezes e é isso que eu faria – afirma Amin.

Fechamento não evita que a fama se perpetue

No número 655 da Rua Hercílio Luz, esquina com Fernando Machado, onde há uma farmácia, funcionou um dos mais famosos bares de Florianópolis, o Roma, de 1973 a 2001. Tinha fama de ser o reduto gay e do melhor Carnaval de rua.

Apesar do fechamento, o ponto ainda é um dos principais referenciais do Carnaval na Capital. Quem gosta de Carnaval de rua, dá sempre uma passadinha pelo “Roma”, que virou sinônimo do lugar. O espaço em frente ao antigo bar é também palco do concurso de fantasias Gala Gay.

O ilhéu Ury Azevedo conta que gostava do bar porque estava sempre aberto. E o melhor do lugar, na opinião de Ury, era poder beber uma cerveja bem gelada com o cotovelo no balcão.

– Era bom porque era boteco – lembra.

O ex-proprietário, Dilnei da Silva, não suportou o aluguel caro. Mas ele deve abrir uma nova casa, também Roma, no Continente. Na foto, o dia do fechamento, em 30 de setembro de 2001.

No Mercado Público a resistência dura 37 anos

No Box 18 do vão central do Mercado Público funciona há 37 anos o Bar do Goiano. É um dos últimos redutos ilhéus para quem gosta de freqüentar um balcão conhecido e rico em histórias.

Como a de uma madrugada de 1961, quando o cantor João Gilberto chegou com seu violão às 6h para a saideira. Quem lembra do episódio é o jornalista e escritor Raul Caldas Filho:

– O João Gilberto veio fazer um show no Lira Tênis Clube e depois saiu para beber com o Luiz Henrique Rosa, seu amigo no Rio. Estávamos eu e o Ilmar Carvalho. Fomos ao Universal, na Jerônimo Coelho, que reunia de marinheiros a prostitutas. Quando fechou, fomos ao Mercado Público, o Bar do Goiano já estava abrindo. O João cantou e tocou até às 8h.

Saint Clair Ferreira, o Goiano, está aposentado. Quem comanda o bar é seu filho, Charlon Ferreira, 48, e deve prosseguir com o neto, Filippe, 21, que o caixa. O forte da casa com pinta de boteco do interior são a cerveja gelada e os pratos típicos, como mocotó, pimentão recheado, galinha caipira.

Um presidente já andou por ali, em 1979 

O Ponto Chic ficou conhecido também como Senadinho. E chegou a receber a visita de um presidente da República, João Batista Figueiredo, que gostava de medir a sua popularidade em cafezinhos no balcão que melhor representasse a alma das cidades pelas quais passava.

Na Capital a receptividade não foi positiva. Por pouco Figueiredo não apanhou no passeio que fez do Palácio Cruz e Sousa até o Senadinho, em 1979, e o episódio ficou conhecido como Novembrada.

Valter José da Luz, 65, comandava o Ponto Chic na época. Sem saudosismos, o homem que ficou do lado de dentro do balcão do Ponto Chic por 15 anos (1968 a 1983) afirma que é comercialmente inviável reabrir o café no mesmo endereço.

Escritor vê grande perda

Valter, que hoje curte a aposentadoria e toma sua rubiácea no Bob’s da Trajano, sugere a instalação de um café no calçadão da Felipe Schmidt. O proprietário teria de bancar a infra-estrutura de um quiosque e pagaria um aluguel para a prefeitura.

O escritor Sérgio da Costa Ramos diz que a cidade perde muito com o fechamento do Ponto Chic. E que o poder público e instituições como associação comercial e industrial deveriam se unir pela reabertura do lugar, a exemplo de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, que investem na revitalização de seus centros. O fechamento do lugar virou até uma crônica do colunista, na qual ele sugere uma das origens do nome Senadinho. Deixaram saudade.

Outros bares famosos:
Alvorada
Big Bravos
Café do Quidoca
Café Nacional
Cristal Lanches
Iron Bar
Praia Clube
Tiro Alemão
Universal

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