FOFINHA: DOCUMENTO PARA POSTERIDADE

Tomei a decisão. Não queria ser chato, mas volto a falar da Rádio Fofinha, aquela emissora imaginária criada em 1984, por mim, Maneca e Cacau. É que encontrei uma matéria do Jornal O Estado (SC), datada de 26 de setembro de 1985 que retrata a trajetória da rádio que fez sucesso principalmente no meio universitário. Achei interessante reproduzir para vocês o texto abaixo na íntegra, que leva a assinatura da jornalista Dinah Lopes e fotos de Marco Cezar.  Boa leitura.
Por Ricardo Medeiros

Rádio Fofinha, no ar e nos palcos
O Estado (SC) – 26/09/1985
“ZY Penca 2424, Rádio Fofinha transmitindo diretamente do Centro de Convivência em AFM estérico. Rádio Fofinha, única rádio que transmite a cores”. O prefixo não é de uma rádio comum e nem é transmitido diariamente nos aparelhos a que convencionamos chamar de rádio. A Fofinha, aliás, é própria para o palco, espaço que três estudantes de jornalismo-Ricardo de Medeiros, 22 anos, Manoel Mendes, 21 e Carlos Eduardo Lino, 19- estão utilizando desde o ano passado para rir de maneira seriado que é feito nas rádios, dos estereótipos, dos políticos, dos costumes, do cotidiano, Rir do rei, enfim.


Ricardão, Cacau e Maneca, o trio de “radialistas” que tenta fazer rir
falando de coisas sériasatravés de uma emissora fora do convencional.

É, com certeza, uma rádio diferente das várias que povoam a cidade. Sem censura e sem ondas médias e curtas, ela mais se caracteriza como uma rádio-teatro, que tem sido levada ao ar com sucesso de fazer inveja aos concorrentes do Ibope- nos auditórios e salas de aula da Universidade, nas festas promovidas pelos alunos do curso de jornalismo e, mais recentemente, no horário político destinado pela TV à campanha de Edison Andrino.

Foi justamente nesta apresentação televisada que Cacau, Maneca e Ricardão- os três apresentadores do programa- provocaram o acirramento das discussões. Na verdade, a polêmica em torno do programa que os estudantes elaboraram para abordar de uma maneira alegre os problemas dos jovens não chegou a ser algo inesperado. Ao contrário, a Fofinha atingiu mais um de seus objetivos: provocou discussões.
Assim, as opiniões se dividiram: de um lado, os conservadores repudiaram a sua apresentação nos horários eleitorais de domingo e segunda-feira, coincidindo com o Dia Internacional da Juventude (domingo). De outro- no caso favorável- estavam os cansados com a mesmice do horário político e das programações convencionais das rádios da cidade.


Cena de uma propaganda, também presente na estrutura da rádio Fofinha

Com descontração e criatividade, eles agradaram esta faixa mostrando como é difícil também para um jovem viver numa capital sem infra-estrutura. Para chamar a atenção dos telespectadores acerca deste problema, usaram a mesma fórmula encontrada por humoristas como Jô Soares e Chico Anísio. Ou seja, vestiram-se de mulheres em algumas cenas e encarnaram personagens reais, como é o caso do repórter Andorinha Medeiros (representado por Ricardo Medeiros), perguntando se a juventude era só rock’n roll.
Com papéis masculinos e femininos, conservadores ou liberais, houve momentos sérios e alegres. Num deles, o repórter estereotipado correndo atrás do ônibus no Estréio. Diante de tentativas inúteis-o que certamente ocorre com milhares de pessoas que se submetem ao problemático transporte coletivo da Ilha-, ele resolveu enfrentar o trajeto até o CIC a pé, em imagens que certamente provocaram muitos risos.
Mesmo com a proposta de satirizar nossos sérios problemas, muitos não gostaram, visualizando somente os “travestis”. Mas é justamente esta uma das características da Fofinha que mais agrada o seu restrito público universitário. Na curta existência da rádio-teatro, que soma apenas seis apresentações, o público tem sido cada vez mais numeroso.
Na terça-feira, por exemplo, o auditório do Centro de Convivência da UFSC ficou praticamente lotado. Alunos e professores queriam assistir a mais uma apresentação do grupo, que, desta vez, riu de César Souza, do reitor Rodolfo Pinto da Luz, do drama Roleta e Jumieu (uma alusão a Romeu e Julieta), dos disc-jóqueis da cidade, dos comerciais, de Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau e de outros personagens reais e imaginários.

 
Marilena Xixi: sessão de conselhos

Na verdade, o sucesso e os convites cada vez mais freqüentem para as apresentações não estavam nos planos dos três estudantes, que agora contam com a adesão e apoio de outros dois colegas-Gílson Gaspodini e Jair dos Santos. Ricardão, Maneca e Cacau começaram despretensiosamente com uma atividade de sala de aula. Matriculados atualmente na sexta fase do curso de jornalismo da UFSC, eles, para cumprirem no final do ano passado uma exigência do professor de Estética e Comunicação de Massa, decidiram satirizar um programa de rádio, partindo de brincadeiras que um ou outro fazia ao repetir vinhetas de algumas empresas radiofônicas.

A repercussão foi imediata dentro do curso de jornalismo, com os alunos e professores incentivando a continuidade do programa. Os próprios idealizadores da rádio dizem que tudo aconteceu casualmente. “Começamos brincando e a coisa foi tomando volume até sair dos limites da universidade”. Um claro sintoma de que a rádio Fofinha só deu certo porque as pessoas aprovaram.
E à medida que o trabalho foi se corporificando, também foi se reafirmando a proposta de fazer rir com a mistura da sátira, do sério e do político, sempre colocados de acordo com o ambiente em que os três apresentadores estão se expondo. No caso do programa de Andrino, a tônica foi a cidade. Na universidade, a própria universidade.
Partindo de realidades concretas, Cacau, Maneca e Ricardão tentam não se isentar de nada do que acontece nos scripts que produzem conjuntamente. O processo de criação e de elaboração de roteiro sempre envolve muita discussão e brigas, mas termina num plano acordo do que deve ser levado par ao palco. É no palco também que os três-de personalidades totalmente diferentes, se completam. Tímido, Maneca dá um direcionamento ao programa, funcionando como uma espécie de elo entre os quadros que, para serem encenados, dependem da ousadia e da descontração de Ricardão e de Cacau.


Ironizando o reitor Pinto da Luz

Enquanto Maneca faz a locução de forma satírica e anuncia os quadros, Ricardão e Cacau encarnam os personagens de forma irreverente: “Tentamos imitar brincando sério com as pessoas, mesmo que sejam mulheres”. E eles têm uma explicação para os papéis femininos, alvo de críticas do público conservador. “É a forma que os programas de humor mais tradicionais encontraram para fazer rir”. Além do mais, dificilmente conseguiram o objetivo da graça se colocassem uma mulher para desempenhar uma empregada doméstica que solicita ou oferece músicas nos programas-coisa que Ricardão consegue sem muito esforço.
A rádio Fofinha, na verdade, é uma sucessão de quadros aparentemente comuns aos que ouvimos diariamente. A exceção está no humor e na proposta irônica que os três fazem questão de expressar nas seções de notícias, de cartas e de conselhos, no disc-jóquei Beto Balanço, na sexóloga Marilena Xixi, na Ave Maria e na novela.
Mesmo sabendo que “enquanto os conservadores tiverem voz a rádio Fofinha será criticada”, os estudantes estão dispostos a levá-la adiante. E o que há algum tempo era descartado atualmente é possível. Hoje, por exemplo, eles já se permitem alguns planos para um futuro próximo, entre eles, o de levar a Fofinha para o auditório da Casa da Cultura.


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