Folhas soltas

Folhas soltas é o novo livro do radialista Donato Ramos onde ele reúne algumas das muitas crônicas que escreveu nos últimos 50 anos. Grande parte delas lidas por ele mesmo ao microfone de emissoras do Paraná e de Santa Catarina. Outras lidas por nomes famosos como o da apresentadora Olga Bongiovanni. Donato Ramos é um profissional impregnado pelo rádio: ele dorme e sonha com rádio; ele acorda com o despertar do rádio. É uma espécie de mimetismo, ou simbiose, quem sabe? Pois o rádio, ele garante, tem alma e por isso é um ser que mexe com as emoções das pessoas dando corpo e vida a imaginação delas. Donato ri e chora com o rádio. É romântico, lírico às vezes e também sofredor como na crônica de apresentação do livro que você pode ler a seguir.

Lendo os jornais

(No Natal, ali pela década de 90, não importando o ano)

Logo na primeira página, do primeiro jornal:
– Sequestrado, empacotado e dopado o bebê…
– Papai Noel é  ameaçado de morte pelo próprio sogro, em Salvador.
– Violentou a viúva que cobrava dívida, em Brasília.
Cansei desse; vou para o outro:
– Professor estuprou aluna menor em quarto de motel, em Belém.
– Discutiu com o pai e foi morto a golpe de peixeira.
– Um homem foi dominado, em Laranjeiras e suas calças foram utilizadas para amarrar os seus pés, enquanto sua camisa foi usada para enforcá-lo. Foi encontrado de cuecas no Morro da Uva.
– Um homem com as mãos amarradas com cordinhas de nylon boiava nas águas do Rio Sarapuí, em São Paulo.
– Detento foi torturado por 15 guardas, também em São Paulo.
Chega. Pego outro jornal. Talvez, melhore:
– Fuzilados os dois presos encaminhados à delegacia, em Três Rios.
– Prenderam a empregada e sequestraram garotinho, em Porto Alegre.
– 6 policiais e dois advogados do Grupo Anti-Sequestro foram presos, por participarem de extorsão em sequestro.
– Espancado e morto a tiros, em Queimados.
Sei lá, entende? Largo o jornal e, ao mesmo tempo, acho o início do editorial que estava escrevendo para a Rádio Cidade de Cascavel. Acho que vou rasgar e a Olga Bongiovanni ficará sem editorial hoje. Veja só o que estava escrito:
“Hoje o pôr-do-sol vai ser lindo… E, quando ele chegar, escondido atrás de todo o seu brilho, renascerá de dentro de mim uma nova luz, um novo sorriso, uma nova esperança… As estrelas sorrirão para mim e, dentro dos meus olhos, salpicará algum instante de felicidade…”
Parei para ver o sol se esconder atrás do horizonte conhecido.
Foi aí que abri o primeiro jornal. E, daí, resolvi parar de escrever e rezar por uma nova conduta social para o meu imenso e tão sofrido país.
Mas, mesmo assim, desejo a vocês o tradicional: Boas Festas e Feliz Ano Novo!

Donato nasceu num sábado, 25 de abril, em Echaporã, SP, em 1936. No manual do consumidor estava escrito: poeta, cronista, radialista, jornalista, músico, pintor, compositor e escritor. Ah!  E vai ser imortal… Pela Academia Cascavelense de Letras. Começou em rádio fazendo de tudo um pouco na Clube Marconi em Paraguaçu Paulista. Em seguida invade o Paraná, quando o estado fica pequeno vem para Santa Catarina e assim vai levando a vida até aportar como Antoine de Saint-Exupéry nas terras de Campeche ao sul da Ilha de Santa Catarina.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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