Francesinhas

Muito se disse e escreveu acerca da mais recente incursão europeia de Woody Allen. Por isso, e para não repisar o óbvio, achei melhor dirigir minha divagação semanal a uma beldade que o filme não revelou, porque já era conhecida, porém tornou ainda mais visível – a atriz Marion Cotillard. Aliás, perdão, ela será apenas o pretexto para uma declaração de amor a mulheres francesas que o cinema ofereceu ao mundo – mesmo que essa filmografia seja menor, do ponto de vista mercadológico, que a vertente americana, com sua competente estratégia de varrer qualquer concorrente, sobretudo nos países onde, como dizia o samba, “everybody is macacada”.

Desde Jeanne Moreau e Simone Signoret, ainda em preto e branco, passando por Catherine Deneuve, Fanny Ardant, Brigitte Bardot, Jacqueline Bisset e Isabelle Hupert, há um quê de sedutor, de fatal, nessas atrizes que têm Paris como domicílio. E o que dizer de Anouk Aimée, que fez mais de 70 papéis, mas que foi imortalizada por estas bandas pelo par com Jean-Louis Trintignant em “Um Homem, uma Mulher”, realizado em 1966 por Claude Lelouch, contando uma relação marcada por lembranças irremovíveis, mal cicatrizadas, ao som de uma trilha que ficou mais famosa que o filme?

Como na produção de Woody Allen, difícil é não se render à nostalgia do passado, que achamos sempre mais perfeito, ou menos eivado de pecados, que o presente. Contudo, são da geração de Cotillard, ou um pouco antes, rostos que nos encantam e nos aprisionam à tela grande. Juliette Binoche, Audrey Tautou, Isabelle Adjani e Sophie Marceau estão aí para mostrar seu talento e seu charme, que o idioma parece potencializar. Nessa lista da terra de Asterix poderiam, sem compromisso temporal, figurar Emmanuele Béart, Jane Birkin, Sandrine Bonnaire – e Maria Schneider, por que não?

“Meia Noite em Paris” é uma deliciosa viagem a uma época em que Paris era o centro do mundo, mas quem se interessa pelos personagens de Owen Wilson, Carla Bruni e Rachel McAdams? Nem Picasso, nem Hemingway, nem Dalí, nem Scott Fitzgerald são mais relevantes que Adriana, a garota que todos querem para si e que, encarnando um papel secundário, perpassa todo o filme – que acaba, como era de esperar, quando ela sai de cena.

Adriana não é a bela da tarde, nem a mulher do lado, nem a amante da ponte Neuf. É a personagem que liga o presente a um tempo em que, ao contrário do que costumamos supor, os homens também tinham suas angústias e buscavam dar sentido, através da arte, para o drama de existir.

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