Francisco Mascarenhas, o dom da comunicação

Florianópolis que tranquila e serena vivia embalada pelas ondas cálidas que abraçam a Ilha de Santa Catarina, vive seus dias de doce marasmo até meados dos anos 1950.

Tx onda curtaEis que, porém,  com os ventos dos novos dias, de repente, a Ilha se vê sacudida por ondas diversas, mas também muito acolhedoras, emitidas pelos transmissores de duas novas estações de rádio. Uma transmitindo em ondas médias e outra em ondas curtas.

Eram as artes de um personagem que nascera com o dom da comunicação e que aportara na Ilha dos Ocasos Raros com a missão conquistar os ouvintes que até então dividiam seu tempo escutando a Rádio Guarujá e as emissoras de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Chiquito, como era conhecido, recebera a incumbência e levava à sério sua missão. Tanto que, após a implantação da Rádio Diário da Manhã em 1955, logo em seguida tratou de desvendar os mistérios da nascente televisão brasileira trazendo uma exibição de TV em circuito fechado para mostrar essa nova tecnologia. Isso aconteceu assim como eu já havia contado em matéria anterior neste site Caros Ouvintes.

As primeiras imagens de TV em Santa Catarina foram exibidas em Florianópolis, em fins de 1955 ou início de 1956. Embora os entrevistados não tenham chegado a um acordo com relação a data, o evento é confirmado em depoimentos que fazem parte do acervo do Instituto Caros Ouvintes, por vários profissionais que atuavam na emissora à época. Entre eles, Augusto Borges de Mello, operador de som e auxiliar técnico, e os locutores Carminatti Júnior, Iran Manfredo Nunes e Fernando Linhares da Silva.

AS, Mascarenhas e MirandinhaA iniciativa de Francisco Mascarenhas, diretor da Rádio Diário da Manhã contou com o empréstimo de equipamentos e assistência técnica de uma das emissoras de São Paulo – Tupi ou Record. A demonstração foi gerada durante a transmissão de um programa de auditório e exibida nos monitores instalados na marquise do prédio sede da emissora, na praça XV de Novembro.  “O programa contou com a participação de Francisco Mascarenhas e dos locutores Nívea Marques Nunes, Humberto Mendonça, Iran Manfredo Nunes e Carminatti Júnior”, confirma Fernando Linhares da Silva. Também confirma essa informação o atual odontólogo Sandro Mascarenhas, à época operador de som (áudio) da emissora.

A repercussão foi imediata entre ouvintes que queriam saber de detalhes e à noite, além de lotar o auditório, formou-se do público de mais de 100 pessoas que se aglomerou na frente do prédio da emissora na Praça XV de Novembro. A demonstração  foi o assunto da cidade por mais de uma semana e serviu como estopim para estimular a caça às imagens fortuitas que entre chuviscos e chiados, eram captadas pelos telemaníacos da época.

Sabendo da existência de emissoras de TV em Curitiba e Porto Alegre, o catarinense não se conforma com o seu jejum televisivo. Com imensas antenas nos telhados e até nos morros vizinhos, a busca, entretanto, mal resultava na sintonia, geralmente por poucos minutos, dos sinais de emissoras da Argentina, do Rio de Janeiro e até de Pernambuco. Ninguém desistia, porém.

A constante tentativa de capturar sinais de transmissões televisivas, além de desenvolver tecnologias de captação de sinais de origens incertas e não sabidas, criou vasto repertório de piadas e de casos jocosos. O irreverente espírito ilhéu deitou e rolou fazendo a alegria da galera e também levando o desalento aos renitentes “caçadores de imagens fantasmas”, como ficaram conhecidos os possuidores de aparelhos de TV no período de 1957 a 1963.

Um episódio típico da época foi registrado por Maristela Amorim no seu Projeto Experimental de conclusão do Curso de Comunicação – Habilitação Jornalismo da UFSC. Diz ela:

“Aloísio Ribeiro, telegrafista dos Correios e Telégrafos no início dos anos 1960, foi um dos primeiros a possuir aparelho de televisão em Florianópolis. Sobre esse tempo. (…) Conta que uma noite, já de madrugada, nós estávamos jogando e com a TV, do lado, ligada. Nunca se pegava nada, mas ela ficava sempre ligada. De repente ouvimos alguma coisa e, surpresos, acabamos assistindo um filme brasileiro O Assalto ao Trem Pagador. O interessante é que ele estava sendo rodado com legendas em espanhol, as vozes, é claro, em português. No dia seguinte soubemos que isso foi possível porque uma emissora de Porto Alegre, ao sair do ar, captou a freqüência de uma estação do Uruguai e lançou adiante. Nós, acidentalmente, recebemos as imagens e fizemos bom proveito do pressente.

Assim os caçadores aumentavam e ao mesmo tempo a pressão crescia. Desse amálgama surge a idéia da criação de uma entidade capaz de encontrar soluções de interesse comum. Para o movimento se organizar foi apenas uma questão de tempo. Em 1963 surge a Sociedade Pró-Desenvolvimento da Televisão de Florianópolis. Objetivo: trazer os sinais das emissoras de Porto Alegre para a Capital catarinense. (Fotos: 1. Mascarenhas com diretores da Philips do Brasil acompanhando a assinatura do contrato de compra do primeiro transmissor de ondas curtas para Santa Catarina. 2. Programa Céu é o Limite na Rádio Diário da Manhã. Mascarenhas, diretor da emissora, informa detalhes do programa para o apresentador Antunes Severo e o candidato, maestro Mirandinha. 3. Mascarenhas em seu escritório na rádio, em 1956)

No site há uma série de matérias contando – das peripécias iniciais ao surgimento – das primeiras emissoras de televisão em Santa Catarina.

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  1. […] concorrente, pianista e maestro Mirandinha, que respondia sobre Franz Liszt. Foto retirada do Site http://www2.carosouvintes.org.br/francisco-mascarenhas-o-dom-da-comunicacao/ realizado acesso no dia […]

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