Fred e Zé

Essa conversa teve início quando os amigos reunidos na barbearia do Otávio falaram sobre o que vale mais: Se cuidar pra valer, abrindo mão de alguns prazeres, ou simplesmente curtir a vida, afinal de contas, quem sabe o dia de amanhã, se cuidando ou não?

Seu Victor foi o primeiro a comentar, dizendo que o importante é o equilíbrio. Juvenal disse que nunca fora de se cuidar muito e depois do que lhe aconteceu algum tempo atrás iria curtir a vida com menos equilíbrio. Juvenal foi aquele sujeito dado como morto, colocado num caixão e chegou a ser velado na sala da sua casa. Depois de algumas horas acordou e fez os amigos correrem de medo. O assunto foi tão comentado que rendeu até um conto que leva seu nome: A estranha volta de Juvenal. Por isso ele dizia que depois daquele susto sua maneira de viver havia mudado; o que significava em seu caso mais festas e menos cuidados.

Nesse mesmo instante entra na barbearia o Zé. Um gato de rua, não por escolha própria, antes por maldade humana, havia sido abandonado. Havia também o Fred. Caso similar. Os dois com a mesma idade e o mesmo modo de vida, aliás, um que Juvenal admirava. Não dá para saber o grau de amizade entre eles, ou se havia algum tipo de comunicação entre os felinos. Apenas Juvenal dizia entendê-los. Esse era um costume de Juvenal, falar com qualquer espécie de animais, fossem pássaros, cães, cavalos, gatos. A turma só ria. Afinal de contas, Juvenal perguntava e respondia. Parecia um daqueles tradutores que ouve alguém falar em outro idioma e imediatamente traduz.

Por fim voltaram a falar sobre os gatos. A esposa do barbeiro participava de um projeto que era elogiado por alguns clientes e abominado por outros. Seu Victor, aposentado e com mais de 80 anos, se dizia a favor. Contava com o apoio do radialista Álvaro Antunes Carriel. No lado contrário, apontando o gesto da mulher de Otávio como uma crueldade estavam principalmente Felisberto e Juvenal. Acontece que Elizabeth apoiava um projeto de castração em especial para animais abandonados ou adotados. Seu Victor e Carriel tentavam convencer os amigos de que tal ação ajudava por vários motivos. Um deles é que esses animais castrados não reproduziriam novos animais abandonados à própria sorte.

Elizabeth argumentava sabiamente que os pobres animais passavam fome, frio, brigavam com outros gatos e se feriam, além de ficarem produzindo mais animais que viveriam abandonados. E vivendo assim teriam uma vida curta. Castrados iriam viver mais e melhor. Juvenal alegava que esse era o ponto de vista dela. No seu ponto de vista e com o apoio de Felisberto, mais valia uma vida com algumas privações, menos comida, mais brigas e até uma vida mais curta, contanto que vivessem felizes, o que segundo os amigos era o caso do Zé e do Fred. Alegavam que tinham uma vida boa. Namoravam todas as gatinhas do bairro. Recebiam carinho e comida não só na barbearia e no bar, mas também de outros moradores. Que os animais deveriam ter direito a escolha. Tanto Juvenal quanto Felisberto tremiam só em ouvir a palavra – castração.

Havia chegado o dia anterior à cirurgia do Zé e do Fred. Felisberto viu e ouviu, mas preferiu disfarçar. Enquanto Juvenal servia ração ao Zé em frente à barbearia, aproximou-se dele e disse: “Não apareça aqui amanhã. De um jeito de comer em outro lugar, mas não venha aqui amanhã. Estão planejando algo horrível pra ti e para o Fred”. Felisberto ora pensava que o amigo estava meio doido ora pensava que estava só de brincadeira. O Fred não deu o ar da sua graça no dia anterior a delicada cirurgia. Juvenal avisou apenas ao Zé.

No dia da cirurgia Fred chegou ao salão do Otávio. Não havia recebido o aviso do Juvenal. Foi gentilmente colocado em uma gaiola e levado à cirurgia antes de comer e sem saber do que se tratava. O Zé não apareceu por 3 dias. Quando Felisberto soube disso lembrou das palavras do Juvenal ao Zé: seu suposto alerta. Felisberto pensou ser simples coincidência. Meses se passaram.

Depois de 6 meses da cirurgia do Fred o Zé se mantinha como um galã no bairro Bela Vista em São José. Como dizia Juvenal, o Zé faturava as gatinhas do bairro, passeava à noite toda sem ninguém lhe cobrar horário, comia na casa onde preferia, até no bar e na barbearia. O radialista Antunes Carriel estava lá naquele exato momento. Disse que soube que o Fred estava vivendo em um apartamento confortável. Tinha sua cama. Frequentava um Pet Shop todos os meses. Assim que Carriel terminou seu comentário o dono do Fred apareceu na barbearia só para dar um, oi. Estava com o gato no colo. Robusto, pelos sedosos, com ares de quem estava bem cuidado. Carriel apontou para o Fred e disse que ali estava a prova do bem que lhe fez a castração. Juvenal chegou perto do gato. Pediu para segurá-lo um pouco, o dono deixou. Felisberto prestou atenção e viu que Juvenal falava com o gato, depois aproximava seu ouvido da boca de Fred e em seguida ambos olharam para o Zé que de barriga cheia depois de mais uma noitada bocejou e olhou para o Fred. Em seguida Fred voltou ao colo do dono que despediu-se e foi embora.

Os amigos favoráveis a castração, que eram a maioria, perguntaram para Juvenal se ele agora entendia o porquê é tão importante? Juvenal disse que essa era a opinião deles. Felisberto, meio sem jeito, perguntou se o Fred havia comentado algo. Os amigos não conseguiam entender como Felisberto poderia fazer uma perguntas dessas. Juvenal disse que sim. E que era de partir o coração. Juvenal sentou-se e disse que iria contar como fora a conversa com Fred. Ele falou que o próprio Fred havia iniciado o desabafo:

– Está vendo só a cara do Zé? Me olha com ar de solidariedade; puro deboche – impressão sua, respondi ao Fred. Perguntei como estava a nova vida. Fred, disse:

– O apartamento é confortável. A comida é boa. O dono muito atencioso e carinhoso. No Pet Shop sou muito bem tratado. Vivo cheiroso. Moro no 10º andar de um edifício de frente para o mar; detesto o mar. Não imaginava encontrar o Zé aqui. Minha vontade é de pular no seu pescoço. Desgraçado – Juvenal disse que havia avisado o Zé sobre a cirurgia.

– Por isso mesmo – disse, Fred e acrescentou – o Zé na noite anterior me disse que passaria uns 3 dias fora. Perguntei pra ele se viria aqui na barbearia para o café da manhã. O safado disse que não e que eu poderia até comer a sua parte.

Juvenal na tentativa de acalmar Fred, disse:

– Não dê bolas pra isso, Fred.

– Nunca mais me fale em bolas – retrucou, Fred – Juvenal pediu desculpas e falou:

– Pense pelo lado positivo, meu amigo. Tu não tens mais aquela vida louca. Terá uma vida, longa e confortável.

– Agora tenho mais vontade ainda de pular no pescoço desse traidor. Me devolva para o meu dono, por favor.

Juvenal olhou para cada um dos amigos e disse que assim foi a conversa. Todos ficaram pasmos e preocupados com a sanidade de Juvenal. Felisberto sentou-se e disse de cabeça baixa:

– Acho que devemos falar com a Elizabeth e marcar a cirurgia do Zé também – Carriel olhou para os lados e perguntou:

– Onde está o Zé?

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