Futebol e rádio de mãos dadas

A coluna da semana que passou versou sobre os problemas que o rádio esportivo de SC enfrentou nos últimos dias. Está mais do que claro que brasileiro “não vive sem rádio”, e o futebol também.
Por Edemar Annuseck

Quando eu tinha uns 8 anos, já me deliciava com o dial do rádio. Ficava fascinado quando podia “corujar” as emissoras brasileiras pelas ondas médias e curtas acompanhando especialmente programas e transmissões esportivas. No rádio de Blumenau comecei ouvindo futebol com o Jeser Jossi Reinert (falecido em 1972), Vitoriano Cândido da Silva, o Tesoura Junior, Orlando Marlos no Plantão Esportivo da PRC-4 . Vejam como o rádio mexe com a imaginação do ser humano.
Achava que o Tesoura Junior usava boné branco e tinha baixa estatura. Num determinado domingo perto do meio dia observei um movimento na rua que passava na frente da minha casa. Ví Edgar Knaesel então diretor e treinador do Guarani FC de Blumenau orientando uma pessoa junto aos postes de telefonia. Aí conheci Tesoura Junior que à tarde estaria com a equipe da PRC-4 transmitindo  jogo do Guarani.
Aí caiu a ficha; Tesoura Junior não era baixinho, não usava boné branco, ao contrário, era um senhor de 1,80 aproximadamente e fumava charutos cubanos. Anos mais tarde já trabalhando pela Rádio Nereu Ramos, tive que suportar as baforadas do grande comentarista nas cabines dos estádios.
Eram só os onze
Ouvia pela Rádio Clube – PRC-4 e depois pela Rádio Nereu Ramos, ZYT-42, a partir de 1958 todos os noticiários. Quando comecei a freqüentar os jogos do Guarani
cujo estádio ficava próximo de minha casa, me identificava com os jogadores, graças ao rádio. Naquela época os times só podiam utilizar 11 jogadores por partida. Não havia reservas e substituições, até que introduziram a Regra 3.
Você sabia de cor e salteado quais os onze de cada time, graças ao rádio. Hoje com a possibilidade de três alterações, com sete reservas no banco, e negociações quase que diárias de jogadores, o torcedor passa batido.
Não fosse o rádio os torcedores assistiriam aos jogos sem poder distinguir quem está em campo. As informações ao longo de uma transmissão servem para se tome conhecimento dos cartões amarelos, substituições, renda, público, explicações de jogadores, técnicos e resultados das outras partidas.
Ver e ouvir
Levar o rádio ou walk-man para o estádio se tornou moda a partir do surgimento do rádio portátil. Hoje quase não se ouve mais os sinais do tempo de jogo e do placar emitidos pelas rádios, porque o torcedor acrescentou o fone para escutar a transmissão. Quem gosta de futebol não dispensa o rádio nos estádios. Como seria o futebol sem os programas e transmissões; os programas que antecedem as Jornadas Esportivas, as entrevistas na chegada dos jogadores, dos torcedores, as escalações das equipes.
As tevês iniciam as transmissões 15 minutos antes do início dos jogos, exceto em decisões.
A televisão paga pelo futebol que exibe porque comercializa as grandes cotas publicitárias. Não dá para comparar a mídia do rádio com a da tevê.
O rádio não tem condições de pagar para utilizar cabines. Impedir a entrada dos profissionais no estádio e gramado é um caso muito sério e que merece a análise da ACESC (Associação de Cronistas Esportivos de SC), ABRACE (Associação Brasileira de Cronistas Esportivos), Associação das Emissoras de Rádio, Sindicato de Jornalistas e Radialistas, Ministério das Comunicações, Abert, Anatel e Associação Brasileira de Imprensa.
Não resolveria
Mesmo os clubes cobrando pela liberação das cabines e acesso dos repórteres aos gramados, o que isto resolveria financeiramente. Nada, absolutamente nada. 
As dívidas dos clubes, seus gastos mensais transcendem a qualquer contribuição financeira que o rádio possa dar. O rádio já paga sua cota promovendo, divulgando e provocando as polêmicas entre dirigentes e torcedores.
O futebol precisa ser administrado por pessoas competentes, de preferência por profissionais, afinal é um esporte profissional. Os clubes não deveriam gastar mais do que arrecadam. Será que estou exagerando. Será que os dirigentes pensam dessa forma. Acho que não, porque a maioria dos clubes está endividada até o pescoço.
Manifestações e soluções
Li com atenção os comentários emitidos pelos internautas. O senhor Zé Pereira, que não se identificou pelo nome completo, coloca uma opinião de quem está por fora do que ocorre no rádio e clubes (Caros Ouvintes deveria permitir comentários e opiniões com a identificação do endereço eletrônico dos internautas).
O José Alberto de Souza, nosso maravilhoso “poeta das águas doces” colocou muito bem em sua análise : as tevês estão buscando horários alternativos para mostrar o Campeonato Brasileiro para a Ásia e Oriente Médio. Querem fazer futebol aos domingos pela manhã facilitando a exibição e com isso abrindo novos mercados de faturamento. É aí que os clubes devem apostar, e não quer cobrar das emissoras de rádio. Edélcio Vieira e Paulo Branchi confirmam ter sido feito um acordo pelas rádios e clubes, para acabar com o problema. Mas, o Branchi – grande narrador – ressalta que os “marqueteiros”, intermediários das negociações, estão famintos Brasil afora”. Obrigado também a Altieres Barbiero Junior (filho do grande comunicador do rádio paulista Altieres Barbiero), Elias Torrent de Belo Horizonte pelos comentários e ao Cientista Social e Pesquisador da História Adalberto Day que faz como de hábito sua manifestação  carinhosa pelo conterrâneo que conhece só através da internet. Nosso agradecimento a ACAERT (Associação Catarinense das Emissoras de Rádio e Televisão) pela publicação da matéria.
Imparcialidade na informação
Tenho rabiscado sempre sobre fatos reais em Caros Ouvintes. Meu negócio mesmo é o microfone. Mestres do texto são Antunes Severo, Ricardo Medeiros, José Alberto de Souza, ponto.
Sempre pautei pela imparcialidade ao microfone e nos textos. Aqui em casa Margot minha esposa faz questão de me lembrar sempre – você tem uma história muita bonita no rádio, não permita que seja jogada na lama-. Ouvir isso depois de quase 42 de união e 44 anos de profissão, me dá certeza de que esse é o caminho. O jornalismo ensina que antes da notícia ser levada ao público, sejam ouvidas as partes envolvidas.
Espero que a paz volte ao futebol do meu estado, que se respeite o rádio, companheiro de todas as horas, no carro, no escritório, na pescaria, no quarto, no banheiro, nos estádios.
Até a próxima.
Opine.
 


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Por Edemar Annuseck

Edemar Annuseck, jornalista, narrador esportivo que iniciou na Rádio Nereu Ramos de Blumenau em 1964 e depois atuou nas Rádio Jovem Pan, Tupi, Record de São Paulo, Clube Paranaense, Cidade e Globo/CBN de Curitiba, TV Jovem Pan e SPORTV, Editor da página de esportes do Jornal A CIDADE DE BLUMENAU, cobrir 5 Copas do Mundo (74, 78, 82, 86 e 90).
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