Garanhão da terceira idade

Próximo de completar oitenta anos de idade o velho político tinha suas cismas.

Uma delas era conseguir, pelo menos mais uma vez, conquistar o eleitorado e assumir a prefeitura. Outra cisma era com relação a sua fama de conquistador e atleta sexual.

Contam os mais velhos que na juventude, foi um assíduo frequentador de camas alheias. Costumava ser generoso com as eleitas, dando presentes e cercando de muitos agrados, fossem elas solteiras, viúvas ou casadas. Agia como um pescador que lança a rede no arrastão da praia; “Caiu na rede é peixe”. Fazia rondas na pequena cidade, a espera da oportunidade de um encontro amoroso. Sabia aonde cada marido ia e quando voltava. Atuava com desembaraço e sem medo. Ousado e descuidado acabou arranjando alguns filhos nunca reconhecidos oficialmente, mas identificados na comunidade por traços físicos muito claros e definidos.

Os anos se passaram, os tempos mudaram, os cabelos brancos apareceram e receberam em seguida uma competente tintura para manter a aparência mais jovem. Bem mais velho, continuava mais cismado com sua condição de conquistador. A idade que trouxe mais experiência não mudou seu comportamento com relação às mulheres de sua cidade. Continuou tentando sempre uma nova conquista. Em sua última campanha política, revelou energia e entusiasmo, como se fosse o jovem dos anos 50 iniciando uma carreira de muitos votos e mulheres. Disputava eleições à moda antiga. De casa em casa, apertando a mão do eleitor, fazendo promessas que na maioria das vezes não eram cumpridas. Simpático e bom de trato gostava de uma boa conversa com o eleitor e se deixava levar longe quando a conversa era com uma eleitora. Com elas mudava o tom, falava baixinho quase sussurrando assumindo um ar secreto de quem já tem cumplicidade de outros encontros. Diziam que era uma tática que usava para novas conquistas. Falar baixinho com leve sorriso, fazendo elogios e lançado olhares lânguidos e cheios de sensualidade. Algumas mulheres que ficaram frente a frente com ele e resistiram, diziam que se tratava de um ser sexual, perigoso e sempre pronto para invadir uma cama sem proteção.

-Ele foi sempre assim – dizia um velho morador da cidade que sabia de amores escondidos do velho político.

Alguns assessores de campanha eleitoral temiam que as investidas do candidato sobre o eleitorado feminino resultasse num escândalo e consequente perda de votos.

Certa noite fazendo uma série de visitas num bairro distante ficou alvoroçado quando entrou na casa de um eleitor, cuja mulher lhe pareceu uma deusa de beleza e sensualidade. Foi traído pelo entusiasmo e acabou passando a mão nas nádegas da mulher. Flagrado pelo marido armou-se uma discussão que exigiu muita habilidade dos assessores para evitar um final trágico. O marido injuriado decidiu registrar queixa na Delegacia de Polícia por assédio sexual contra sua esposa.

Passados alguns dias chegou uma intimação pedindo a presença do candidato para um depoimento. Entrou em pânico. Chamou os amigos mais íntimos para tentar encontrar uma saída e evitar prejuízo político numa hora importante da campanha eleitoral.

Foi contratado um advogado para orientar seu comportamento diante da situação.

– Na qualidade de seu advogado, neste momento, eu considero oportuno que o senhor vá depor e use um argumento que acho adequado para o caso. Declare que foi uma brincadeira e que na sua idade, sexo é coisa do passado.

A reação foi rápida e em altos brados.

_ Nem pense nisso, doutor: vou preso, mas não digo uma coisa dessas.

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