Gardel, o tango e o rádio do Rio Grande do Sul

Toda a semana, a cena repete-se várias vezes no Fofa, o pequeno restaurante dos uruguaios Constantino – o Costa – Geordiavis e Dario Schol, ouvintes assíduos do programa Tangos en la Noche, apresentado por Roque Araújo Viana, desde 1978. Por Luiz Artur Ferraretto

Quando se ouve a voz clara e vibrante de Carlos Gardel, o gesto de Costa, atrás do balcão, entre uma baforada e outra do cigarro, é sempre o mesmo: dedo indicador sobre os lábios a pedir silêncio.
Ali, entre as mesas, há a mesma certeza de tantos outros admiradores do principal intérprete do ritmo rio-platense, certeza materializada na placa colocada por um admirador anônimo no túmulo do cantor no Cemitério de la Chacarita, em Buenos Aires:
– Quando os homens singrarem o espaço em naves espaciais ainda dirão: “Cantas cada vez melhor”.
Nos anos 20, pela proximidade, o tango já chega ao Rio Grande do Sul pelas emissoras de Buenos Aires e Montevidéu, facilmente captadas em Porto Alegre. Em meados da década seguinte, com as rádios já buscando audiência e vivendo de anúncios, o ritmo é apresentado gravado em discos trazidos do Rio de la Plata e, ao vivo, por orquestras ou conjuntos especializados, reproduzindo ao microfone o que é comum, então, nos bares, confeitarias e restaurantes da capital do estado. Naquele 24 de junho de 1935, há 70 anos, chega, pelas rádios portenhas, o impacto da morte de Carlos Gardel em um acidente de avião na Colômbia.


Carlos Gardel na NBC Radio, em Nova Iorque.

Assim, quando a PRH-2 – Rádio Sociedade Farroupilha é inaugurada mais ou menos na mesma época, contrata Paulo Coelho, um talento roubado à Gaúcha e emprestado dos cafés, confeitarias e boates da cidade. Ex-aluno do Conservatório de Música, ele abandonara o erudito pelo popular, adotando a noite da capital como palco. Ao piano, o Gordo – como era chamado – encanta os freqüentadores da Confeitaria Colombo, uma das casas em que mais atua, ou dos bailes das sociedades, para os quais seu conjunto transformara-se em disputadíssima garantia de sucesso. Coelho traz para a PRH-2 o esquema dos bares da cidade, onde se alternam, a cada 30 minutos, apresentações da Típica – responsável pela execução dos números de tango – e do Regional – tocando sambas, chorinhos, enfim, música brasileira.
Nas décadas seguintes, apesar da crescente presença da música oriunda dos Estados Unidos, as emissoras locais ainda vão manter em seus elencos fixos um ou outro intérprete de tango. É o caso de Carmen del Campo, “la morocha”, com passagens pela Gaúcha e Farroupilha nos anos 50. A Itaí, por sua vez, em meados da década, apresenta diariamente o programa Em Tempo de Tango. Também grandes nomes como Hugo Del Carril farão temporada, com certa freqüência, nas emissoras locais.
Nas últimas décadas, Tangos en la Noche garante a presença do ritmo e da informação a seu respeito no dial desde 1978, quando estréia na então Rádio Jornal do Comércio, depois Princesa. Em 1997, transfere-se para a emissora educativa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde é veiculado de segunda a sexta-feira, das 20 às 21h. Ao vivo e com informações a respeito do tradicional ritmo rio-platense, Tangos en la Noche aproveita o acervo musical do apresentador Roque Araújo Viana, que, em 2001, incluía 1.300 elepês e 400 compact-discs. Garante, ainda, o silêncio respeitoso de admiradores de Gardel como Costa, Dario e vários de seus clientes.

 Gardel e Le Pera (MP3)


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