Gastança

Dizem que o consumismo exacerbado de nossos dias pode ser explicado pelos milênios de privações enfrentadas pelo homem ao longo da história. Ou seja, depois de passar fome, frio e todo tipo de abstinências, chegou a hora de chutar o balde, porque as coisas estão aí mesmo para serem usufruídas e degustadas. Há quem veja a compulsão pelo consumo como resultado do papel da indústria do entretenimento e da propaganda, que é o de inculcar nas pessoas o desejo de comprar, de adquirir, de agregar algo ao seu patrimônio, mesmo quando não há necessidade disso.

A cada passo que damos as mensagens sonoras, os cartazes, os outdoors, tudo estimula a consumir, seja um carro de luxo, seja o papel higiênico mais macio e perfumado…

E há a precisão de desovar a produção em escala que emergiu após a Revolução Industrial. Sem consumo, como manter o emprego de bilhões de pessoas no mundo? Hoje, o que é lançado em Nova York chega na semana seguinte à periferia e pode ser encontrado no camelódromo mais próximo.

Essa, aliás, é uma marca dos tempos que correm. Você pode comprar uma camisa Tommy (acho a logomarca paupérrima, pouco vendável) a poucos metros de casa. Não precisa mais tomar um avião e ir para o hemisfério norte. Perfumes, loções, cremes, conservas chiques, vinhos caros – tudo se encontra à mão, desde que a sua conta bancária suporte a transação.

O celular da moda, o computador mais leve que existe, a engenhoca que antes levava anos para chegar, hoje está aqui, para a alegria de quem compra tudo o que é novidade, meio que para preencher algum vazio, quem sabe um distúrbio que não se sabe explicar. E dá-lhe dívidas, prestações, o cartão estourando, porque não faz sentido ficar atrás dos outros, abrir mão de confortos que os amigos exibem com furor.

Contudo, se foram fabricados 650 milhões de celulares no ano passado, uma pergunta insiste em não calar: de que parte da natureza isso tudo saiu? Onde está o buraco de onde a matéria-prima foi extraída? E para onde vão essas geringonças quando deixam de funcionar? Aliás, elas têm vida cada vez mais curta…

A essa altura, lembro de uma crônica de Danuza Leão na Folha, tempos atrás. Ela escreveu que luxo mesmo deve ser “morar em um país onde se possa andar na rua sem olhar em volta com medo de ser assaltado”.

Isso, convenhamos, é para poucos, porque nem nas nações tidas como desenvolvidas se está livre da abordagem dos amigos do alheio. Nem nas ruas e praças, nem nos parlamentos, onde se pratica outra espécie de estelionato.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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