George Peixoto, desenhista juramentado

Depois de 40 aos de propaganda, George Peixoto, o Picolé, dedica-se em tempo integral ao lápis e aos pincéis

Paulo Clóvis Schmitz

Peixoto. Foto (detalhe) Débora Klemplous/ND

Quarenta anos e uma cirurgia cardíaca depois de entrar na publicidade, George Alberto Peixoto se tornou um dos mais ativos desenhistas da Ilha de Sana Catarina.  Picolé, como é conhecido no meio, passa boa parte o dia entre canetas, pinceis e tintas, criando o que o trabalho pesado na agência Propague, como diretor de arte, criação e planejamento, não permitiu nos tempos de ativa. Seu apartamento no Centro de Florianópolis mescla trabalhos prontos ou em projetos com as centenas de CDs dos filhos Maurício e Marcelo, que são músicos – e também publicitários. No momento, Picolé prepara a próxima exposição, e só sai do sério quando fala da tranqueira em que se transformou a cidade, com sua mobilidade capenga.

George Peixoto, na verdade, sempre desenhou, e foi esse pendor que o levou do rádio para a publicidade, no final dos anos 1960. Depois de atuar na Rádio Santa Catarina, que mantinha uma programação refinada, só com música e noticiário, ele foi chamado por Antunes Severo, criador e proprietário da Propague, e por Emílio Cerri, seu colega na emissora e diretor de criação da agência, para mudar de ares. A propaganda estava deixando de ser um trunfo do rádio e passava a abarcar também os jornais – e aí é que entrou o talento do desenhista.

Em quatro décadas na publicidade, ele participou de campanhas memoráveis como os lançamentos do complexo do Ceisa Center, que foi vendido em pouco tempo com direito a árias de Mozart tocadas pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, e do Edifício Apolo. Com seus lápis e tintas, fez as marcas de empresas do porte da Cecrisa, Portobello, Portinari, Intelbras e Besc. Como desenhista, também produziu capas de livros de autores como Raul Caldas Filho, Sérgio da Costa Ramos e Jair Hamms. E continua nessa lida, quando convidado, além de fazer folheteria para espetáculos teatrais, como ainda ocorre com as peças do Grupo teatro Sim… Por que não?!!!

Celeiro da publicidade

Os anos áureos da propaganda foram também os mais trabalhosos, porque era preciso viajar de carro até cidades próximas e distantes, em todo o estado, para atender os clientes da agência. Nas mãos de Roberto Costa, seu dono atual, a Propague se estadualizou e acabou ganhando unidades no interior. Mesmo com fama de ser uma das melhores do mundo, a propaganda brasileira trabalhava com pouco dinheiro, o que obrigava os profissionais a criarem com recursos limitados. “Na época, todos pegavam juntos, davam palpites, e eram mais participativos”, conta George Peixoto. Hoje, constata, cada um faz uma coisa, tem sua própria sala e dialoga mais com o computador do que com os colegas.

Em 2008 quando se aposentou, ele era mais um orientador dos jovens do que um profissional da criação. E conta que pela Propague passou muita gente boa, que criou sua própria agência. “Foi uma espécie de celeiro de profissionais de propaganda”, define Picolé, cujo apelido deriva do perfil longilíneo e dos tempos em que jogou basquete. Ou seja, a Propague foi a faculdade de comunicação que não existia aqui até o final dos anos 1970. Entre tantos outros, Picolé lembra de amigos como Antunes Severo, Pedro Carlos Martins, Saulo Silva e Rozendo Lima, além de radialistas como Adolfo Zigelli e Souza Miranda.

Planos definidos

George Peixoto é ilhéu nascido no Centro da cidade e diz que na sua juventude se chegava aos lugares em cinco minutos, a pé.

“Tudo acontecia no triângulo entre a ponte Hercílio Luz e o início e o final da Avenida Mauro Ramos”, recorda. Mesmo admitindo que cada época tem suas coisas boas e ruins, ele se altera ao falar de como as administrações do município engessaram a cidade – fechando a Avenida Paulo Fontes, por exemplo.

Hoje, ele passa várias horas por dia desenhando, sem pressa, e nem cogita em voltar para a pintura, que exercitou nos anos 1970, nas poucas horas de folga, e que lhe permitiu até participar de alguns salões de arte. Com o apoio de Roberto Costa, realizou uma individual de seus sonhos do Museu de Arte de Santa Catarina, e depois uma exposição de mandalas “Bichodelic”, que fizeram muito sucesso. Agora, prepara outra individual com desenhos que se inspiram em artistas como Meyer Filho e Juan Miró. “Eles vão ficar prontos em junho”, anuncia, dando uma pista de que já vive a sua próxima exposição.

ND | Plural | Perfil | Segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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